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© BBC Perfis
falsos no Twitter e no Orkut apoiaram Dilma
em sua campanha de 2010 | Ilustração: Kako
Abraham/BBC
|
O "companheiro
Armando", como era chamado por outros blogueiros, se descrevia no Orkut
como "um cidadão brasileiro indignado com a ação criminosa dos
tucanos" na campanha eleitoral. Era casado, tinha 56 anos e vivia em Poços
de Caldas, Minas Gerais.
Seu blog chamava-se
"Seja Dita Verdade" e dizia divulgar "a notícia
transparente". "Nestas eleições surgiram, quase que 'por mágica', os
mais variados e-mails falsos que caluniam Dilma Rousseff. Venho aqui neste
blog, sempre que possível, desmentindo um por um", escreveu em uma de suas
postagens.
Esse
"Armando", no entanto, nunca existiu. Seu blog e seus perfis no Orkut
e no Twitter eram administrados por quatro pessoas que teriam recebido, para
tanto, de R$ 3,5 mil a R$ 4 mil mensais entre maio e outubro de 2010. A BBC
Brasil entrevistou sob a condição de anonimato três dessas quatro pessoas, que
dizem ter sido recrutadas sem contrato formal por uma empresa de marketing
político baseada em São Paulo para levar isso a cabo.
Seu trabalho,
segundo relatam, era alimentar o blog com postagens desmentindo supostos boatos
sobre Dilma Rousseff e publicar textos parciais e contrários a seu principal
adversário, José Serra (PSDB), que acabou derrotado no segundo turno. A página
também chegou a ter notícias falsas. E, para disseminar seu conteúdo, o
trabalho acabou envolvendo a criação de perfis falsos - ao menos 131 deles no
Twitter, segundo uma lista à qual a BBC Brasil teve acesso.
Parte desses
perfis, 84, ainda estão "vivos" na rede social, embora inativos, e
podem ser conferidos por qualquer um.
Se você não
consegue ver a lista, clique aqui
São usuários
como "Juliana Miranda" ou "jujummiranda", que escrevia
tuítes sobre o curso de Psicologia ("Freud é uma das minhas paixões")
entremeados com outros em apoio a Dilma ("os capixababas querem Dilma, deu
pra sentir hoje nas ruas"), além de retuitar a página "Seja Dita
Verdade". Sua foto pertence, na realidade, a uma blogueira finlandesa.
A empresa
apontada pelos entrevistados como responsável pelo serviço é a Ahead Marketing,
de Gabriel Arantes Cecílio e, na época, também de Arnaldo Lincoln de Azevedo.
Em seu site, é descrita como uma companhia que adaptou o "marketing de
guerrilha" para a realidade política. Oferece serviços como o de
"invisible talkers" (comunicadores invisíveis), "grupo de
agentes treinados que inserem mensagens em pontos estratégicos da cidade, por
meio de diálogos entre eles mesmos ou com a população".
Questionados
por e-mail, os dois negaram ter participado na "produção de notícias
falsas", mas não responderam à pergunta sobre a produção de perfis falsos.
Além disso, disseram não poder comentar se foram contratados para atuar na
campanha de Dilma Rousseff em 2010 porque não falam sobre "clientes ou
supostos clientes" (leia mais abaixo).
O site da agência informa que ela participou "dentro e fora do Brasil" de "campanhas vitoriosas para a Presidência da República, governos estaduais e de grandes capitais", sem especificar quais.
O site da agência informa que ela participou "dentro e fora do Brasil" de "campanhas vitoriosas para a Presidência da República, governos estaduais e de grandes capitais", sem especificar quais.
Não há na
prestação de contas da campanha de 2010 de Dilma e do PT registros de
pagamentos à Ahead Marketing. Há um pagamento de R$ 234 mil, no entanto, da
campanha do aliado e hoje governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), a
"G. Cecílio e Cia Ltda", de Gabriel Cecílio Arantes.
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© BBC 'Paloma
Axel' tuita a favor de Dilma e Fernando
Pimentel
(PT), além de interagir com outro fake
| Imagem: Reprodução/Twitter
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"Ana
Gabriela" (ou @aninha_gaby no Twitter) é um exemplo: "Antes que eu me
esqueça, #voudepimentel", escreve em 20 de setembro de 2010. A
"usuária" também tuitava a favor de Dilma: "Programa de Dilma
mostra a história de vida de uma mulher vitoriosa", escrevera um mês
antes.
