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| O documento diz, ainda, que o Brasil não deverá "participar de qualquer atividade relacionada ao pacto ou à sua implementação". |
Em telegrama
enviado a missões no exterior, Itamaraty diz que país não participará de acordo
assinado em dezembro e que define diretrizes para acolhimento de imigrantes;
para ONG, decisão é 'extremamente lamentável' e não leva em conta situação de
brasileiros que vivem no exterior.
Em telegrama
emitido nesta terça-feira (8), o Ministério das Relações Exteriores pediu a
diplomatas brasileiros que comuniquem à Organização das Nações Unidas (ONU) que
o Brasil saiu do Pacto Global para a Migração, ao qual o país tinha aderido em
dezembro, no fim do governo Michel Temer.
A BBC News
Brasil teve acesso ao documento em que o Ministério solicita às missões do
Brasil na ONU e em Genebra a "informar, por nota, respectivamente ao
Secretário-Geral das Nações Unidas e ao Diretor-Geral da Organização
Iternacional de Migração, ademais de quaisquer outros interlocutores
considerados relevantes, que o Brasil se dissocia do Pacto Global para Migração
Segura, Ordenada e Regular".
O documento
diz, ainda, que o Brasil não deverá "participar de qualquer atividade
relacionada ao pacto ou à sua implementação".
Procurado, o
Itamaraty não confirmou a informação até a publicação desta reportagem. Porém,
diplomatas afirmaram à BBC News Brasil em condição de anonimato que o telegrama
está circulando no sistema do Ministério e chegou aos destinatários.
Nas últimas
semanas, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores,
Ernesto Araújo, já haviam anunciado no Twitter que o país deixaria o pacto.
Araújo o classificou como um "instrumento inadequado para lidar com o
problema (migratório)", defendendo que "imigração não deve ser
tratada como questão global, mas sim de acordo com a realidade e a soberania de
cada país".
Direitos
humanos para migrantes
Negociado desde
2017, o pacto estabeleceu diretrizes para o acolhimento de imigrantes. Entre os
pontos definidos estão a noção de que países devem dar uma resposta coordenada
aos fluxos migratórios, de que a garantia de direitos humanos não deve estar
atrelada a nacionalidades e de que restrições à imigração devem ser adotadas
como um último recurso.
O documento foi
chancelado por cerca de dois terços dos 193 países membros da ONU. Algumas
nações poderosas - caso dos EUA, Itália, Austrália e Israel, entre outros -
ficaram de fora por avaliar que o pacto violava a soberania dos Estados.
O ex-chanceler
Aloysio Nunes Ferreira, que representou o Brasil nas negociações, já havia
criticado a ideia de abandonar o pacto.
"A questão
(migratória) é sim uma questão global. Todas as regiões do mundo são afetadas
pelos fluxos migratórios, ora como pólo emissor, ora como lugar de trânsito,
ora como destino. Daí a necessidade de respostas de âmbito global", ele
escreveu no Twitter.
Aloysio afirmou
ainda que o pacto não "autoriza migração indiscriminada" e
"busca apenas servir de referência para o ordenamento dos fluxos
migratórios, sem a menor interferência com a definição soberana por cada país
de sua política migratória".
Movimentos
conservadores simpáticos à candidatura de Bolsonaro eram críticos ao acordo.
Em Bruxelas
(Bélgica), um protesto contra o pacto convocado por grupos de extrema-direita
reuniu cerca de 5 mil pessoas e terminou com confrontos entre manifestantes e
forças de segurança, em dezembro.
Migrantes
brasileiros no exterior
Para Camila
Asano, coordenadora de Política Externa da ONG Conectas, o abandono do acordo
pelo Brasil é "extremamente lamentável".
"Mostra
que o governo não está olhando para a totalidade das pessoas que precisam de
proteção", ela afirmou, assinalando que há mais migrantes brasileiros
vivendo no exterior do que estrangeiros no Brasil.
Segundo Asano,
ao deixar o acordo, o governo brasileiro não considera os "muitos
brasileiros que vivem em outros países e sofrem pela negação de direitos
básicos".
Ela diz que o
pacto exprime um "consenso muito mínimo, mas ainda assim muito valioso, sobre
quais seriam boas práticas para o acolhimento dos fluxos".
"O Brasil
vai minando uma das suas principais credenciais internacionais: ser um país
formado por migrantes e com uma política migratória vista como referência, o
que vinha dando voz potente ao Brasil nas discussões internacionais sobre o
tema", lamentou.
Por BBC

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