Crise da carne bovina nos EUA: Trump não taxa importação e Brasil se torna essencial | Rio das Ostras Jornal

Crise da carne bovina nos EUA: Trump não taxa importação e Brasil se torna essencial

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Apesar da promessa de Donald Trump de reduzir o custo de vida, o mercado de carne bovina nos Estados Unidos enfrenta uma crise estrutural que impede qualquer medida protecionista. Com o rebanho em contínua contração e a demanda interna em alta, o país se vê obrigado a importar grandes volumes, inclusive do Brasil, para suprir seu consumo.

crise: cenário e impactos

A situação é paradoxal para uma nação com avançada tecnologia pecuária. No primeiro trimestre de 2026, os EUA importaram 18% mais carne bovina do que no ano anterior, buscando suprimento de países como Brasil, Austrália, Uruguai, Argentina, Nicarágua e Paraguai. Essa dependência externa expõe as fragilidades de um setor que, por décadas, foi modelo global de eficiência.

Rebanho Americano Encolhe: O Ciclo Incontrolável

O rebanho bovino americano registra o sétimo ano consecutivo de contração. Em 1º de janeiro de 2026, o inventário total era de 86,155 milhões de bovinos, o menor desde 1951. O número de vacas de corte, 27,6 milhões, não era tão baixo desde 1960, representando uma queda de 12,7% na base reprodutiva desde o pico de 2019.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA/ERS) descreve o “cattle cycle” como um período de 8 a 12 anos de oscilação entre expansão e contração. O ciclo atual, em contração desde 2019, não conseguiu ser revertido pela demanda, principalmente devido à seca. Em 2023, quase 93% das vacas de corte estavam em estados com pastagens classificadas como “muito ruins” a “razoáveis”, elevando os custos de feno e forçando muitos produtores a abater seus animais.

A recomposição do plantel é um processo lento, exigindo nove meses de gestação e mais 18 a 24 meses até o peso de abate. A safra de bezerros de 2025 foi de 32,9 milhões, uma queda de 2% em relação a 2024. O USDA/ERS não prevê uma expansão significativa do rebanho antes de 2028.

Com menos animais, a indústria tentou compensar com bovinos mais pesados. Em 2024, o peso médio da carcaça subiu 11 quilos, mantendo a produção em 12,25 milhões de toneladas. Contudo, em 2025, a produção comercial caiu 4%, atingindo 11,8 milhões de toneladas, o menor volume desde 2016. A projeção para 2026 é de novo recuo, para 11,76 milhões de toneladas.

Concentração Industrial e Vulnerabilidade da Cadeia

A escassez de animais é agravada pela estrutura de abate altamente concentrada. Quatro empresas – JBS USA, Cargill, Tyson Foods e National Beef – controlam entre 77% e 85% do abate de novilhos e novilhas nos EUA. Essa concentração, embora gere eficiência e reduza custos de processamento, torna a cadeia extremamente vulnerável a choques.

Eventos como o incêndio na unidade da Tyson em Holcomb, Kansas, em 2019, que paralisou 6% da capacidade nacional, ou os fechamentos parciais durante a pandemia de Covid-19 em 2020, que fizeram o preço da carne embalada subir 80%, demonstram essa fragilidade. Em 2025, operações de fiscalização de imigração em Nebraska reduziram a produção de uma planta para 20% da capacidade normal, já que mais de 50% dos trabalhadores de frigoríficos americanos são nascidos no exterior.

Em novembro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva para o Departamento de Justiça (DOJ) investigar as quatro maiores empresas por suspeita de cartel. No entanto, a indústria, através do Meat Institute, argumenta que os frigoríficos operam com prejuízo devido à oferta restrita de gado e à forte demanda, uma versão corroborada pelos dados do USDA, que apontam para escassez, e não cartel clássico.

Nova Ameaça: A Mosca-da-Bicheira Chega ao Texas

O mercado americano encontrou um alívio parcial no México em 2024, com importações de gado mexicano totalizando 1,24 milhão de bovinos, um aumento de 21,3%. Contudo, em novembro de 2024, o USDA/APHIS (serviço de inspeção animal e fitossanitária) fechou a fronteira devido à detecção da New World Screwworm (mosca-da-bicheira) no México, praga erradicada dos EUA em 1960.

Em setembro de 2025, casos foram confirmados a menos de 110 quilômetros da fronteira texana. E, em 3 de junho de 2026, o USDA/APHIS confirmou o primeiro caso em solo americano desde 1966, em um bezerro no condado de Zavala, Texas. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, destacou que a propagação da praga poderia custar ao Texas ao menos US$ 1,8 bilhão e ameaçar toda a cadeia bovina nacional.

Por Que o Brasil é Essencial para os EUA

Em 1º de junho de 2026, quando o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) propôs uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, a carne bovina foi explicitamente excluída da lista. A decisão, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio americana, justifica a medida por supostas práticas comerciais “irrazoáveis” do Brasil, mas os números da crise interna americana explicam a exceção.

Sem um acordo de livre comércio, o Brasil exporta carne bovina para o mercado americano sob a cota tarifária (TRQ) da categoria “Other Countries”, compartilhada com exportadores menores. A necessidade de suprir a demanda interna, frente à escassez e aos desafios estruturais do próprio rebanho, torna o fornecimento brasileiro indispensável para os Estados Unidos.

O Rio das Ostras Jornal acompanha o impacto das políticas globais no mercado de alimentos e na economia regional.

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