Pessoa com deficiência não deve apenas votar: precisa conhecer seus direitos, fiscalizar e cobrar os governantes | Rio das Ostras Jornal

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Pessoa com deficiência não deve apenas votar: precisa conhecer seus direitos, fiscalizar e cobrar os governantes

Artigo - Por Angel Morote

A luta por inclusão e acessibilidade não pode acontecer somente nas ruas, nas redes sociais ou nas reuniões de associações. Ela também precisa estar presente nos espaços onde as decisões políticas são tomadas. A pessoa com deficiência tem o direito de participar, questionar, fiscalizar e cobrar dos representantes eleitos o cumprimento de suas responsabilidades. Afinal, não somos apenas eleitores que aparecem nas urnas a cada eleição. Somos cidadãos, contribuímos para a sociedade e temos o direito de exigir respeito, dignidade, autonomia e políticas públicas que atendam às nossas necessidades.

Quantas vezes encontramos uma calçada sem acessibilidade, uma rampa bloqueada, um transporte público inadequado, uma unidade de saúde sem estrutura ou dificuldades para conseguir atendimento e serviços essenciais? Quantas promessas de inclusão são feitas durante as campanhas eleitorais e acabam esquecidas depois da posse? A indignação diante dessas situações precisa se transformar em conhecimento, organização e participação cidadã. Reclamar é legítimo, mas conhecer os caminhos para cobrar e acompanhar as providências é o que fortalece a nossa atuação.

Conhecer os direitos é o primeiro passo para fiscalizar

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) estabelece direitos e garantias fundamentais para as pessoas com deficiência. Ela trata de acessibilidade, saúde, educação, trabalho, transporte, moradia, participação política, cultura, esporte e outros aspectos essenciais para uma vida com igualdade de oportunidades.

Mas conhecer a legislação é apenas o começo. Precisamos saber como ela deve ser aplicada, quais órgãos são responsáveis por cada serviço e quais instrumentos estão disponíveis para cobrar seu cumprimento.

A pessoa com deficiência pode e deve acompanhar as decisões da Prefeitura, da Câmara Municipal, dos governos estaduais e do Governo Federal. Não basta ouvir discursos ou receber promessas. É necessário verificar se as ações anunciadas saíram do papel, se os serviços funcionam e se os recursos públicos estão sendo utilizados para atender às necessidades da população.

O vereador e o prefeito também precisam prestar contas

Em âmbito municipal, a população tem instrumentos importantes de participação e fiscalização. O vereador tem, entre suas atribuições, fiscalizar os atos do Poder Executivo, acompanhar a aplicação dos recursos públicos, apresentar propostas legislativas e cobrar providências da Prefeitura.

O cidadão pode procurar os gabinetes parlamentares, apresentar reivindicações, solicitar informações sobre projetos e acompanhar a atuação dos vereadores. Também pode participar das sessões da Câmara, audiências públicas e reuniões de conselhos municipais.

Já a Prefeitura deve responder pelas políticas e serviços municipais. Isso inclui acessibilidade nas calçadas e prédios públicos, transporte, atendimento de saúde, educação inclusiva, assistência social, esporte, cultura, oportunidades de trabalho e demais serviços que impactam diretamente a vida das pessoas com deficiência.

Em Rio das Ostras, precisamos acompanhar de perto o planejamento, a execução e os resultados das políticas públicas de inclusão. Não basta anunciar programas: é necessário saber quanto está sendo investido, quais metas foram estabelecidas, quem está sendo atendido e quais resultados foram alcançados.

Existem canais para cobrar, denunciar e solicitar informações

Muitas pessoas não sabem, mas não é necessário ocupar um cargo público ou representar uma associação para fiscalizar e cobrar providências. Qualquer cidadão pode utilizar os instrumentos legais de participação e controle social.

Entre os caminhos disponíveis estão:

  • Ouvidorias públicas: recebem reclamações, denúncias, solicitações, sugestões e pedidos de providências sobre os serviços públicos.
  • Lei de Acesso à Informação (LAI): permite solicitar informações e documentos públicos, inclusive sobre contratos, despesas, programas, obras e execução de políticas públicas.
  • Ministério Público: pode receber denúncias sobre violações de direitos coletivos, discriminação, falta de acessibilidade e omissões do poder público.
  • Defensoria Pública: oferece orientação e assistência jurídica a quem precisa defender seus direitos e não possui condições de contratar advogado.
  • Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas: são espaços para acompanhar debates, apresentar reivindicações e cobrar a atuação dos representantes.
  • Conselhos de direitos da pessoa com deficiência: permitem acompanhar políticas públicas, participar de discussões e contribuir para a formulação e fiscalização das ações governamentais.

