Bernardo Manfredini prestou vestibular como 'treineiro',
motivado pela curiosidade em entender o processo seletivo e testar seus
conhecimentos. Jovem tem altas habilidades e sonha cursar engenharia da
computação.
Aos 12 anos e cursando o 8º ano do ensino fundamental,
Bernardo Vinício Manfredini, morador de São Pedro da Aldeia, na Região dos
Lagos, alcançou um feito notável: a aprovação no curso de matemática da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
O adolescente prestou vestibular como
"treineiro", motivado pela curiosidade em entender o processo
seletivo e testar seus conhecimentos.
Bernardo explica que queria saber como funcionava o processo
e que sua mãe, Luzia Manfredini, deu apoio para que ele tivesse essa vivência
na prática. O resultado da aprovação foi recebido com surpresa.
"As licenciaturas, no geral, são os cursos menos
concorridos das universidades. Mas por informações que encontramos na internet,
esperávamos um corte bem mais baixo. O corte desse ano veio com uma média de 20
pontos mais alto do que esperávamos. Consegui passar com uns pontinhos
sobrando", revela o estudante.
Nos dias de prova, o estudante conta que atraiu olhares, por
conta de sua idade. "Alguns que me olharam curiosos, mas eles estavam mais
preocupados com suas provas. Eu sou alto para a minha idade, então não chamei
muito a atenção. Teve uma pessoa que me perguntou se eu estava de treineiro e
quis saber como era participar. Mas foi uma conversa curta", explica.
A escolha por matemática foi natural, já que essa é sua
matéria favorita e a área em que estuda conteúdos avançados para olimpíadas do
conhecimento. Bernardo, inclusive, acumula um histórico invejável nessas
disputas: já participou de mais de 100 provas de alto nível e conquistou cerca
de 80 medalhas.
"Não é em toda competição que ganho medalha, não.
Dessas 80 medalhas, a maioria é de matemática, mas tem de outras áreas também,
como a nacional de ciências, de química jr, de nanotecnologia, de astronomia e
física. Tenho algumas medalhas internacionais em olimpíadas americana e
asiáticas. As mais importantes são as da OBM, OMERJ e OBMEP", pontua o jovem.
Aprovação e fama
A aprovação no vestibular tem rendido fama e elogios ao jovem. "Acharam legal eu passar no vestibular e virar notícia. Fiquei muito feliz. Muito mesmo", comenta Bernardo, que divide a rotina de estudos com atividades típicas de adolescentes.
"Gosto de uns assuntos que são vistos como não muito
comuns, mas também gosto de coisas que meus amigos gostam, como jogar
videogame, ver TV, andar de bicicleta, ir à praia, ao shopping, sair para
lanchar, jogar tênis de mesa. Tem gente que acha que só estudo, mas tenho
bastante tempo livre pra bagunçar".
A professora Luzia Manfredini, mãe de Bernardo, conta que
não teve medo de Bernardo se frustrar com o resultado das provas, realizadas em
duas etapas: exames de qualificação, com 60 questões de múltipla escolha, e o
exame discursivo, que inclui redação e provas específicas (no caso de Bernardo,
as específicas foram de física e matemática).
"Expliquei que ele poderia até entregar a prova em branco e que estaria tudo certo, que ele estava ganhando experiência de vida. Mas pelo tempo que ele ficou, que foram mais de duas horas, vi que estava tentando fazer a prova mesmo. Na segunda etapa, ele estava feliz por ter conseguido desenvolver a prova, em especial a redação, que era o medo de zerar", conta Luzia.
Altas habilidades e rotina de estudos
Quando Bernardo tinha 4 anos de idade, a família descobriu
que ele tinha altas habilidades. "Foi um divisor de águas nas nossas
vidas, pois passamos a entender que ele e o irmão têm uma maneira de entender o
mundo que é um pouco fora da curva, que aprendem algumas coisas com mais
rapidez", conta a mãe.
Luzia ainda ressalta que tem receio de a rotina de estudos
do filho ficar sobrecarregada.
"Ele tem uma curiosidade enorme pelo mundo, não só por
matemática, e tende a procurar conteúdos. Ele quer participar de muita coisa e
ainda precisa entender que não pode tentar dar conta do mundo. A mim, cabe
podar algumas coisas, tentar achar espaço para atividade física, lazer que não
seja só em eletrônicos."
Em um futuro "não tão distante", Bernardo sonha
fazer engenharia da computação. "Quero passar no ITA ou IME e me formar.
Aos jovens, digo que sigam seus sonhos e nunca deixem de estudar, porque
educação te leva para frente. Às vezes, a gente acha algo que parece difícil
demais, mas não dá para desistir, e, sim, tentar outras maneiras de entender e
aprender", diz o jovem.
Nem mesmo o avanço da tecnologia e da inteligência
artificial é capaz de tirar o otimismo de Bernardo ao pensar em investir na
profissão escolhida.
"A inteligência artificial vai ajudar e atrapalhar,
dependendo de como evoluir e como for usada. Pode facilitar em cálculos e
programas complexos, mas ainda apresenta erro em muitos pontos. Como nas outras
áreas, ela vai poder impulsionar ou atrapalhar carreiras", justifica o
estudante.
Por Patrícia
Teixeira, g1 Rio



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