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Ilustração
(Foto: Getty Images)
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Para o
americano Marc-William Palen, embora seja complicado prever o que ocorrerá após
medidas protecionistas dos EUA e do Reino Unido, 'é difícil achar que vai ser
algo bom para o mundo'.
O protecionismo
de medidas como a tarifa imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, sobre importações de aço tem muitas semelhanças com o cenário de guerras
comerciais que levaram, cem anos atrás, a conflitos militares como a Primeira
Guerra Mundial.
A avaliação é
do historiador americano Marc-William Palen, para quem essa perspectiva do
passado é fundamental para entender o que pode acontecer com o mundo a partir
das políticas de Trump e de outras manifestações de protecionismo no mundo,
como o Brexit, a saída do Reino Unido na União Europeia.
Enquanto os
impactos econômicos das disputas entre os EUA, a China, o Canadá e até o Brasil
têm dominado as atenções no caso das tarifas americanas, Palen defende que não
se deve deixar de lado uma análise sobre os efeitos geopolíticos desse tipo de
protecionismo.
"Guerras
comerciais e o protecionismo transformam amigos e vizinhos em inimigos",
afirma ele em entrevista à BBC Brasil.
Professor na
Universidade de Exeter, na Inglaterra, o historiador passou as últimas semanas
publicando artigos para criticar as tarifas anunciadas por Trump e refutar a
sua declaração de que "guerras comerciais são fáceis de vencer".
"Certamente podemos ver as semelhanças com um século atrás na criação de
tensões entre Estados. Tensões que não existiam antes dessas políticas
protecionistas", diz.
Segundo ele, um
grande erro é ignorar o quanto as economias são conectadas no mundo atual.
"Não há vencedores em guerras comerciais."
Codiretor do
Global Economics and History Forum (Fórum de Economia e História Global, em
tradução literal), em Londres, Palen é especialista na intersecção entre o
imperialismo do Reino Unido e dos Estados Unidos do século 19 à globalização
dos dias atuais.
Ele também
autor do livro "The 'Conspiracy' of Free Trade: The Anglo-American
Struggle over Empire and Economic Globalisation, 1846-1896" ("A
conspiração do livre mercado: a luta anglo-americana por império e globalização
econômica, 1846-1896"), lançado em 2016 pela Cambridge University Press.
Segundo o
historiador, o retorno ao protecionismo, assim como a ascensão de políticas
contra imigração, são "um retorno ao status quo que havia antes da Segunda
Guerra Mundial", uma reação populista à crise financeira global, e se
manifesta de forma semelhante em vários países do mundo, e que pode levar a uma
desintegração sem precedentes da ordem econômica global.
Leia a
entrevista abaixo.
BBC Brasil -
O senhor argumenta que, cem anos atrás, o protecionismo levou a conflitos
internacionais que geraram a Primeira Guerra Mundial. A situação atual é
comparável ao que houve então?
Marc-William
Palen - É muito difícil prever o futuro, mas há muitas semelhanças ostensivas
entre os dois períodos. Um dos aspectos mais marcantes é a dimensão geopolítica
do protecionismo, que acaba sendo muito deixada de lado. Tendemos a enfocar
como as medidas vão afetar consumidores, que também é importante, mas não é o
único ponto em questão.
Quem pensaria,
dois anos atrás, que haveria animosidade entre os EUA e o Canadá, que por
décadas era o maior aliado e parceiro comercial dos americanos. É
impressionante que agora haja este clima de disputas sobre tarifas sobre aço,
tentativas de acabar com o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio, na
sigla em inglês), o que está gerando grandes tensões entre vizinhos.
Certamente
podemos ver as semelhanças com um século atrás nessa criação de tensões entre
Estados. Tensões que não existiam antes dessas políticas protecionistas.
BBC Brasil -
Que tipo de problemas geopolíticos o protecionismo pode gerar?
Palen - O foco
principal da análise atualmente está sendo a forma como as tarifas vão afetar a
economia doméstica, se vai gerar empregos, se vai afetar a Bolsa, como vai
mudar os preços de carros… Tudo isso é importante, mas também é importante
lembrar que essas tarifas, essas guerras fiscais, vão muito além da esfera
doméstica.
