Artigo - Por Angel Morote
Para quem vive com uma deficiência física, a fisioterapia
não é um luxo, um complemento ou um tratamento opcional. Ela é parte essencial
da nossa sobrevivência, da nossa independência e da nossa dignidade. Como
amputado, paratleta e pessoa com deficiência, falo não apenas pela experiência
pessoal, mas também pela realidade de centenas de moradores de Rio das Ostras
que dependem diariamente dos serviços de reabilitação oferecidos pelo
município.
A fisioterapia é a ferramenta que permite que uma pessoa
amputada aprenda a utilizar sua prótese, que um cadeirante preserve sua
funcionalidade, que uma vítima de acidente vascular cerebral recupere
movimentos e que pessoas com doenças neurológicas consigam manter qualidade de
vida. Sem esse acompanhamento contínuo, a consequência é o agravamento da
condição clínica, o aumento da dependência, o isolamento social e, muitas
vezes, novas internações hospitalares.
O problema é que a realidade encontrada atualmente por
muitos pacientes em Rio das Ostras está muito distante do que determina a
legislação brasileira e dos princípios que regem o Sistema Único de Saúde
(SUS).
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei
nº 13.146/2015) estabelece que a pessoa com deficiência tem direito à
habilitação e à reabilitação, visando ao desenvolvimento de potencialidades,
talentos, habilidades e aptidões físicas, cognitivas, sensoriais, psicossociais
e profissionais. A legislação também determina que os serviços de saúde devem
garantir atendimento integral, acesso universal e continuidade do tratamento.
A própria Constituição Federal assegura a saúde como um
direito de todos e dever do Estado. Não se trata de favor político, nem de
benefício concedido por gestores públicos. Trata-se de um direito fundamental.
Entretanto, o que muitos pacientes relatam é uma realidade
marcada por filas extensas, demora para marcação de consultas e sessões de
fisioterapia, dificuldades para conseguir vagas e uma estrutura que já não
parece compatível com a crescente demanda da cidade.
Existem relatos de pacientes aguardando meses para serem
chamados para atendimento. Em alguns casos, quando a vaga finalmente aparece, o
quadro clínico já se agravou. Em processos de reabilitação, tempo é um fator
decisivo. A recuperação de movimentos, força muscular e funcionalidade depende
diretamente da rapidez com que o tratamento é iniciado.
Para uma pessoa que acabou de sofrer uma amputação, por
exemplo, cada semana sem fisioterapia representa perda muscular, dificuldades
de adaptação à prótese e aumento do risco de complicações. Para um paciente
neurológico, a demora pode comprometer ganhos funcionais que dificilmente serão
recuperados posteriormente.
Ainda mais preocupantes são os relatos de familiares que
precisam chegar durante a madrugada para tentar garantir uma vaga ou uma
inscrição para atendimento. Pessoas que já enfrentam dificuldades financeiras,
emocionais e físicas acabam submetidas a longas esperas, muitas vezes em
condições inadequadas.
Há relatos de cidadãos aguardando atendimento em filas
durante a noite, dividindo espaço com pessoas em situação de rua e outros
grupos vulneráveis, sem qualquer estrutura adequada de acolhimento.
Independentemente da condição social de cada indivíduo, ninguém deveria
precisar passar por esse tipo de situação para tentar acessar um serviço de
saúde garantido por lei.
Outro ponto que merece reflexão é a estrutura física do
Centro Municipal de Reabilitação. O crescimento populacional de Rio das Ostras
e o aumento da demanda por atendimentos especializados exigem planejamento
constante, ampliação de espaços, contratação de profissionais e investimentos
em equipamentos modernos.
A reabilitação de pessoas com deficiência não pode ser
tratada como uma política secundária. Ela é uma das áreas mais estratégicas da
saúde pública. Um paciente bem reabilitado ganha autonomia, retorna ao mercado
de trabalho, participa da vida comunitária, pratica esportes, reduz internações
e melhora significativamente sua qualidade de vida.
Investir em reabilitação não gera despesas. Gera economia.
Cada complicação evitada representa menos gastos hospitalares. Cada paciente
que recupera sua independência reduz a necessidade de atendimentos mais
complexos no futuro.
Nos últimos dias, a situação chegou também ao debate
político. O presidente da Câmara Municipal, vereador Marciel, cobrou
providências da Prefeitura e direcionou críticas à condução da saúde municipal,
defendendo mudanças que possam garantir respostas mais rápidas à população. A
manifestação demonstra que o problema deixou de ser uma reclamação isolada e
passou a ocupar espaço nas discussões institucionais do município.
Mas independentemente das disputas políticas, existe uma
questão que não pode ser ignorada: quem está sofrendo com a demora não são
números em relatórios administrativos. São pessoas reais. São crianças com
deficiência, idosos em recuperação, vítimas de acidentes, pacientes
neurológicos, amputados e cadeirantes que dependem diretamente desses serviços
para manter sua autonomia.
Quando a fisioterapia falha, não é apenas um atendimento que
deixa de acontecer. É uma oportunidade de recuperação que pode ser perdida. É
um direito que deixa de ser garantido. É uma vida que pode se tornar mais
limitada.
Como paratleta, aprendi que a superação existe. Mas também
aprendi que força de vontade sozinha não resolve tudo. Nenhum atleta
paralímpico conquista resultados sem treinamento adequado. Nenhuma pessoa
amputada consegue adaptação plena sem acompanhamento profissional. Nenhum
cadeirante preserva sua saúde física apenas com determinação.
Por isso, é necessário que o município trate a reabilitação
como prioridade absoluta. É preciso ampliar a capacidade de atendimento,
reduzir filas, fortalecer as equipes multiprofissionais, modernizar estruturas
e garantir que nenhum cidadão precise esperar meses por um serviço essencial.
A pergunta que fica é simples e incômoda: se o movimento é
vida e a fisioterapia é a ferramenta que garante esse movimento, por que ainda
permitimos que tantas pessoas tenham seu direito à reabilitação interrompido
pela demora, pela burocracia e pela falta de estrutura?
A população de Rio das Ostras merece uma resposta. E, mais
do que respostas, merece soluções.

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