Flávio entrou na raia há menos de duas semanas e causou
tanta surpresa que muitos o receberam como se estivesse 'de brincadeira'"Arte
Paulo Márcio
Uma das manias mais irritantes do cenário político
brasileiro é a insistência de certos “analistas” em tirar conclusões antes de
conhecer as variáveis da equação e de apontar como inevitáveis resultados que
não consideram todas as circunstâncias em torno do problema. Essa mania tem se
manifestado com uma frequência assustadora em referência à candidatura do
senador Flávio Bolsonaro. Em tempo: esse assunto foi tratado nesta coluna no
domingo passado e volta a ser discutido agora; não pelo que representa de novo,
mas pelo que reacende de velho na política brasileira.
Flávio entrou na raia há menos de duas semanas e causou
tanta surpresa que muitos o receberam como se estivesse “de brincadeira”. Sua
decisão não deveria ser levada a sério. Tanto assim que muita gente chegou a
considerar sua desistência como certa. A maioria dos defensores desse ponto de
vista não dispunha de qualquer evidência de que Flávio sairia da disputa. Mas
insistia na ideia da desistência porque, em suas hipóteses de cenário, não
havia espaço para a possibilidade dessa candidatura. Agora, terão que aceitar a
verdade: até prova em contrário, a candidatura é para valer.
Outros, igualmente surpresos, reagiram como se o senador já
estivesse em campanha desde o início e que sua colocação discreta nas primeiras
pesquisas de opinião que incluíram seu nome mostrava que, assim como os outros
nomes da direita, ele não teria qualquer chance de vitória. Por tudo que sua
família representa na política brasileira e por acreditar que a prisão de seu
pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o suposto fracasso de seu irmão, o agora
ex-deputado Eduardo Bolsonaro, na missão que ele se atribuiu nos Estados
Unidos, minariam completamente suas chances, Flávio pisaria no ringue eleitoral
sem qualquer possibilidade de vitória e apenas serviria de sparring para o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Os excessos analíticos se manifestam com força igual, mas em
direção contrária, entre os que aprovaram a largada de Flávio Bolsonaro na
corrida. Bolsonaristas convictos chegaram a apontá-lo como único nome capaz de
enfrentar Lula com chances de vitória e os mais entusiasmados até atribuíram a
ele certo favoritismo. Ou seja: houve exageros tanto de um lado quanto do
outro.
Flávio, porém, nem é o candidato inviável que muitos apontam
nem a novidade capaz de surpreender a todos e que se torna imbatível ao longo
da campanha, como foi Fernando Collor, em 1989, e seu pai, em 2018. O melhor a
fazer neste momento é jogar um facho de luz sobre o cenário e tentar avaliar se
as chances de ele chegar ao Planalto são reais.
“NARRATIVA CORRETA” — Como sempre acontece em disputas que envolvem uma
reeleição, o que está em jogo não são as propostas da oposição, mas a avaliação
do candidato que busca permanecer no poder. Sendo assim, as análises iniciais
devem se concentrar mais nas virtudes e nos vícios do governo do presidente
Lula do que nas credenciais do candidato de oposição. Ocorre que, pelo fato de
ser filho de quem é, Flávio traz para a disputa ingredientes que não estavam
previstos.
É preciso considerar que, antes de Flávio penetrar na festa
para a qual não havia sido convidado, tudo se encaminhava para uma disputa com
os nervos menos eriçados do que estiveram nas eleições presidenciais mais
recentes. A situação vinha se encaminhando para um cenário que mostrava um
presidente Lula menos radical na defesa dos temas que garantem a fidelidade da
esquerda e da extrema-esquerda, mas que são rejeitados pelos demais eleitores.
No cenário ideal, Lula disputaria votos com o governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas, que traria para o debate um discurso mais moderado do que o de Jair
Bolsonaro, mas que garantiria o apoio dos eleitores identificados com a
direita.