Isso é algo que
minha pesquisa vê claramente na virada do século 19 para o século 20, quando a
ordem econômica global era muito protecionista. Meu estudo mostra que essas
guerras comerciais e o protecionismo transformavam amigos e vizinhos em
inimigos. Essas guerras econômicas têm a tendência de formar as bases
geopolíticas para conflitos militares.
Ainda é muito
cedo para saber se isso vai ser ressuscitado no futuro próximo, mas, ao olhar
para as relações entre os EUA e o Canadá ao longo do último ano, vemos claramente
a mudança de tom da relação amigável à animosidade.
BBC Brasil -
Que tipo de escalada de confrontos o protecionismo gerou no passado?
Palen - Um
exemplo que analisei foi exatamente a relação entre Canadá e os EUA em meados
do século 19. EUA e Canadá tinham uma relação de reciprocidade comercial.
Depois da Guerra Civil, o Partido Republicano colocou uma série de barreiras
comerciais nesta relação, o que gerou tensão.
O que tento
fazer com minha pesquisa é mostrar que há esta tendência de ver o protecionismo
como sendo uma anomalia dentro da história de defesa do livre mercado do
Partido Republicano dos EUA. Mas isso realmente não existia até Ronald Reagan
nos anos 1980. Na maioria da história do Partido Republicano, ele foi
amplamente o partido do protecionismo.
O Canadá
frequentemente era o alvo de leis protecionistas, o que levou à escalada de
disputas entre os dois países, o que quase gerou confrontos militares. A
escalada chegou a um ponto em que, nos anos 1920, o Canadá tinha planos de
invasão dos EUA e vice-versa. Felizmente esse conflito militar nunca chegou a
acontecer, mas as chances de conflito foram muito altas.
BBC Brasil -
O que criou a atual onda de políticas protecionistas no mundo? Pode ser ainda
reflexo da crise financeira internacional?
Palen - É
difícil ver uma resposta clara para esta pergunta. O protecionismo não apareceu
de repente, e fez parte consistentemente da campanha que levou Trump à
Presidência, com o argumento de colocar "os Estados Unidos em primeiro
lugar" ("America First").
Trump sempre
deixou claro que acha que a globalização e o livre mercado são palavrões -
chegando a chamar "livre mercado" de "mercado estúpido". O
argumento dele é que é importante proteger e gerar empregos em alguns setores
nos EUA. No caso atual é a indústria do aço e do alumínio. Ele está levando
adiante suas promessas de campanha. Só acho que as repercussões dessas decisões
não foram muito bem pensadas.
Negociar o
Brexit é o principal desafio de Theresa May no Reino Unido (Foto: Getty Images)
BBC Brasil -
O Brasil acabou pressionado por essas decisões, já que é um dos principais
mercados de onde os EUA importam aço.
Palen - O
aspecto brasileiro dessa questão é muito problemático. O Brasil é um parceiro
importante, é o segunda maior fonte de importações de aço dos EUA. E,
ironicamente, o Brasil também é um grande importador de carvão americano, que é
usado na indústria do aço, que é vendido aos EUA. Então o protecionismo
americano, que afeta o Brasil, pode acabar tendo efeitos sobre a produção de
carvão, que também é uma área de interesse e proteção de Trump.
BBC Brasil -
Canadá e Brasil são os dois países mais afetados pela tarifa sobre o aço, mas a
retórica de Trump em disputas comerciais sempre esteve voltada contra a China.
O que houve, neste caso? Ele simplesmente errou o alvo, ou realmente queria
atingir parceiros como Canadá e Brasil?
Palen - É
difícil entender a justificativa dele para isso. O argumento de defesa nacional
não faz sentido quando ele fala sobre a China. A forma como o governo Trump
está tentando explicar a medida não está muito clara. É difícil saber o quanto
ele realmente pensava na China quando decidiu tomar essa medida, mas de fato os
países parceiros são os maiores afetados, não a China.
BBC Brasil -
Em uma situação assim, considerando os EUA como a economia mais forte em uma
disputa comercial, o que um país mais pobre como o Brasil pode fazer para
reagir a tarifas em uma guerra comercial deste tipo?
