
Clecia confirmou que não ocupa mais o cargo e afirmou
que seguirá sua trajetória em outras frentes. Foto: Reprodução
Após deixar cargo, ex-subsecretária evita apontar motivo;
influenciadora afirma ter ouvido do prefeito que posicionamento contra Flávio
Bolsonaro levou à exoneração
A exoneração de Clecia Nascimento de Andrade do cargo de
subsecretária Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social de Rio das
Ostras ganhou uma nova dimensão política nesta segunda-feira (14). Depois de
deixar a função, a ex-subsecretária publicou um vídeo nas redes sociais para
prestar contas das ações realizadas durante o período em que esteve no governo.
Clecia confirmou que não ocupa mais o cargo e afirmou que
seguirá sua trajetória em outras frentes. No vídeo, não atribuiu diretamente
sua saída a qualquer motivo político, mas deixou uma declaração que mantém o
assunto em aberto.
“Não estou mais ocupando o cargo de subsecretária de
Desenvolvimento e Assistência Social do nosso município, mas eu acho importante
eu fazer uma pequena prestação de contas do meu trabalho realizado durante todo
esse tempo à frente. E aí vocês têm que perguntar realmente, mas eu sigo a
minha trajetória, eu sigo em outras frentes, sigo em outros caminhos, vocês vão
me ouvir falar muito por aqui ainda”, afirmou.
A saída da subsecretária passou a repercutir depois de
manifestações políticas feitas por ela nas redes sociais envolvendo o senador
Flávio Bolsonaro (PL). Até então, porém, não havia confirmação pública da
Prefeitura sobre a existência de relação entre o posicionamento político e a
exoneração.
Influenciadora afirma que prefeito confirmou o motivo
A situação ganhou outro contorno após a influenciadora
Fernanda Fernandes publicar um vídeo comentando o episódio. Segundo ela, esteve
com o prefeito Carlos Augusto na manhã de sábado e teria recebido dele a
confirmação de que a exoneração ocorreu justamente por causa do posicionamento
político de Clecia.
“O motivo? O seu posicionamento político. A
subsecretária municipal que fez um vídeo atacando o nosso presidente Flávio
Bolsonaro foi exonerada do governo municipal de Rio das Ostras e eu recebi essa
informação do próprio prefeito Carlos Augusto”, afirmou Fernanda.
Ainda segundo a influenciadora, o prefeito teria contado que
estava em um evento em Cabo Frio, ao lado de Flávio Bolsonaro, quando recebeu o
vídeo publicado pela então subsecretária.
Fernanda também afirmou que Carlos Augusto teria destacado
que Clecia não era servidora concursada, mas ocupava um cargo de confiança, e
que ela havia sido candidata a vereadora pelo PDT.
“Ela foi candidata a vereadora pelo PDT, partido coligado ao
PL”, declarou a influenciadora, ao defender a decisão do prefeito.
A afirmação de Fernanda é relevante porque, se confirmada
diretamente pelo prefeito ou pela Prefeitura, mudaria a compreensão sobre o
episódio. Até o momento, entretanto, o que existe publicamente é o relato da
influenciadora sobre a conversa que afirma ter tido com Carlos Augusto.
A fala de Clecia mantém a dúvida
Antes mesmo da declaração de Fernanda, a própria Clecia
havia sido questionada sobre a possibilidade de sua manifestação política ter
provocado a exoneração.
A resposta foi direta:
“Sobre a minha exoneração, se foi ou não por um
posicionamento político, não fui eu quem fiz porque não sou eu que assino.”
A declaração não confirma que a exoneração tenha ocorrido
por motivação política. Ao contrário, deixa a decisão nas mãos de quem
efetivamente assinou o ato.
É justamente nesse ponto que as duas versões passam a se
encontrar: de um lado, a ex-subsecretária não confirma o motivo; de outro,
Fernanda afirma que o próprio prefeito teria informado que o posicionamento
político foi determinante.
PL no governo, PDT na base política
O episódio também chama atenção para a composição política
que sustenta a administração municipal.
Carlos Augusto foi eleito prefeito de Rio das Ostras pelo
PL, partido identificado nacionalmente com o campo da direita e ligado ao
bolsonarismo.
Ao mesmo tempo, o governo municipal convive politicamente
com representantes de outras correntes partidárias. Entre eles está o vereador
Rodrigo da Aposentadoria (PDT), atual vice-presidente da Câmara Municipal.
O Sistema de Apoio ao Processo Legislativo confirma a
filiação de Rodrigo ao PDT e sua posição na Mesa Diretora do Legislativo
municipal.
É justamente aí que a exoneração de Clecia ganha um
componente político que ultrapassa a saída de uma ocupante de cargo de
confiança.
Que tipo de aliança sustenta o governo Carlos Augusto?
A política municipal nem sempre reproduz a divisão
ideológica observada no cenário nacional. Governos constroem maiorias por meio
de alianças entre partidos diferentes, muitas vezes com interesses locais
falando mais alto que as diferenças ideológicas.
Em Rio das Ostras, entretanto, a presença de um governo
eleito pelo PL ao lado de integrantes e aliados ligados ao PDT coloca uma
questão interessante no debate político municipal.
Se uma manifestação pública contra uma liderança nacional do
campo bolsonarista pode resultar na perda de um cargo de confiança, como são definidos os limites políticos
dentro de uma administração que reúne partidos de diferentes espectros
ideológicos?
E mais: o
alinhamento exigido para quem ocupa cargo de confiança no governo Carlos
Augusto vale apenas para os nomeados ou também deveria alcançar os partidos que
dão sustentação política à administração?
O caso acontece em meio à cobrança por alinhamento no PL
A discussão também ocorre em um momento em que o próprio
campo bolsonarista vem cobrando maior alinhamento político de integrantes do
PL.
Em abril deste ano, Carlos Bolsonaro afirmou que pretendia
identificar prefeitos e vereadores do Partido Liberal que não manifestassem
apoio recorrente, inclusive nas redes sociais, à candidatura presidencial de
Flávio Bolsonaro. Segundo reportagens que repercutiram a declaração, a intenção
seria encaminhar os nomes à direção nacional do partido.
Esse movimento mostra como o apoio político a Flávio
Bolsonaro passou a ganhar importância dentro do próprio PL durante o período
eleitoral.
É nesse ambiente que a declaração atribuída ao prefeito
Carlos Augusto por Fernanda Fernandes ganha relevância política.
A pergunta agora é para Carlos Augusto
Se a declaração de Fernanda Fernandes reproduz fielmente o
que foi dito pelo prefeito, então existe uma informação nova e bastante
objetiva sobre a exoneração: o
posicionamento político de Clecia teria sido determinante para sua saída do
cargo.
Mas essa confirmação ainda precisa partir oficialmente do
próprio prefeito ou da Prefeitura.
Por isso, o Rio das Ostras Jornal deixa a pergunta
diretamente para Carlos Augusto:
A ex-subsecretária Clecia Nascimento de Andrade foi
exonerada por causa de seu posicionamento político contra Flávio Bolsonaro?
Se a resposta for sim, a população também merece saber quais critérios políticos ou administrativos
foram utilizados para tomar a decisão.
E, diante da participação do PDT na política municipal e de
sua presença na base de sustentação do governo, surge outra questão: como o governo do PL administra alianças com
partidos de esquerda enquanto exige alinhamento político de ocupantes de cargos
de confiança?
O espaço permanece aberto para que o prefeito Carlos Augusto
e a Prefeitura de Rio das Ostras apresentem os esclarecimentos sobre a
exoneração.
O Rio das Ostras Jornal continuará acompanhando os
desdobramentos.
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