Artigo - Por Angel Morote
Liderança não se resume a ocupar um cargo. Liderança é
influência, compromisso, conhecimento e capacidade de transformar realidades.
Na luta pelos direitos das pessoas com deficiência em Rio das Ostras,
convivemos diariamente com diferentes desafios que exigem coragem, preparo e,
acima de tudo, legitimidade.
Nossa atuação se desenvolve em pelo menos seis grandes
frentes: os conselhos municipais, as associações representativas, o esporte
adaptado, o diálogo com o Poder Legislativo, a construção de parcerias com o
comércio e o enfrentamento diário ao capacitismo presente na sociedade. Em
todas essas áreas, permanece atual um princípio reconhecido internacionalmente
pelo movimento das pessoas com deficiência: "Nada sobre nós, sem
nós."
A verdadeira liderança nasce da experiência vivida. Ela
conhece as barreiras da mobilidade urbana, as dificuldades para conseguir
atendimento especializado, a falta de acessibilidade, o preconceito velado e,
muitas vezes, a invisibilidade imposta pela sociedade. Não é uma liderança
construída apenas no discurso, mas na vivência cotidiana.
Isso, porém, não diminui a importância daqueles que caminham
ao nosso lado. Existem familiares, profissionais, comerciantes, servidores
públicos, voluntários e cidadãos que, mesmo não sendo pessoas com deficiência,
demonstram empatia, respeito e compromisso com a inclusão. Esses aliados
merecem reconhecimento e gratidão, porque compreendem que a construção de uma
cidade acessível depende do esforço coletivo. A eles, registro meu sincero
agradecimento.
Entretanto, também é preciso abordar uma realidade que, por
vezes, é ignorada. Existem pessoas que utilizam a pauta da deficiência como
instrumento de promoção pessoal, ocupando espaços de representação sem possuir
vínculo efetivo com a comunidade ou sem defender, de fato, os interesses das
pessoas com deficiência. Levantam a bandeira da inclusão apenas quando isso
lhes traz visibilidade, prestígio ou vantagens.
Defender a inclusão não pode ser uma oportunidade de
autopromoção. Representar pessoas com deficiência exige responsabilidade,
compromisso permanente e disposição para enfrentar dificuldades que não
terminam quando acaba uma reunião ou um evento. A legitimidade da representação
nasce do trabalho contínuo, da escuta da comunidade e do compromisso com
resultados concretos.
Da mesma forma, ainda convivemos com outro equívoco
recorrente: a ideia de que as pessoas com deficiência possuem privilégios em
excesso. Essa afirmação costuma partir de quem nunca precisou enfrentar uma
calçada inacessível, um transporte inadequado, um prédio público sem elevador,
um banheiro sem adaptação ou uma oportunidade de emprego negada por
preconceito.
Os direitos assegurados às pessoas com deficiência não são
privilégios. São mecanismos de compensação para reduzir desigualdades
históricas e permitir o exercício da cidadania em condições mais próximas da
igualdade.
Costumo refletir sobre isso quando ouço alguém afirmar que
temos benefícios demais. Se essas pessoas pudessem viver, ainda que por um
único dia, enfrentando as limitações impostas por uma deficiência e,
principalmente, pelas inúmeras barreiras criadas pela própria sociedade, talvez
compreendessem que aquilo que chamam de privilégio representa apenas uma
tentativa de equilibrar um caminho que nunca foi igual para todos.
A liderança inclusiva também tem outro desafio urgente:
formar novos líderes. Precisamos incentivar jovens com deficiência a ocuparem
espaços nos grêmios estudantis, nas universidades, nos conselhos municipais,
nas associações, nos partidos políticos e em todas as instâncias onde são
tomadas decisões que afetam diretamente suas vidas. O futuro da inclusão
depende da renovação dessas lideranças.
Além da vivência, o líder precisa de preparo técnico. É
indispensável conhecer a Lei Brasileira de Inclusão, as normas de
acessibilidade, as políticas públicas e os instrumentos legais capazes de
transformar reivindicações em direitos efetivos. A experiência pessoal abre
portas, mas é o conhecimento que fortalece o diálogo com gestores, engenheiros,
arquitetos, vereadores e demais agentes públicos.
Liderar é servir. É transformar dificuldades em propostas,
barreiras em soluções e indignação em políticas públicas. Não é buscar
reconhecimento pessoal, mas construir oportunidades para que outras pessoas
tenham uma vida mais digna e independente.
Por isso, deixo uma reflexão à sociedade e aos gestores
públicos: onde estão as pessoas com deficiência ocupando cargos estratégicos na
administração municipal de Rio das Ostras? Quantos profissionais com
deficiência participam da elaboração das políticas de acessibilidade,
mobilidade, educação, saúde e inclusão?
Enquanto continuarmos discutindo a inclusão sem garantir o
protagonismo de quem vive essa realidade todos os dias, ainda estaremos longe
de construir uma cidade verdadeiramente acessível, justa e democrática.

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