O resultado desse embate, com largo favoritismo para Lula no
momento da largada, beneficiaria àquele que se mostrasse mais capaz de atrair o
eleitor médio. Esse eleitor não é de direita nem de esquerda, não é fiel a
qualquer candidato, vota de acordo com as próprias conveniências e com as
circunstâncias do momento. Não é o caso de chamá-lo, aqui, de “eleitor de
centro”, para não subordiná-lo aos movimentos ardilosos do chamado “Centrão” —
que trata o cenário político como um armazém de secos e molhados e está sempre
transformando cargos em mercadoria. Esse eleitor é apartidário, dono do próprio
voto, se guia mais por fatores emocionais do que por preferências políticas e
representa algo em torno de 30% dos votos.
Ninguém, a esta altura, tem a menor ideia de quem ele
escolherá quando estiver diante da urna.
Com Flávio na disputa, o cenário se altera e o realinhamento dos astros tende a
reproduzir a mesma polarização que marcou as campanhas eleitorais passadas. E,
do ponto de vista do governo, aumenta o peso de alguns ingredientes que teriam
importância mais discreta se a disputa fosse contra Tarcísio. Se contra o
governador o cenário tendia à despolarização, do ponto de vista de Flávio,
quanto mais polarização, melhor.
O principal esforço do senador nos primeiros momentos da
campanha deverá ser o de reacender a chama que, em 2018 e 2022, transformou o
bolsonarismo num fenômeno de massa — e a possibilidade de que isso aconteça, neste
momento, depende mais de eventuais erros de condução política por parte do
governo do que da capacidade do senador de, no primeiro momento, atrair a
simpatia do eleitor médio. A mobilização do eleitor de direita, neste momento,
é essencial para criar o ambiente emocional que, na hora certa, pode atrair o
eleitor que tem em mãos o poder de decidir a eleição.
Lula não precisa de fazer tanto esforço. Basta não errar.
Ele é favorito numa disputa em que largou antes de todos os demais e estava,
até uma semana e meia atrás, sozinho na raia. Seu provável adversário, Tarcísio
de Freitas, sequer havia decidido se entraria ou não na disputa. E dava a
entender que só entraria em campo caso as forças que o apoiam reunissem
condições suficientes para aumentar suas chances de vitória. Flávio, não. Ele
sabe que só terá alguma chance se reduzir a hostilidade que existe contra ele e
construir, por sua própria força e não por apoio do Centrão ou de quem quer que
seja, um ambiente favorável, que lhe dê condições de vitória. Chega como azarão
e, portanto, sem a obrigação de vencer. E é justamente essa a primeira
circunstância que precisa ser levada em conta na análise de suas
possibilidades.
Lula tem uma máquina poderosa em mãos e já deixou claro que,
a partir de agora, ela trabalhará exclusivamente voltada para a reeleição. Na
quarta-feira, o presidente reuniu sua equipe na Granja do Torto, em Brasília, e
cobrou que os ministros se empenhem mais na divulgação dos resultados de suas
pastas. Mais do que isso, ele quer que insistam na comparação dos resultados
com os das gestões anteriores. Segundo o presidente, o governo ainda não achou
a “narrativa correta” para fazer com que a população tome conhecimento de suas
realizações.
É aí que está o problema de Lula. A máquina é poderosa, mas
seu funcionamento deixa a desejar em aspectos que, do ponto de vista eleitoral,
têm mais impacto do que as vantagens proporcionadas pelas áreas em que o
governo se destaca. Alguns ministérios realmente têm o que mostrar e não precisam
de narrativa alguma, só de fatos, para expor suas realizações. O governo tem
apresentado dados positivos no que se refere ao desempenho da economia. Lula
tem, e certamente o exercerá, todo o direito de apresentar os números positivos
desses setores que estão indo bem como realizações de seu governo.
Resta saber se esses dados positivos serão suficientes para
cobrir a má impressão deixada em áreas especialmente sensíveis. A verdade é que
a maioria das 38 pastas que compõem seu governo têm muito pouco, ou quase nada,
para mostrar. Algumas, como são os casos da Justiça e Segurança Pública e das
Relações Exteriores, mais ajudariam às pretensões eleitorais do chefe se, ao
invés de inventar uma narrativa para divulgar suas ações, tentassem esconder o
que andaram fazendo nos últimos anos.