É importante registrar os problemas, guardar protocolos, fotografar barreiras quando possível, identificar os locais e acompanhar os prazos de resposta. Uma reclamação documentada permite cobrar providências com mais clareza e acompanhar se o problema foi realmente resolvido.

A defesa dos benefícios sociais também precisa ser permanente

Outro assunto que exige atenção é a proteção dos benefícios destinados às pessoas com deficiência, especialmente o Benefício de Prestação Continuada (BPC), previsto na Lei Orgânica da Assistência Social.

O BPC garante um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência de qualquer idade que atenda aos critérios legais de renda e avaliação. Para muitas famílias, esse recurso representa a possibilidade de garantir alimentação, medicamentos, transporte, cuidados e condições mínimas de sobrevivência.

O Governo Federal realiza procedimentos de revisão e atualização cadastral. Entretanto, qualquer medida que resulte em bloqueio, suspensão ou encerramento de benefício precisa respeitar as regras legais, a análise individual e o direito de defesa do beneficiário.

Não podemos aceitar que pessoas com deficiência sejam prejudicadas por falhas administrativas, informações incorretas, dificuldades de acesso aos sistemas ou falta de orientação. É necessário cobrar comunicação acessível, atendimento adequado, transparência nos critérios e canais efetivos para contestar decisões.

Também precisamos acompanhar as mudanças nas regras, os projetos de lei, as decisões orçamentárias e as medidas que possam restringir direitos ou dificultar o acesso aos benefícios. Quando houver suspeita de corte indevido, a família deve buscar orientação nos canais oficiais do INSS, na Defensoria Pública ou junto aos órgãos competentes. A Central 135 e o aplicativo Meu INSS são canais de atendimento para questões relacionadas ao benefício.

A defesa dos direitos não significa ignorar revisões legalmente previstas. Significa exigir que elas sejam justas, transparentes, individualizadas e realizadas com respeito à dignidade de quem depende dessa proteção social.

A união fortalece a nossa voz e amplia as conquistas

Nenhuma pessoa precisa enfrentar essa luta sozinha. Associações, movimentos sociais, conselhos, familiares e organizações da sociedade civil podem construir uma atuação conjunta para identificar problemas, apresentar propostas e acompanhar as respostas dos governantes.

Precisamos participar das discussões sobre orçamento público, mobilidade urbana, saúde, educação, assistência social, esporte, cultura, trabalho e todas as áreas que influenciam a vida das pessoas com deficiência.

Também precisamos entender que a fiscalização não deve ter partido político. Independentemente de quem esteja no governo ou de quem tenha recebido nosso voto, os direitos da população precisam ser respeitados. O compromisso com a inclusão deve estar acima das disputas eleitorais.

O voto não encerra nossa responsabilidade: a cidadania continua todos os dias

A pessoa com deficiência não pode ser lembrada apenas durante o período eleitoral, quando candidatos procuram apoio e apresentam promessas. Depois da eleição, precisamos continuar presentes, acompanhando os mandatos, cobrando compromissos e exigindo resultados.

Não devemos esperar que alguém fale por nós quando temos condições de participar das decisões. Não devemos aceitar que nossas necessidades sejam tratadas como favores ou pedidos de consideração. Acessibilidade, saúde, educação, transporte, trabalho, assistência e participação social são direitos.

Em Rio das Ostras e em todo o Brasil, precisamos avançar da reclamação isolada para uma participação cidadã organizada, consciente e permanente. Conhecer as leis, utilizar os canais de fiscalização, cobrar os representantes e defender os benefícios sociais são atitudes que fortalecem a democracia e ajudam a construir uma sociedade mais justa.

O voto é uma ferramenta de escolha. A fiscalização é um exercício de cidadania. A participação é uma forma de transformar a realidade.

E você, pessoa com deficiência, conhece os canais disponíveis para fiscalizar e cobrar os governantes? Está acompanhando o trabalho dos representantes que receberam seu voto?

Nossa voz precisa ser ouvida, mas também precisa estar presente onde as decisões são tomadas. Não queremos privilégios. Queremos direitos respeitados, políticas públicas funcionando e dignidade para todos.

Angel Morote
Compromisso e Dedicação PCD

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