
Fotos Diculgação
23º bem
brasileiro a integrar a Lista do Patrimônio Mundial, Sítio é laboratório de experimentações botânicas e paisagísticas que
sintetiza a obra de Burle Marx.
O Brasil acaba
de receber mais um título de Patrimônio Mundial. Legado do paisagista
brasileiro que criou o conceito de jardim tropical moderno, o Sítio Roberto
Burle Marx (SRBM) foi reconhecido nesta segunda-feira, 26 de julho, durante a
44ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Realizada em Fuzhou, na China,
a reunião foi transmitida via internet para todo o mundo.
Com a nova
chancela, o Brasil passa a ter 23 bens inscritos na Lista do Patrimônio Mundial
da Unesco, registro dos bens considerados como portadores de valor universal
excepcional para a cultura da humanidade. O SRBM foi reconhecido na categoria
de Paisagem Cultural, na qual se enquadram bens que referenciam a interação
entre o ambiente natural e as atividades humanas, resultando em
uma paisagem natural modificada.
Localizado na
Barra de Guaratiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), o Sítio tem 405 mil
metros quadrados de área e abriga uma coleção botânica com mais de 3.500
espécies de plantas tropicais e subtropicais, cultivada em viveiros e jardins.
O sítio é uma
unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan), autarquia federal vinculada à Secretaria Especial da Cultura e ao
Ministério do Turismo.
“O Sítio
Roberto Burle Marx é certamente uma obra de arte, onde as paisagens são o
elemento de maior destaque, ligando todo o conjunto com poderosa personalidade.
Os espaços ajardinados do Sítio materializam tanto os princípios paisagísticos
da obra de Burle Marx quanto os processos de análise, cultivo e experimentação
que impulsionaram a criação do paisagismo tropical moderno. A vegetação
organizada em diálogos de forma, cor e volume que permeiam todos os ambientes,
mas também se articulam e interagem com a mata nativa, com a topografia e os
acidentes naturais do terreno e com elementos artísticos e arquitetônicos de
diferentes épocas e culturas, resultando numa paisagem notável e singular”,
ressalta a diretora do SRBM, Claudia Storino.
Para a
presidente do Iphan, Larissa Peixoto, este título é motivo de orgulho para
o Brasil, o Iphan e toda a população brasileira. “A chancela estabelece um
compromisso para manter os valores excepcionais que tornam esse lugar de
importância para toda a humanidade. Temos a missão de preservar para as futuras
gerações este espaço de aprendizado e de fomento ao conhecimento sobre
natureza, paisagismo, arte e botânica”, destaca.
Jardins,
viveiros de plantas, sete edificações e seis lagos integram este espaço
singular. A propriedade também guarda um acervo museológico de mais de três mil
itens, que inclui um grande repertório da produção artística de Burle Marx,
suas coleções de arte moderna, cuzquenha, pré-colombiana, sacra e popular
brasileira, de cristais e de conchas, além do mobiliário e dos objetos de uso
cotidiano da casa.
Maior e mais
importante registro da obra de Burle Marx, o SRBM recebe cerca de 30 mil
visitantes por ano. Conhecido internacionalmente como um dos mais relevantes
paisagistas do século XX, Roberto adquiriu o Sítio em 1949 e ali viveu entre
1973 e 1994. Ao longo de 45 anos, reuniu na propriedade plantas de diversas
partes do mundo e dos diversos biomas brasileiros, algumas atualmente em risco
de extinção.
Todo esse
conjunto acaba de passar por uma vasta requalificação, que fortaleceu e
subsidiou o processo da candidatura ao título de Patrimônio Mundial. Por meio
da Lei de Incentivo à Cultura, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) investiu aproximadamente R$ 5,4 milhões em projetos e
intervenções para valorizar espaços de visitação, implementar medidas de
acessibilidade, ampliar o acesso público e potencializar ações de pesquisa.
Fruto de parceria firmada entre o Iphan e a Associação Intermuseus, associação
civil sem fins lucrativos (Oscip), a requalificação iniciou em outubro de 2018
e foi concluída em fevereiro de 2021.
Na articulação
entre espaços ajardinados, arquitetura e acervo botânico, o SRBM testemunha de
forma única o pensamento de Roberto Burle Marx e sua contribuição para um
importante momento da história da humanidade - o período moderno do século XX
-, que se materializou na arquitetura, nas artes, no planejamento urbano e, mais
especificamente, na criação de paisagens.
Burle Marx foi
pioneiro na luta pela conservação da natureza e ferrenho defensor do ambiente.
Compreendendo desde cedo o potencial estético e a importância científica da
flora tropical, introduziu o uso de espécies nativas em seus projetos
paisagísticos, criando o conceito de jardim tropical moderno, alinhado ao
movimento moderno na arquitetura e nas artes, que produziu grande impacto no
campo mundial do paisagismo.