E é justamente de áreas sob a responsabilidade desses e de
outros ministérios próximos ao presidente que podem emergir os problemas que,
quando for chegada a hora, são capazes de influenciar a decisão de voto do
eleitor médio, minar o favoritismo de Lula e transformar a corrida pela
reeleição, em 2026 numa disputa muito mais difícil do que seria se seu
principal adversário não carregasse o sobrenome Bolsonaro.
PEDRAS NO CAMINHO — Quem reparar direito notará que, neste momento — e sem
incluir na lista o clima de “já ganhou” que já levou dezenas de candidatos
experientes a cometerem erros infantis e os fizeram perder eleições
praticamente ganhas — há pelo menos quatro fatores sensíveis que, se não forem
muito bem administrados pelo governo, podem se transformar em obstáculos reais
à reeleição de Lula.
Nenhum deles parece ter, sozinho, força suficiente para
causar danos irreversíveis às chances eleitorais do presidente. Combinados, no
entanto, podem criar problemas e produzir fraturas que, bem exploradas pelos
adversários, podem criar uma situação que narrativa nenhuma, por mais eloquente
que seja, conseguirá conter seu impacto negativo. Que fatores são esses? Vamos
lá.
Nº1: GOVERNO E STF — A troca de elogios entre o presidente Lula e o ministro
Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, na festa de lançamento do
canal de notícias SBT News, dias atrás, expôs uma proximidade que, do ponto de
vista do apelo eleitoral, é desfavorável ao governo. Essa proximidade reforça a
percepção de que o rigor excessivo do ministro contra o ex-presidente Jair
Bolsonaro e seus apoiadores não passou de uma trama orquestrada com a intenção
de afastar o principal adversário de Lula da disputa.
Por mais que o governo e o Judiciário tentem negar, a percepção
é a de que os dois são unha e carne.
Não adianta o PT e seus apoiadores criarem uma narrativa em torno da autonomia
dos poderes e serem obrigados a sair sempre em defesa do papel institucional do
STF. O que o “eleitor médio” percebe, a esta altura, é que o governo e a
Justiça caminham lado a lado num tema que só pode ter seu peso eleitoral
devidamente avaliado se os eleitores da esquerda e da extrema-esquerda forem
excluídos da amostra.
Apenas essa exclusão permitiria avaliar, com precisão, como
a parte da sociedade que decidirá a eleição enxerga o rigor exagerado não só
contra Bolsonaro, mas, também, contra todos os condenados pelas manifestações
do dia 8 de janeiro de 2023. Não há quem discorde que as penas aplicadas contra
eles foram exageradas — e que isso será considerado nas eleições.
A amplitude dos placares das votações do chamado projeto da
“dosimetria” na Câmara (onde foi aprovado por 291 votos a 148) e no Senado
(onde obteve 48 votos a favor e 25 votos contrários) mostra que as chances de
livrar da cadeia os condenados às penas pesadíssimas aplicadas por Moraes têm
amplo apoio social. A despeito disso, a esquerda e a extrema-esquerda, com o
apoio de satélites do governo que não têm uma imagem propriamente vinculada à
defesa de princípios morais (como é o caso do senador alagoano Renan Calheiros,
do MDB), insistem em defender o rigor contra os condenados. E, para defender
seus pontos de vista, convocam manifestações tão esvaziadas que apenas expõem a
falta de apoio popular às penas exageradas.
Pior: além de não encontrar eco no eleitorado médio, esse
tipo de postura contrasta com o tratamento frouxo e condescendente que o
ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, historicamente, defende para crimes
que, aos olhos da sociedade, são muito mais graves do que os cometidos pelos
manifestantes bolsonaristas. Uma das questões que podem interferir no resultado
da luta pela conquista do eleitor médio é: como justificar tanto rigor contra
os condenados pelo 8 de janeiro e, ao mesmo tempo, estar sempre defendendo
atenuantes para os autores de crimes hediondos?
