No local, foram encontradas
diversas peças automotivas possivelmente oriundas de veículos roubados e
desmontados
Rio - Um "cemitério de
carcaças de veículos" a céu aberto. Foi nesse estado que a reportagem
de O DIA encontrou
o Rio Acari, na altura da Favela do Bin Laden, que pertence ao Complexo da
Pedreira, Zona Norte do Rio, nesta segunda-feira (10). No local, foram
encontradas diversas peças automotivas possivelmente oriundas de veículos
roubados e desmontados.
A região de Acari, formada por 25
bairros, é uma das que apresentam maior incidência de roubo de veículos na
cidade. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), apenas em agosto
deste ano foram registrados 1.016 roubos de veículos no município do Rio de
Janeiro. Na Zona Norte, a área que contempla Acari, Barros Filho, Costa Barros,
Parque Colúmbia e Pavuna foi a que registrou maior aumento de ocorrências entre
janeiro e agosto, passando de 674 em 2024 para 903 em 2025, um crescimento de
34%.
A situação não é nova. Em maio de
2018, a equipe de O DIA já havia visitado a mesma área e
encontrado um cenário semelhante, com dezenas de carcaças de
automóveis descartadas de forma irregular. Sete anos depois, o
problema persiste.
Impactos ambientais
Os pedaços de metal, ferragens e estruturas automotivas se acumulam às margens
do rio, bem próximo das casas dos moradores da comunidade, transformando o
espaço em um local inseguro até para se morar. Frequentemente, a região
sofre alagamentos provocados pelas fortes chuvas, especialmente no verão.
Para o biólogo Mario Moscatelli, que há mais de 30 anos se dedica à recuperação
de ecossistemas costeiros degradados, os riscos de contaminação do solo e da
água são altos, além dos efeitos negativos na qualidade de vida da população
local.
"O resíduo, seja ele de qual
tipo for, mas principalmente esse tipo de material, afeta diretamente a
capacidade de escoamento das águas, resultando no acúmulo de mais resíduos e
sedimentos, o que agrava o risco de inundações. Isso sem falar que todos os
rios vão para algum lugar, geralmente baías, e, durante chuvas torrenciais,
essas carcaças podem ser arrastadas, indo "repousar" no fundo dessas
pobres baías. Tudo errado!", analisou o especialista.
Ainda segundo Moscatelli, esses
objetos podem levar décadas para se decompor, dependendo do tipo de material.
"Se tiver pneu envolvido, não há previsão de decomposição", alertou.
O geólogo e autor do livro
"Planeta Hostil", Marco Moraes, listou os principais impactos
impactos ambientais. "Incluem contaminação do solo por óleos e metais
pesados, formação de película oleosa na água que bloqueia oxigênio e luz solar,
morte da fauna aquática, poluição de lençóis freáticos, liberação de gases
tóxicos pela queima de peças, e acúmulo de resíduos não biodegradáveis como
pneus e plásticos que persistem por séculos", explica.
Publicidade
O especialista comentou ainda
sobre os riscos de contaminação para as famílias que moram próximas ao
local: "Há risco significativo. Metais pesados presentes nos óleos são
cancerígenos e podem contaminar água potável de poços. Exposição prolongada
causa danos à pele e problemas respiratórios. Pneus acumulam água criando focos
de mosquitos transmissores de dengue, zika e chikungunya, representando ameaça
direta à saúde das famílias".
Limpeza no Rio Acari
Em outubro deste ano, a Prefeitura do Rio incluiu no Plano Verão 2025/26 as
obras do PAC da Bacia do Acari. Conforme apresentado pelo vice-prefeito Eduardo
Cavaliere, o projeto, com investimento de R$ 368 milhões, prevê melhorias no
controle de enchentes e no saneamento de áreas densamente povoadas da Zona Norte.
"Ao todo, nove bairros receberão obras que vão beneficiar 79 mil pessoas.
Haverá também a intervenção em 3,8 km do rio, entre Jardim América e Acari, com
um desassoreamento exclusivo para o Rio Acari", informou a prefeitura na
época do lançamento do Plano Verão.
Em nota, a Fundação Rio-Águas, responsável pela limpeza e desassoreamento do
Rio Acari, informou que programou o início dos serviços de retirada das
carcaças no leito, no trecho de Fazenda Botafogo, para ainda este mês.
Em 2023, a Fundação disse ter realizado um trabalho de limpeza no rio,
retirando mais de 191 mil toneladas de material do canal, o equivalente a cerca
de 16 mil caminhões basculantes de 12 toneladas, em uma extensão de 3,1 km de
curso d'água.
Em relação a possíveis investigações
sobre a origem das carcaças, que podem ser de veículos roubados, a Polícia
Civil também ainda não se manifestou.
O Dia

0 comentários:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!