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© BBC Loja
onde o autor do massacre de Las Vegas, Stephen
Paddock, comprou armas | Foto: Ricardo
Senra/BBC Brasil
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A loja de armas
dirigida por David Famiglietti, que tem 30 e poucos anos e gosta de caçar
animais de grande porte, fica em uma pequena ilha comercial entre as montanhas
e a areia cinzenta do deserto de Nevada, a meia hora de carro do centro de Las
Vegas.
Desde o último
domingo, quando um de seus clientes abriu fogo contra uma multidão de 20 mil
pessoas e deixou 59 mortos e mais de 500 feridos, o movimento da loja, até
então formado por donos de pequenos sítios, militares da reserva e famílias
inteiras de entusiastas de armas pesadas, ganhou companhia indigesta:
jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas de todo o mundo em busca de
informações.
Na última
terça-feira, a BBC Brasil estava entre os novos visitantes da New Frontier
Armory.
Quando a
reportagem se aproximou do balcão, um jovem atendente de barba interrompeu uma
explicação sobre as pistolas da vitrine e se adiantou, apontando para uma
equipe de chineses que carregavam câmaras com lentes enormes. "Você é um
deles?"
Antes da
resposta, o homem estendeu um papel gasto com o email de Famiglietti, também
vice-presidente da Coalizão de Armas de Fogo de Nevada, ligada a Associação
Nacional do Rifle - principal grupo lobista pró-armamento dos Estados Unidos e
doador de US$ 30 milhões para a campanha de Donald Trump à Presidência.
Do lado de
fora, um homem magro na casa dos 60 anos, notando a frustração deste repórter,
pede um isqueiro e diz que "o dono (da loja) está aí, sim, vem todos os
dias. Mas não quer falar pessoalmente com jornalistas".
'Não era a
intenção'
Famiglietti
proibiu pessoalmente todos os funcionários e funcionárias de responder a
qualquer pergunta da imprensa.
Deu ordem para
que informassem a todos que apenas ele, o presidente da New Frontier Armory,
seria a fonte para perguntas sobre o ocorrido.
A reportagem
esperou duas horas até que um alerta no celular mostrasse uma resposta em
formato de nota oficial, na qual Famiglietti confirmava que o atirador Stephen
Paddock, que se suicidou quando a polícia estava prestes a arrombar seu quarto,
havia comprado "várias armas de fogo" ali no início do ano.
Ele fez apenas
uma visita à New Frontier Armory.
O texto também
ressaltava que todos os requisitos locais, estaduais e federais haviam sido
preenchidos pelo atirador, e apontava que, desde o evento, a loja vinha
colaborando "de todas as maneiras possíveis" com as investigações do
FBI.
As respostas
técnicas satisfizeram boa parte da imprensa americana, que vem repetindo as
aspas de Famiglietti à exaustão.
Mas os jornais
acabaram deixando de lado trechos mais pessoais do texto.
"Não
vendemos estas armas com a intenção de que ele pudesse machucar alguém de
qualquer maneira, caso se prove que ele usou essas armas específicas neste
crime terrível", diz o proprietário.
Ele prossegue:
"Seria como se culpassem o hotel Mandalay Bay por alugar um quarto (para
ele), ou as autoridades por nos darem permissão para fornecer a arma - isso
obviamente não foi feito com más intenções."
Famiglietti
também diz, na nota enviada à reportagem, que ele e seus funcionários vêm sendo
alvos de ameaças e difamação desde o massacre.
"Desde que
saiu a notícia de que nós somos uma das várias lojas onde Paddock comprou armas
de fogo nesta área, eu e meus empregados estamos recebendo mensagens de ódio
com ameaças, telefonemas e SMSs ameaçadores", diz.
"Mesmo
sabendo que isso não é o importante neste momento, pedimos que as pessoas
deixem sua raiva onde ela está em vez de ameaçar e machucar outras
pessoas."
A loja vem
recebendo ataques em comentários e avaliações no Google e em portais
especializados. "Ótimo lugar para se abastecer para um assassinato em
massa", diz um recente.
