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O
ex-deputado Pedro Corrêa, preso na Lava Jato. Sua proposta
de delação parece um livro de memórias
(Foto: Sergio Lima/Folhapress)
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O ex-presidente do PP Pedro
Corrêa, preso na Lava Jato, está fechando uma delação bombástica – e o foco principal
são episódios envolvendo o ex-presidente Lula.
Em seu pedido de busca e apreensão
para a 24ª fase da Operação Lava Jato, os procuradores da força-tarefa
expuseram a anatomia do petrolão: “A estrutura criminosa perdurou por, pelo
menos, uma década. Nesse arranjo, os partidos e as pessoas que estavam no governo
federal, dentre elas Lula, ocuparam posição central em relação a entidades e
indivíduos que diretamente se beneficiaram do esquema”. Os investigadores ainda
reforçam que a corrupção só se alastrou devido a “vinculação de legendas
políticas que compunham a base aliada do governo federal”. Um exemplo disso,
destacado pelo próprio Ministério Público Federal, é o ex-deputado Pedro
Corrêa, ex-presidente do Partido Progressista (PP) e preso na Lava Jato há
quase um ano. Ele era o responsável por garantir a sustentação de seu partido
ao governo. Em troca, recebia as propinas geradas a partir dos contratos
fechados na diretoria de abastecimento da Petrobras, comandada pelo delator
Paulo Roberto Costa. Aos 68 anos de idade, Pedro Corrêa, que teve seis mandatos
no Congresso desde a década de 1970 e foi condenado no mensalão, sabe de muita
coisa. Testemunhou episódios marcantes da história da República, do general
João Figueiredo a Dilma Rousseff. E com base em suas próprias experiências,
relatadas em primeira pessoa, ele avança em sua negociação de delação premiada,
que está prestes a ser assinada. De acordo com o ex-parlamentar, Lula sabia da
existência do petrolão e sabia da função exercida no esquema pelo ex-diretor da
Petrobras Paulo Roberto Costa.
Dos 73 capítulos e dos mais de 130
agentes políticos citados na proposta de delação premiada de Pedro Corrêa, o
personagem principal é o ex-presidente, segundo investigadores ouvidos por ÉPOCA.
A princípio, Pedro Corrêa ofereceu aos investigadores contar cinco episódios
comprometedores envolvendo Lula – que, no final das contas, tornaram-se um
único tópico. Foi graças a esse tópico que os procuradores da Lava Jato
decidiram aceitar a colaboração de Corrêa. Nele, há diversos relatos de
encontros realizados entre Corrêa e Lula. Num deles, o PP cobra mais espaço no
esquema de propina da Petrobras. Lula, segundo Corrêa, teria dito que
“Paulinho”, apelido de Paulo Roberto, indicado pelo ex-presidente para a
diretoria de abastecimento da estatal, feudo dividido entre PP e PT, estava
atendendo bem o partido da base aliada.
Em outra passagem, Corrêa relata o
que seria uma interferência direta de Lula na Petrobras. Segundo o ex-deputado,
entre 2010 e 2011, ele e seu colega de partido João Pizzolatti foram ao
escritório do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, petista histórico e próximo a
Lula. Quando chegaram lá, numa tarde durante a semana, encontraram Marcos
Valério e um empresário, do qual o delator não se recorda o nome. Greenhalgh,
Valério e o empresário queriam que Pedro Corrêa e Pizzolatti os ajudassem a
fechar uma operação de compra e venda de petróleo com a área da Petrobras
comandada por Paulo Roberto Costa. De acordo com Corrêa, o negócio geraria um
lucro alto – e, portanto, o PP resolveu abocanhar uma fatia do dinheiro. Após a
conversa, Corrêa e Pizzolatti foram falar com Paulo Roberto Costa, que recusou
fechar contrato, porque o empresário não tinha uma boa fama dentro da
Petrobras. Alguns meses depois, a operação foi feita. De acordo com o
ex-presidente do PP, Lula interferiu para que a transação saísse. A partir da
delação, o Ministério Público investigará para onde foram os pixulecos do negócio.