Claudia Storino
explica que há camadas de conhecimento científico que precedem e permeiam os
jardins. “Evidenciando essa dimensão conceitual, Burle Marx referia-se ao Sítio
como o seu ‘cadinho’. Essa metáfora não é força de expressão ou referência
fortuita. A energia depositada na constituição de sua coleção botânica; sua
concentração na construção do conhecimento científico necessário ao cultivo, à
reprodução e à utilização das espécies; a dedicação intensa e permanente à
realização dos experimentos, juntando os diversos elementos vegetais sob os determinantes
naturais de terra, água e luz, em busca dos resultados estéticos que o tempo se
encarregaria de amadurecer. Tudo isso traça paralelos com o trabalho dos
alquimistas. No caso da produção do jardim tropical moderno, o Sítio foi de
fato o cadinho, ou crisol, onde os elementos foram misturados de modo a
produzir uma obra nova, com novos princípios e nova expressão plástica”,
esclarece a diretora.
Etapas da
candidatura
O processo de
construção de candidatura começou com a inscrição na lista indicativa
brasileira a Patrimônio Mundial, em 2015. Desenvolvido pelo Iphan com a
contribuição de muitos parceiros, o dossiê final do Sítio Burle Marx foi
entregue à Unesco em janeiro de 2019. O documento defende o valor da
propriedade como laboratório botânico e paisagístico.
No segundo
semestre de 2019, o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos)
realizou a “missão de avaliação” no Sítio, parte importante do processo de
candidatura. A visita se desdobrou no relatório final, que subsidiou a análise
pelo Comitê do Patrimônio Mundial.
O título da
Unesco cria um compromisso internacional de preservação do local. Um dos
próximos passos será a formalização de um plano de gestão para o Sítio e seu
entorno, na perspectiva do patrimônio mundial, envolvendo diversas instituições
governamentais e atores da sociedade civil e definindo a matriz de
responsabilidades de todos os parceiros. O plano mapeará riscos e apontará
ações para minimizar possíveis ameaças ao valor universal excepcional do SRBM.
O ministro do
Turismo, Gilson Machado Neto, destaca que o Sítio Roberto Burle Marx é um
importante Patrimônio Cultural brasileiro tombado pelo Iphan, e a sua inscrição
como Patrimônio Cultural Mundial reforça a sua importância também para o mundo.
“A chancela representa o reconhecimento sobre a importância do Sítio também
para a humanidade, aumentando os compromissos com a sua proteção, conservação e
gestão, o que deve atrair ainda mais visitantes para conhecer este, que é um
dos mais importantes registros da influência e da obra do artista Roberto Burle
Marx”, disse Machado Neto.
A história
do Sítio
Em 1949,
Roberto Burle Marx e seu irmão Guilherme Siegfried compraram o imóvel com a
finalidade de abrigar coleção botânica, testar novas associações de plantas e
cultivar mudas. A partir de então, a casa foi sucessivamente reformada e
ampliada; foram construídos a Loggia, o Salão de Festas (conhecido como Cozinha
de Pedra), a Casa de Pedra, o Prédio da Administração e o Ateliê; a Capela de
Santo Antônio da Bica, do século XVII, foi restaurada e mantida em uso pela
comunidade.
No ano de 1985,
Burle Marx doou o Sítio ao governo federal a fim de assegurar sua preservação,
a continuidade das pesquisas, a disseminação do conhecimento adquirido e o
compartilhamento daquele espaço único com a sociedade. Após a morte do artista
em 1994, o sítio passou a ser gerido pelo Iphan e se tornou um centro cultural.
O legado de
Burle Marx
Nascido em
1909, em São Paulo, Burle Marx foi criado no Rio de Janeiro, onde faleceu em
1994. Com milhares de projetos espalhados pelo mundo, concebeu paisagens
de grande destaque no país, como os jardins do Complexo da Pampulha, em 1942; o
jardim do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1954; o paisagismo do
Aterro do Flamengo, em 1961; os jardins da sede da Unesco, em Paris, e o famoso
traçado do “calçadão” de Copacabana, em 1970.
Além de
paisagista, Burle Marx foi também artista plástico, pintor, escultor, designer
de joias, figurinista, cenógrafo, ceramista e tapeceiro. Todas as facetas da
sua obra podem ser apreciadas no SRBM, um grande laboratório de experimentações
botânicas e artísticas.
Na propriedade
também se encontram exemplares das 34 espécies que possuem relação direta com
Burle Marx: duas delas descritas diretamente pelo paisagista, 16 nomeadas em
homenagem a ele e outras 16 cujas descrições utilizaram materiais coletados nas
expedições promovidas por Roberto.
Parte do acervo
museológico do Sítio está disponibilizada em um banco de dados específico para
registro, gestão, pesquisa e acesso público. Consulte aqui e
para mais detalhes conheça também o folheto do SRBM e veja o
vídeo da candidatura.
SÍTIO
ROBERTO BURLE MARX:
Estrada Roberto
Burle Marx, No. 2019 - Barra de Guaratiba CEP: 23020-255 - Rio de Janeiro/RJ
Tel.: (21) 2410.1412
Agendamento de
visitas por e-mail: visitas.srbm@iphan.gov.br
Devido à
pandemia, as visitas estão acontecendo em pequenos grupos, de 3ª feira a
sábado, às 13h, 13h30 e 14h. São obrigatórios uso de máscaras, higienização das
mãos, álcool em gel e distanciamento.
Crédito da
imagem 1: Marlon da Costa Souza
Crédito das
imagens 2 e 3: Oscar Liberal / Iphan
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