Por dentro da
loja
A tensão,
entretanto, não parece ter abatido as vendas. Nas duas horas em que a
reportagem esteve presente, duas pistolas foram vendidas, além de vários
acessórios e materiais de proteção.
Atrás do
balcão, pai e filho perguntavam sobre um fuzil belga, vendido por US$ 2.549 (R$
7,9 mil).
"Que caro,
pai!", disse o menino. Ambos se interessaram mais por uma Colt
semiautomática (US$ 1059, equivalente a R$ 3,3 mil).
Pelo menos 200
armas ficam em exposição no estabelecimento, que abre de domingo a domingo.
As prateleiras
não têm só armas, silenciadores e munição.
Também são
vendidas camisetas como a que diz "Apocalipse Zumbi - ajudando os vivos a
continuarem vivos e os mortos a continuarem mortos".
Uma série de
DVDs da marca "Táticas Vikings, feita de guerreiros para guerreiros"
ocupa uma prateleira inteira e ensina desde fundamentos básicos para tiros de
carabina e rifle, até dicas para acompanhar animais de caça sem ser percebido.
No caixa, um
recipiente plástico com uma espécie de crânio guardava chocolates. A reportagem
quis provar um e não conteve o susto ao tirar o bombom: "Bang! Você está
morto", "disse" a caveira.
Nas paredes,
alvos de tiro em formato humano se enfileiram por 99 centavos de dólar. Um
deles, chamado "homem mau", retrata um homem com cara de poucos
amigos apontando uma pistola.
'Armas
alteradas'
Após receber a
nota oficial, a reportagem retornou o email de Famiglietti de dentro da loja,
perguntando se poderia tirar mais algumas dúvidas.
"Responderei
com prazer", respondeu o proprietário em poucos minutos.
As novas
perguntas se referiam a um eventual "estigma", destacado por veículos
de imprensa americanos, que defensores do armamento estariam enfrentando após o
maior assassinato em massa da história do país.
Após o
episódio, políticos do partido Democrata vêm pressionando o governo por leis
federais mais exigentes no controle de vendas de armas e acessórios - algo que
o presidente Trump voltou a se recusar a comentar em visita rápida a Las Vegas
na terça-feira.
A BBC Brasil
também perguntou qual era o perfil dos clientes da loja e se há planos de
mudanças ou reforços nas verificações feitas sobre quem pretende comprar
armamento.
As respostas,
até a publicação desta reportagem, não haviam chegado.
Na única nota
enviada, o dono da loja também afirmou que as armas vendidas ao atirador
"não saíram do estabelecimento com a capacidade de fazer o que vimos e
ouvimos, sem modificações".
"Não eram
armas completamente automáticas e não haviam (sido) modificadas de nenhuma
forma (legal ou ilegal) quando compradas de nós."
Desde que o
Congresso americano aprovou a Lei de Proteção dos Proprietários de Armas de
Fogo, em 1986, o acesso de civis a armas novas e totalmente automáticas se
tornou extremamente restrito.
Milhares de
armas consideradas "de direito adquirido" - fabricadas e registradas
antes de 1986 - ainda podem ser compradas, mas por preços bastante altos e com
necessidade de aprovação pelo Escritório de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e
Explosivos do governo americano, em Washington.
A polícia
americana diz que o atirador usou um acessório legal em 12 de seus rifles
semiautomáticos para que eles pudessem disparar centenas de rodadas por minuto.
Os dispositivos
foram encontrados no quarto de Paddock no hotel Mandalay Bay - junto a um total
de 23 armas de fogo.
Os
"bump-stocks", ou adaptadores deslizantes de fogo", permitem que
os rifles semiautomáticos disparem a uma velocidade semelhante à de uma
metralhadora - e podem ser comprados sem as checagens exigidas para a compra de
armas automáticas.
De acordo com o
site de vendas online da loja, o produto não é comercializado pela New Frontier
Armory.

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