O embrião do esquema do petrolão,
segundo Corrêa, era o mensalão. No anexo 2, Pedro Corrêa conta que, em meados
de 2004, a Dinamo Distribuidora de Petróleo depositou R$ 1,7 milhão na conta
bancária da 2S Participações, do operador Marcos Valério. Quando o repasse veio
à tona, a explicação dada pela Dinamo era que a empresa tinha comprado 25
títulos da Eletrobras para quitar dívidas tributárias com o governo federal,
operação intermediada por Valério. No entanto, Corrêa afirma em sua proposta de
delação que o valor de R$ 1,7 milhão era a devolução a Marcos Valério de um
adiantamento de propina paga no mensalão. Em troca, a Dinamo faturava com um
contrato com a Petrobras para distribuir 45 milhões de litros de álcool anidro
que estariam infectados e seriam redestilados para voltar ao mercado. “O
petrolão e o mensalão são a mesma coisa”, afirma o ex-presidente do PP em sua
proposta de delação. “Desde 2004, o petrolão financiava o mensalão." A
pessoa responsável para pedir à Dinamo que fizesse o depósito na conta da
empresa de Marcos Valério foi o ex-assessor do PP João Cláudio Genu – ao lado
de José Janene, morto em 2010.
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O
publicitário Marcos Valério, preso no mensalão, e o comprovante
de pagamento
a ele (abaixo). Seu advogado diz que Valério quer
fazer
delação premiada (Foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
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Essa não é a primeira vez que a
2S, de Marcos Valério, famoso operador do mensalão, aparece ligada ao Petrolão.
No ano passado, foi encontrado no escritório de Meire Poza, ex-contadora do
doleiro Alberto Youssef, um contrato de uma operação de empréstimo no valor de
R$ 6 milhões, firmado entre a 2S Participações e a Expresso Nova Santo André,
de Ronan Maria Pinto – empresário que ficou famoso no escândalo de corrupção
desvendado à época da morte do prefeito Celso Daniel, de Santo André. De acordo
com depoimento de Valério ao Ministério Público, em 2012, Ronan Maria Pinto
ameaçou relacionar Lula e os ex-ministros Gilberto Carvalho e José Dirceu com a
morte do ex-prefeito de Santo André – e recebeu R$ 6 milhões para ficar
calado. Investigadores da Lava Jato apuram se esse dinheiro teve origem num
contrato de empréstimo tomado pelo pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do
ex-presidente e preso na Lava Jato, com o Banco Schahin. Bumlai assume apenas
que tomou o financiamento da instituição financeira a mando do PT. A história
já é bem conhecida – e é mais um indício de que o petrolão e o mensalão podem estar
umbilicalmente ligados.
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Comprovante de pagamento a Marcos Valério (Foto: reprodução)
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De acordo com investigadores que
tiveram acesso à proposta de delação de Pedro Corrêa, os relatos são bastante
detalhados – e impressionam pela capacidade de memória do ex-parlamentar.
Diferentemente de outras colaborações, o ex-presidente do PP não apresenta
provas robustas, extratos bancários, mas faz uma verdadeira crônica da política
brasileira, apontando irregularidades e falcatruas em diversos períodos da
história e em distintos partidos. Há desde líderes de partidos no Congresso a
ex-presidentes. Pelo volume de informações, o grupo de trabalho dos
procuradores da Lava Jato, em Brasília, gastou quase seis meses para chegar a
uma resolução de acordo final. Nos próximos dias, a delação deverá ser, enfim,
assinada. Ficou combinado, a princípio, que Corrêa pagaria uma multa de quase
R$ 5 milhões – e blindaria seus filhos, entre eles a deputada Aline Corrêa, de
qualquer acusação. Nesse acordo, ainda foi negociada a redução de sua pena nas
duas condenações – a do Petrolão e a do mensalão. Em 2012, Pedro Corrêa foi
condenado pelo Supremo Tribunal Federal no mensalão a sete anos e dois meses de
prisão, além de multa de R$ 1,1 milhão, por lavagem de dinheiro e corrupção. No
ano passado, o ex-deputado foi sentenciado na Lava Jato a cumprir 20 anos e
sete meses atrás das grades, novamente por corrupção e lavagem de dinheiro.
Conhecedor da história do mensalão, Pedro Corrêa não quis acabar tendo o mesmo
desfecho que Marcos Valério. Resolveu contar tudo o que sabe. E o que sabe pode
ser uma nova dinamite a explodir a República –
e, em particular, o ex-presidente Lula.
Procurado, o ex-presidente Lula,
por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que “não comenta supostas
delações e repudia o jornalismo feito por vazamentos ilegais”. A defesa de
Pedro Corrêa não quis comentar. O advogado Marcelo Leonardo, que representa
Marcos Valério na Justiça, disse que não vai comentar, porque não teve acesso
ao conteúdo da delação. O criminalista ainda diz que seu cliente está disposto
a negociar um acordo de delação com os investigadores da Lava Jato. João
Pizzolatti não foi localizado pela reportagem. ÉPOCA deixou recado no
escritório do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, mas não obteve retorno



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