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Estrangeiros
não usam moeda local, o won, diz Schenkel
(Foto:
Arquivo pessoal/Cleiton Schenkel)
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Diplomata
gaúcho Cleiton Schenkel, que vive com mulher e filho pequeno em Pyongyang há
pouco mais de um ano, relata 'apreensão' com atual momento de tensão global
envolvendo o país.
"É um
funcionário corajoso, cumprindo bem o seu papel, sobretudo para nos dar
informações sobre aquilo que acontece num ponto nevrálgico da política mundial.
E nós vamos mantê-lo lá", disse há duas semanas em Pequim o ministro das
Relações Exteriores, Aloysio Nunes, quando questionado sobre o possível fechamento
da embaixada brasileira em Pyongyang, capital da Coreia do Norte.
Na ocasião, o
país, liderado por Kim Jong-un, havia acabado de testar a poderosa bomba H, seu
mais significativo teste nuclear até então. Depois disso, ainda lançou um
míssil de médio alcance que sobrevoou o Japão.
O
"funcionário corajoso" a que Nunes se referiu é o gaúcho Cleiton
Schenkel, de 46 anos, atualmente encarregado de negócios da embaixada. Morando
com a mulher, também servidora pública (em licença), e seu filho pequeno há pouco
mais de um ano em Pyongyang, ele é o único integrante do corpo diplomático
brasileiro no país que se tornou o principal foco de tensão global.
Os três são,
atualmente, a única família brasileira vivendo na Coreia do Norte. Fora eles,
só há mais uma brasileira: a mulher do embaixador da Palestina. Ela nasceu no
Brasil e tem cidadania, mas saiu do país ainda criança.
"Temos a
exata noção da sensibilidade da situação. Não vivemos com medo ou em pânico.
Mas não se pode negar que estamos apreensivos, especialmente por causa do atual
momento", diz ele em entrevista por telefone à BBC Brasil, durante a qual
se evitou tocar em assuntos políticos ou polêmicos.
Na semana
passada, durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, fez um discurso com duras críticas ao regime
norte-coreano. Segundo ele, "se os Estados Unidos forem forçados a
defender a si mesmos ou seus aliados, não teremos outra escolha senão
totalmente destruir a Coreia do Norte".
Trump também
zombou de Kim Jong-un, que descreveu como "o homem-foguete em uma missão
suicida". O líder norte-coreano reagiu, dizendo que Trump pagaria caro por
seu "discurso excêntrico".
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Brasil
mantém embaixada na capital norte-coreana, Pyongyang,
desde 2009;
família de Schenkel mora nos andares de cima
(Foto: MRE/
BBC)
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"Seja lá o
que Trump estivesse esperando, ele irá enfrentar resultados além de sua
expectativa. Eu certamente e definitivamente irei domar o mentalmente
perturbado senil dos EUA com fogo", afirmou Kim Jong-un, prometendo
medidas "do mais alto nível".
Há 11 anos no Itamaraty,
com passagens por Harare (Zimbábue) e Genebra (Suíça), Schenkel chegou a
Pyongyang em junho do ano passado, pouco antes da saída do embaixador Roberto
Colin, hoje em Tallinn (Estônia). Passou, então, a comandar sozinho a
representação diplomática, que conta com seis funcionários locais e fica no
térreo da casa de dois andares onde mora com a família. A embaixada brasileira
foi inaugurada em 2009.
"Minha
função é, predominantemente, de observação política. O Brasil é o único país
das Américas com embaixadas nas duas Coreias. Nossa presença aqui nos permite
formar uma visão própria sobre as questões na península", destaca.
Trabalho e
lazer
Munido de seu
inseparável chimarrão, Schenkel trabalha de 9h às 18h todos os dias, quando
atualiza os colegas de Brasília sobre os desdobramentos da política
norte-coreana. Ocasionalmente, tem reuniões com membros do governo ou com
representantes dos outros postos e organizações internacionais no país.
Apesar das
sanções internacionais, o Brasil é um dos países que ainda negocia com a Coreia
do Norte. No ano passado, segundo dados do Mdic (Ministério da Indústria,
Comércio Exterior e Serviços), o fluxo comercial foi de US$ 10,75 milhões
(cerca de R$ 34 milhões em valores atuais) - bem aquém do auge de 2008, quando
somou US$ 375,2 milhões.