Nº 2: CRIME ORGANIZADO — A sociedade, de um modo geral, cobra mais rigor contra
a bandidagem e o governo, por mais que tenha passado, de algum tempo para cá, a
defender o endurecimento do jogo contra os criminosos, é pouco convincente
nesse papel. O aumento da sensação de perigo do cidadão diante da expansão do
poder das organizações criminosas e a cobrança de uma política mais enérgica no
combate às quadrilhas serão fatores determinantes para decisão de voto nas
próximas eleições brasileiras. Como, aliás, já foram, na semana passada, nas
eleições presidenciais do Chile.
Isso mesmo: entre os motivos da vitória do candidato de
direita José Antonio Kast contra a comunista Jeanette Jara, no Chile, está o
tratamento da esquerda às quadrilhas que há anos fizeram do porto de Valparaíso
um entreposto do tráfico de drogas para os Estados Unidos. Com o apoio do
governo americano, Kast teve habilidade para explorar eleitoralmente a
situação. O tratamento aos criminosos é um dos pontos mais frágeis do governo
brasileiro e, bem explorado pelo senador, pode tirar votos preciosos de Lula.
Nº 3: A SITUAÇÃO INTERNACIONAL — A vitória de Kast comprova uma tendência que
vem se espalhando pela América Latina. A presença de Javier Milei no governo da
Argentina, somada à de Daniel Noboa no Equador, Rodrigo Paz, na Bolívia,
Santiago Peña, no Paraguai, e Nayib Bukele, em El Salvador, indica que o Brasil
com seu governo de esquerda está ficando isolado na região. Conduzida por uma
diplomacia tíbia e pouco convincente, a política externa do Brasil encontra
cada vez menos apoio quando, por exemplo, contesta as ações dos Estados Unidos
em relação à Venezuela.
Dependendo do que acontecer nos próximos dias e das atitudes
que o governo porventura venha a tomar em defesa do narcoditador Nicolás
Maduro, Lula será cobrado pelo apoio que sempre deu ao governo “bolivariano”. E
sofrer as consequências de uma posição que, hoje em dia, rende mais prejuízos
do que benefícios eleitorais.
Nº 4: A SAÚDE DE JAIR BOLSONARO — Esse é um tema delicado, mas, com o devido
cuidado, precisa ser incluído entre os fatos que poderão ter impacto sobre os
rumos da disputa. A saúde do ex-presidente Bolsonaro é frágil e, por razões
óbvias, tem piorado desde que ele passou a cumprir na superintendência da
Polícia Federal, em Brasília, a pena de prisão a que foi condenado pelo STF.
A decisão de Alexandre de Moraes de dificultar a internação
do ex-presidente para mais uma das cirurgias a que terá de se submeter em
decorrência da facada que levou de um militante de esquerda na campanha de 2018
certamente foi acompanhada pelo eleitor médio e pode ser cobrada nas urnas. Na
hora agá, a conta sobre a piora do estado de saúde de Bolsonaro poderá ser
cobrada de Lula. Mais delicado ainda: uma piora mais acentuada do quadro de
saúde do ex-presidente pode levar seus apoiadores a um clima de comoção que,
certamente, pode se voltar contra o candidato que mais se beneficiou com seu
afastamento da disputa.
A história das próximas eleições ainda está por ser escrita.
Acontece que a entrada de Flávio na disputa torna a eleição de 2026 muito
parecida com a de 2022. Só que, agora, com o sinal trocado: quem atacava agora
está na defensiva; e quem defendia ganhou a prerrogativa do ataque. Resta saber
o que acontecerá.
Esta coluna será interrompida a partir da próxima edição e só voltará a
circular no dia 16 de janeiro. A todos os que nos acompanham ao longo deste ano
nosso muito obrigado e, a todos, o desejo de um 2026 rico em emoções e pobre em
disputas irrelevantes. Um feliz Natal e um ótimo Ano Novo!
Nuno Vasconcellos

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