O advogado da presidente afastada
Dilma Rousseff, o ex-ministro José Eduardo Cardozo, disse ao GLOBO que o
objetivo da petista é responder aos questionamentos dos senadores, durante o
julgamento final do processo de impeachment, que se inicia na próxima
quinta-feira, embora não seja obrigada a respondê-los. Dilma decidiu se
defender pessoalmente no plenário do Senado, o que acontecerá, pelo calendário
definido, no dia 29 de agosto. A presidente afastada falará por 30 minutos, mas
poderá ter seu tempo prorrogado a critério do presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF), Ricardo Lewandowski.
— A presidente Dilma comparecerá e
vai responder às perguntas, e, portanto, podem ter absolutamente clareza de que
ela atenderá àquilo que for solicitado. A presidente nunca teve receio, não tem
e não terá receio dos efeitos de qualquer situação porque ela tem sua
consciência absolutamente tranquila — disse Cardozo, que conversou com Dilma
nesta quarta-feira.
A presidente afastada poderá ser
interrogada pelos senadores, pela acusação e pela defesa. Cada um terá cinco
minutos para fazer suas perguntas. Os aliados petistas comemoraram sua decisão
de comparecer.
Lewandowski e os líderes no Senado
sacramentaram nesta quarta-feira as regras para o julgamento final, que poderá
durar até sete dias. Presidente do processo de impeachment, o ministro foi
convencido pelos senadores a realizar sessões no fim de semana, caso seja
necessário. O cronograma prevê o início do julgamento na próxima quinta-feira,
mas a votação final só deverá ocorrer na madrugada do dia 31. O acordo é só
interromper o julgamento depois de ouvidas todas as testemunhas, duas de
acusação e seis de defesa.
PRESIDENTE ENFRENTARÁ SENADORES
A decisão do comparecimento de
Dilma foi comunicada aos líderes partidários durante o encontro de Lewandowski
com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A petista vinha sendo
aconselhada pelo próprio Cardozo e por Renan a comparecer e deixar sua marca
histórica. Inicialmente, Dilma queria apenas fazer um pronunciamento e sair.
Mas, depois, incomodada com a versão de que teme o confronto, avisou que
responderá a todas as perguntas.
O líder do DEM, Ronaldo Caiado
(GO), disse que ninguém será “inábil” ao fazer perguntas a Dilma. Nos
bastidores, a preocupação é não torná-la vítima no processo, embora não
acreditem em reversão do placar favorável ao impeachment.
— Espero que ela tenha humildade
de se curvar e que reconheça seus erros — disse Caiado, acrescentando: —
Tivemos algumas oposições ao trabalho no final de semana, mas não poderíamos
interromper os trabalhos antes de esgotar o depoimento das testemunhas.
O líder do PSDB no Senado, Cássio
Cunha Lima (PB), afirmou que Dilma vai legitimar o processo:
— A vinda dela é um erro. Ela vai
legitimar o processo que chama de golpe.
Já o líder da oposição no Senado,
Lindbergh Farias (PT-RJ), que sempre foi defensor da presença de Dilma, elogiou
a decisão.
— Ela vem e vai se sair muito bem.
É o momento em que o país vai parar — disse Lindbergh.
José Eduardo Cardozo reclamou da
decisão de ouvir testemunhas no fim de semana e reforçou que os aliados de
Dilma farão perguntas a todos, alongando o processo. A presidente falará após a
oitiva das testemunhas.
— Vamos trabalhar até esgotarmos a
oitiva das testemunhas. E ingressaremos, se for necessário, na madrugada de
sexta para sábado porque as testemunhas serão isoladas umas das outras e
estarão num quarto de hotel à disposição — explicou Lewandowski.
Segundo participantes do encontro,
essa questão foi a que mais debate gerou. Inicialmente, o presidente do Supremo
queria interromper o julgamento na sexta-feira, mas foi convencido por líderes
a estender a sessão se necessário.
Renan sempre defendeu os trabalhos
no fim de semana e articulou com os líderes a proposta apresentada e acatada
por Lewandowski.
— Tenho estimativa muito otimista.
Acho que, se houver dedicação, como esperamos que haja, poderemos ter essa
decisão na madrugada de segunda-feira ou, no mais tardar, na manhã de
terça-feira — disse Renan, que errou todas as previsões anteriores sobre tempo
de duração das sessões.
Antes de ouvir as testemunhas,
Lewandowski resolverá as questões de ordem dos senadores, logo no início do
julgamento, marcado para as 9h do dia 25 de agosto. Como na fase de pronúncia,
no último dia 9, no dia 25 será feita uma pausa das 13h às 14h e depois, das
18h às 19h.
— E continuaremos até o momento em
que for necessário para iniciarmos a oitiva das testemunhas — disse o
presidente do Supremo.
Encerrada a fase com a presidente
Dilma, falarão os juristas autores do pedido de impeachment e a defesa. Só
então começarão os debates, com os 81 senadores podendo falar por até dez
minutos cada. A expectativa é que os senadores passem toda a terça-feira, dia
30, nos discursos, levando a votação para o dia 31.
Para aprovar o impeachment em
definitivo, são necessários 54 votos dos 81 senadores. A votação será por
painel eletrônico. O processo de impeachment passa por três grandes votações no
Senado: a admissibilidade (abertura), que aconteceu dia 12 de maio; o chamado
juízo de pronúncia, que ocorreu nos dias 9 e 10 deste mês; e o julgamento
final, que começará dia 25.
Dilma está afastada do cargo desde
12 de maio. O prazo máximo de afastamento é de 180 dias.
A previsão é que o julgamento
acabe na madrugada do dia 31, devido ao número de senadores dispostos a falar e
à quantidade de testemunhas arroladas. Os aliados de Dilma calculam que cerca
de 40 senadores farão perguntas às oito testemunhas, o que daria 2,6 dias no
total.
— Não há prazo para término —
disse o presidente do STF.
Para agilizar o julgamento, a
acusação desistiu de uma das três testemunhas arroladas na semana passada:
Leonardo Rodrigues Albernaz, auditor federal de Controle Externo da Secretaria
de Macroavaliação Governamental do Tribunal de Contas da União (TCU).
Já a defesa arrolou seis
testemunhas, com destaque para o ex-ministro Nelson Barbosa e o economista e
professor Luiz Gonzaga Belluzzo.
Agência O Globo

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