No tempo livre,
Schenkel dedica-se a assistir aos jogos de seu time do coração, o Grêmio, pela
internet, ouvir MPB e passear com a família pelas ruas do bairro diplomático,
onde a embaixada está localizada. A família também costuma frequentar um clube
restrito à comunidade internacional, que conta com piscina, academia e área de
lazer. O acesso ao bairro é minuciosamente controlado: só entra quem é
diplomata ou funcionário das 24 embaixadas em Pyongyang.
São poucas as
opções de lazer, contudo. Na vizinhança, há poucos restaurantes e um único
centro de compras para estrangeiros, com barbearia, supermercado e lojas de
roupa. Produtos internacionais, como queijos, vinhos e cervejas, estão
disponíveis, mas em pequena quantidade. Ali também é possível se comunicar mais
facilmente em inglês.
Tampouco há
entretenimento ocidental. Cinemas, por exemplo, só passam filmes locais - sem
legenda. Produções de Hollywood são vetadas.
A internet
também não é completamente livre, mas sites como Google, Facebook ou Instagram
não são bloqueados.
"Acabamos
ficando bastante em casa pelas peculiaridades do país", conta.
Ele diz sentir
falta da comida brasileira, especialmente do "churrasco". "É
difícil encontrar o tipo de corte que temos no Brasil. E as carnes não têm a
mesma qualidade do que a nossa. Mas cozinhamos arroz e feijão para matar a
saudade", explica.
Estrangeiros
também não usam a moeda local, o won. Todos os gastos só podem ser feitos em
euro, dólar ou yuan chinês. A única exceção fica por conta de uma feira - a
Tong-il ("Unificação", em coreano) que acontece em um grande pavilhão
fora do bairro diplomático, onde a família costuma comprar frutas e verduras
frescas.
"Ali a
gente se comunica basicamente por mímica. O valor é assinalado na calculadora.
Tiramos o dinheiro e fechamos o negócio", resume.
Uma situação
curiosa envolvendo a barreira do idioma, por exemplo, aconteceu quando Schenkel
obteve sua permissão para dirigir no país.
"No
caminho ao local onde faria o teste, percebi que meu intérprete revisava
anotações. Não sabia que haveria prova escrita. 'Mas eu não deveria ter
estudado?', perguntou. 'Não necessariamente. Sou eu quem tenho de dar a
resposta certa em coreano', respondeu o tradutor", lembra.
Limitações
Embora tenham
livre circulação dentro do bairro diplomático, fora dele a movimentação é
limitada - e usualmente monitorada e, dependendo do local, acompanhada por
funcionários do governo norte-coreano. É preciso pedir autorização para
frequentar os museus e até usar o metrô.
O mesmo
acontece se a família quiser deixar Pyongyang para ir às praias na costa leste,
por exemplo, a cerca de duas horas de carro da capital norte-coreana.
Para quem vem
de fora, chegar à isolada Coreia do Norte também não é tarefa fácil. A imensa
maioria dos voos parte de um único lugar: a China, a principal aliada do país.
Por essa razão
e pela distância do Brasil, os Schenkels ainda não receberam nenhuma visita de
parentes. A maioria das que ocorreram foi de colegas do Itamaraty servindo na
Ásia.
Diferença
cultural
Schenkel conta
que, além das peculiaridades locais, a principal diferença que sentiu ao chegar
à Coreia do Norte foi o que chamou de "cultura militar" do povo.
"Eles são
muito disciplinados. Existe uma cultura militar que é muito forte aqui e isso
se reflete em toda a sociedade", conta.
"É normal
passar de carro diante de um ponto de ônibus aqui e ver 50 norte-coreanos
esperando pelo transporte em fila indiana. Outros povos asiáticos têm costume
parecido, mas não deixa de surpreender", acrescenta.
Em meio à
intensificação da guerra retórica entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos,
Schenkel diz estar "acompanhando de perto" os últimos desdobramentos.
Por enquanto, o
retorno ao Brasil não está nos planos do diplomata e de sua família.
Questionado
pela BBC Brasil sobre um possível fechamento da embaixada brasileira em
Pyongyang, o Itamaraty afirmou, em nota, que "dedica atenção constante
àqueles postos nos quais possam vir a ocorrer situações capazes de colocar em
risco nacionais brasileiros".
"O
Ministério das Relações Exteriores mantém contato permanente com toda a rede de
postos no exterior. Nesse contexto, os setores apropriados do Ministério vêm
mantendo diálogo regular com o Encarregado de Negócios do Brasil em
Pyongyang", informou o órgão.
Por BBC


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