Palen - É
difícil saber. O governo Trump pode oferecer vantagens a países parceiros em
troca de outras vantagens na relação. O Brasil sempre pode apelar à OMC
(Organização Mundial do Comércio), o que pode ter algum efeito. A ironia é que
os EUA foram os grandes responsáveis pelo que se tornaria a OMC, e agora vão
passar a ser pressionados por ela. É difícil saber como Trump vai tratar a
relação com o Brasil.
BBC Brasil -
Trump disse que guerras comerciais são fáceis de serem vencidas. O que acha
disso?
Palen - A
resposta imediata que qualquer historiador e economista daria sobre isso seria
que não há vencedores em guerras comerciais, apesar do que Trump falou. É
provável que haja alguns setores que vão sair ganhando no curto prazo, como os
produtores de aço nos EUA no caso atual, que terão mais lucro. Mas a história
sugere que vai haver muito mais perdedores, especialmente entre os consumidores,
no longo prazo.
Todos os países
envolvidos em guerras comerciais, e mesmo os que estão fora dessas disputas, já
que vivemos em uma economia integrada globalmente, vão sair perdendo. É difícil
achar que isso não vai afetar a economia global como um todo. E as populações
mais pobres vão acabar sendo as mais afetadas, com aumento de preços de
alimentos.
BBC Brasil -
O que Trump e os EUA têm a ganhar com este tipo de política protecionista?
Palen - Isso
tem um apelo emocional com seus eleitores. Isso ficou claro durante sua
campanha presidencial, e é um apelo emocional e populista a eleitores que se
acham abandonados pela economia global. Os EUA já foram a grande nação
industrial e defensora do livre mercado internacional, mas as coisas mudaram.
Não me
surpreenderia se ele achasse que está fazendo isso para defender seus
eleitores. O problema é que o setor produtor de aço, especificamente, é uma
parcela muito pequena dos EUA, e ajudar este grupo temporariamente vai ter
efeitos muito mais amplos em toda a população dos EUA.
BBC Brasil -
Falamos bastante dos EUA, mas o Brexit e a eleição francesa também foram pontos
de debate sobre protecionismo, com uma escalada de políticas contra a
globalização. Esses fenômenos estão conectados de alguma forma?
Palen - Sim.
Não se trata de um fenômeno apenas dos EUA. Precisamos ver essas questões sob
uma perspectiva histórica mais ampla, e não achar que é uma anomalia populista
contra o livre mercado. O sistema econômico global nos últimos 200 anos foi
quase todo dominado pelo protecionismo. O movimento pelo livre mercado que se
desenvolveu depois da Segunda Guerra Mundial é a exceção à regra.
Neste sentido,
o retorno mundial a políticas econômicas nacionalistas e políticas
anti-imigração são um retorno ao status quo que havia antes da Segunda Guerra
Mundial. Vemos isso claramente no Brexit, com o Reino Unido alegando que vai
defender o retorno do livre mercado internacionalmente enquanto rompe com a
União Europeia. Isso enquanto está reagindo para limitar a imigração.
É uma reação
populista à crise financeira global, e se manifesta de forma semelhante em
vários países do mundo.
BBC Brasil -
Você escreveu que estamos assistindo à desintegração da ordem econômica global.
O que vem depois disso?
Palen - O
problema é que não há um precedente histórico para o que está acontecendo
agora.
Na forma como a
ordem econômica global funcionou dos anos 1840 aos anos 1930, o Reino Unido era
o país industrial mais poderoso e maior defensor do livre mercado. Enquanto
isso, o resto do mundo resistia e usava políticas protecionistas. Foi somente
nos anos 1930, quando todo o mundo se voltou ao nacionalismo, que o Reino Unido
abandonou a defesa do livre mercado. Isso está fortemente ligado à crise
internacional e à recessão. Depois disso, os EUA assumiram a hegemonia da
defesa do livre mercado internacional desde a Segunda Guerra.
O que é
interessante é que, no primeiro caso, o Reino Unido foi o último país a aceitar
o protecionismo. Enquanto isso, agora são EUA e Reino Unido, os dois líderes e
fundadores dessa ordem econômica internacional, os primeiros a se voltar contra
esta ordem e abandonar o livre mercado. Isso é impressionante e sem
precedentes.
Por isso não
podemos saber com certeza o que pode acontecer. E é difícil achar que vai ser
algo bom para o mundo.
Por BBC

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