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PATRICIO/ESTADÃO Após registrar dois ataques de tubarão
em menos de
dois meses, o governo de Pernambuco estuda fazer
interdições em praias
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SÃO PAULO -
Após registrar dois ataques de tubarão em menos de dois meses, o governo de
Pernambuco estuda fazer interdições em praias. Proposta por pesquisadores, a
medida prevê maior controle de acesso de banhistas e bloqueios temporários em
trechos da orla nas horas em que a probabilidade de ataques é maior, como em
fase de maré alta e água turva ou em áreas de mar aberto.
O Ministério
Público Estadual (MP-PE) também prepara ação para obrigar o governo a adotar
uma série de recomendações de segurança. Entre elas está proibir banho de mar
em determinados locais e orientar bombeiros que atuam como guarda-vidas a
exercer poder de polícia e até prender por desobediência quem se negar a deixar
zonas de risco.
“Quatro ou
cinco lugares concentram os ataques, então poderiam ser interditados para banho
ou pelo menos sinalizados com mais boias na água, bandeiras na areia e
colocação de redes de proteção”, diz Ricardo Coelho, promotor da Defesa do Meio
Ambiente e Patrimônio Histórico-Cultural. “Se isso não for feito pelo Cemit
(Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões), poderá ser feito
por via judicial.”
Os dois últimos
ataques aconteceram na Praia da Igrejinha, onde não há arrecifes (mar aberto)
em Jaboatão dos Guararapes. Segundo relatório do Cemit, que notifica os casos
desde 1992, é o ponto mais crítico da orla – 12 dos 65 registros aconteceram
lá. O mais recente foi domingo: José Ernesto Ferreira da Silva, de 18 anos,
mordido na perna, não resistiu e se tornou a 25.ª vítima de tubarão a morrer na
costa de Pernambuco.
Em 15 de abril,
também um domingo, um homem de 34 anos já havia sido mordido na Igrejinha,
provavelmente por um tubarão-tigre de 2,4 metros, segundo especialistas. Perdeu
a perna e a mão direita. Até então, o Grande Recife não registrava casos desde
março de 2015.
Com o retorno
dos incidentes, pesquisadores elaboraram um protocolo para fechar trechos da
orla, que foi apresentado ao Cemit em maio. O órgão voltou a discutir a
proposta em reunião na terça e decidiu que os bombeiros devem elaborar estudo
de viabilidade. Entre os que resistem à ideia, o argumento é afetar comércio e
turismo.
“Não é
fechamento da praia, mas uma interdição temporária em momentos em que houver
características de maior probabilidade de incidente”, afirma o especialista
Jonas Rodrigues, membro do Cemit e pesquisador da Universidade Federal Rural de
Pernambuco (UFRPE). Entre fatores de risco, ele cita períodos de chuva e vento
forte (água turva), maré alta e ausência de arrecifes, além de fins de semanas
e feriados, quando há mais banhistas. As praias do Grande Recife recebem entre
300 mil e 500 mil visitantes.
Os bloqueios só
seriam desfeitos quando as autoridades concluíssem que o mar voltou a ficar
seguro para banho, o que pode levar horas ou dias, diz Rodrigues. “Duraria o
tempo necessário. Isso já funciona em outros países como Austrália, África do
Sul e Estados Unidos.” Também há proposta para interdição em horários de maior
incidência: no começo da manhã e no cair da tarde.
Outros membros
do Cemit sugeriram que, em caso de perigo, a área fosse isolada “igual a um
local de um crime e quem desobedecer deve ser punido”. Para os integrantes, a
sinalização – com 110 placas e bandeirolas espalhadas por toda a orla – muitas
vezes não é respeitada pela população.
Para Rodrigues,
dois ataques em sequência após um hiato de três anos no Recife podem sim estar
ligados à mudança de comportamento de banhistas. “Quando passa muito tempo sem
incidentes, as pessoas tendem a se sentir mais seguras e a achar que não vai
acontecer com elas”, afirma. O especialista, porém, destaca que estudos do tema
foram desmobilizados em Pernambuco. Por isso, não seria possível indicar se
houve alterações climáticas ou ambientais que influenciaram na ação de animais
marinhos.
Conflito. Em
dezembro, a Baía de Sueste, em Fernando de Noronha, ficou 24 horas interditada
após um banhista de 32 anos ser mordido no braço. Diferentemente das praias
metropolitanas, no entanto, a área já tem acesso restrito por catracas e recebe
um público com perfil diferente, de maior poder aquisitivo – o que, na
avaliação de especialistas, faz com que o bloqueio tenha menor custo político para
o governo.
Já na orla do
Recife existe um complexo de serviços, com barracas, quiosques e opções de
lazer que atendem a diferentes classes sociais, não só de turistas – muitas
vezes, a praia é a principal atração dos moradores da periferia do Recife. “De
um lado da balança estão os hotéis e os restaurantes. Do outro, a segurança da
população”, diz o promotor Ricardo Coelho.
A proposta de
fazer interdições é vista com reticência pela gestão Paulo Câmara (PSB). “Essa
ideia divide os técnicos e, pelo seu impacto econômico e social, não pode ser
adotada sem maturidade, evidências científicas e um planejamento detalhado de
cada etapa desse processo”, afirma o coronel Leodilson Bastos, presidente do
Cemit. “Neste momento, fazemos a opção de menor impacto, mantendo o lazer e as
atividades na faixa de areia e fortalecendo nosso trabalho de prevenção e
fiscalização.”
Governo
decidiu reforçar fiscalização com guarda-vidas
Após a última
reunião do Comitê Estadual de Monitoramento dos Incidentes com Tubarões, o
governo de Pernambuco publicou nota anunciando “reforço de fiscalização” – os
guarda-vidas devem trabalhar uma hora a mais por dia – em quatro pontos da
orla, incluindo três locais da Praia de Boa Viagem. Juntos, esses pontos
respondem por 41,5% das áreas de ataques.
“O incidente ocorre não por desconhecimento,
mas por descumprimento de orientação”, diz o tenente-coronel André Ferraz,
comandante do Grupamento de Bombeiros Marítimo. “Vamos usar bote inflável para
entrar na água e recolher quem se põe em risco.” O Recife chegou a ter um
projeto de captura e remoção de tubarões, o Protuba, encerrado em 2015. “Mais
de 400 tubarões foram capturados na costa e soltos na plataforma continental.
Apenas um retornou à praia”, diz o promotor Ricardo Coelho.

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