
O Rio das Ostras Jornal destaca um relato íntimo que ilumina a complexidade dos relacionamentos e a ausência de desejo, temas que ressoam profundamente com a realidade de muitas mulheres na Região dos Lagos e Norte Fluminense. A narrativa, que acompanha a rotina de uma mulher e seus dilemas com o companheiro Juliano, revela a busca por afeto em meio ao cotidiano.
A protagonista da história, que encontra no ato de passar roupas uma forma de organizar seus pensamentos, expressa o cansaço de um relacionamento marcado pela ausência. Ela descreve a falta de palavras, elogios e iniciativas por parte de Juliano, além da carência de intimidade física. A suspeita de uma outra mulher na vida do companheiro intensifica o sentimento de solidão e a necessidade de uma decisão.
A Rotina e o Vazio Emocional
A cada amanhecer, a mulher se vê imersa em uma rotina que, embora preenchida por afazeres, é permeada por um profundo vazio emocional. O trajeto diário para o trabalho, a observação da cidade que acende suas luzes, tudo parece ecoar um desejo de deixar ir, de que algo parta. No ambiente de trabalho, ela encontra em Cecília, uma colega mais experiente, um contraponto: alguém que, há muito, silenciou seus próprios desejos.
Enquanto Cecília se dedica à limpeza, a narradora encontra no ferro de passar roupas um refúgio. É nesse momento, organizando peça por peça, que ela conversa consigo mesma, desvestindo por instantes os pensamentos sobre Juliano. A relação com ele é descrita como um estado de “estar e não estar”, um cansaço acumulado pela ausência de gestos, palavras e toques que alimentem o desejo.
O Peso da Ausência e as Sombras do Passado
A ausência de Juliano não se manifesta apenas na falta de intimidade, mas na indiferença diária. A mulher recorda o início do relacionamento, quando se consolava pensando que, pelo menos, ele não era violento – uma sombra do passado de Cecília, que sofreu com um parceiro abusivo. A decisão de Cecília de romper o ciclo de violência, motivada pela dor da filha, serve como um lembrete da coragem necessária para mudar.
Juliano, por sua vez, é ausente. Há tempos, o casal não compartilha momentos de intimidade, e a narradora percebe as mudanças no companheiro: o cuidado excessivo com a aparência, os cabelos pintados, as roupas novas, tudo financiado por ela e, aparentemente, motivado por outra mulher, mais jovem e “menos pesada de história”. A chegada do companheiro com cheiro de perfume alheio é um silêncio eloquente que ela só consegue desabafar com seu “companheiro ferro”.
Dilemas da Decisão e a Busca por Reconhecimento
A decisão de romper é um peso. A cama vazia é um fardo, mas a presença, mesmo que apenas respiratória, é um consolo tênue. A mulher se pega em um ciclo de esperança e desilusão, perfumando a alma para Juliano em noites que prometem, mas que terminam com um beijo na testa e a desculpa do cano. Em um aniversário de namoro, a tentativa de reacender a chama termina em frustração, com Juliano fingindo dormir.
A solidão é um fardo pesado, e a idade se apresenta como um obstáculo para recomeçar. No entanto, a narradora encontra pequenos alívios e reconhecimentos em seu trabalho. Os elogios do patrão, que a considera indispensável, e a gratidão expressa por ele, preenchem um vazio que Juliano não consegue suprir. O patrão, viúvo e dócil, parece não buscar mais o tema da cama, mas oferece um tipo de afeto e reconhecimento que a mulher anseia.
Entre a dor da ausência e a dificuldade de uma decisão, a mulher se apega ao conforto de organizar as roupas, de deixar tudo impecável. É no silêncio do ato de passar que ela encontra um confidente, um “companheiro ferro que nunca nos decepciona”. A promessa de um dia decidir paira no ar, um futuro incerto, mas com a esperança de que a “partida do desejo” possa, finalmente, abrir caminho para uma nova jornada. O Rio das Ostras Jornal continua acompanhando as reflexões que moldam a vida na Costa do Sol e no Interior do RJ.
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