"A gente
especulava, sabia que podia acontecer, e agora a descoberta de que isso
aconteceu já em 2010 gera mais um mega-alerta para as eleições de 2018",
diz à BBC Brasil Fabricio Benevenuto, professor do departamento de Ciência e
Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), demonstrando
preocupação com a "tentativa de manipulação de opinião pública através do
uso de perfis falsos" neste ano.
Para Pablo
Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, a
descoberta "mostra que o Brasil tem pelo menos oito anos de 'know-how' de
como fazer fakes de maneira sofisticada como estratégia organizada de campanhas
políticas". "Parece pioneirismo brasileiro. Um primeiro ensaio, um
embrião de como fazer essa influência que deve ter aumentado nos ciclos
posteriores."
Por meio de sua
assessoria de imprensa, Dilma negou que tenha contratado tal serviço. "A
ex-presidenta Dilma Rousseff, em nenhuma de suas campanhas, em 2010 e 2014,
contratou ou autorizou que fosse contratado quaisquer serviços relativos a
perfis e notícias falsos. Desconhece quaisquer das empresas ou pessoas que agem
nessa área. Tampouco tem conhecimento ou autorizou qualquer atuação, iniciativa
ou ação nesse sentido de integrante de suas campanhas", afirmou, em nota.
Respondendo
sobre a campanha de Pimentel, o diretório do PT de Minas disse não ter
"conhecimento sobre a contratação de qualquer empresa com a finalidade de
criação e manutenção de perfis falsos no Twitter, em qualquer campanha
eleitoral. Esclarece, ainda, que esta não é uma prática do partido."
Perfis falsos
foram comprovadamente usados para tentar influenciar as eleições americanas em
2016. O expediente, ao lado da propagação de notícias falsas, também preocupa
especialistas e autoridades brasileiras, que temem seu uso nas eleições de
2018. Em dezembro passado, a BBC Brasil revelou que a profissionalização
do serviço no Brasil já existia ao menos desde 2014, em escala maior do que
esta que teria acontecido em 2010: uma empresa, baseada no Rio, teria
remunerado cerca de 40 funcionários espalhados pelo Brasil para criar e
alimentar milhares de perfis falsos no Twitter e no Facebook.
Depoimentos dos
entrevistados pela BBC Brasil e tuítes mostram que campanhas de políticos como
Aécio Neves (PSDB-MG), então candidato à Presidência, o presidente do Senado,
Eunício Oliveira (PMDB-CE), e o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) teriam
contratado o serviço. Eles negam.
Rotina e
publicações
Os quatro
ex-funcionários chegavam para trabalhar todos os dias por volta das 10h em um
apartamento em Higienópolis, bairro nobre na zona central de São Paulo, segundo
relatam os entrevistados pela BBC Brasil. Começavam o dia fazendo uma espécie
de "reunião de pauta" depois de ler os jornais do dia, em que
decidiam quais postagens seriam produzidas para o blog, sempre com os assuntos
do momento e a partir de laptops fornecidos pelos donos da empresa, contam.
Também
trabalhavam ali um diagramador e, ocasionalmente, uma pessoa de tecnologia da
informação, afirmam os entrevistados.
As postagens
variavam principalmente entre notícias que atacavam Serra e textos que
desmentiam boatos sobre Dilma que, na época, circulavam em outros blogs, grupos
de Orkut e correntes de email. O blog tinha as categorias: "(Des)governo
do PSDB", "Desmentindo boatos", "Partido da Imprensa
Golpista" e "PSDB: Mancadas da campanha", entre outros.
Um exemplo de publicação que visava desmentir textos falsos sobre Dilma é uma que explica que o presidente Michel Temer (PMDB), vice na chapa, não era satanista. "Michel Temer sempre foi ligado ao catolicismo desde a infância. Portanto, a afirmação que Temer é satanista é FALSA", dizia o texto publicado no blog.
Um exemplo de publicação que visava desmentir textos falsos sobre Dilma é uma que explica que o presidente Michel Temer (PMDB), vice na chapa, não era satanista. "Michel Temer sempre foi ligado ao catolicismo desde a infância. Portanto, a afirmação que Temer é satanista é FALSA", dizia o texto publicado no blog.
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© BBC A
"gaúcha" "Cristina Morais" faz publicações pró-Dilma
e divulga o
blog 'Seja Dita Verdade' | Imagem: Reprodução/Twitter
|
Embora a maior
parte das publicações fosse de ataques a Serra ou de checagem de fatos sobre
Dilma, os entrevistados pela BBC Brasil admitem que chegaram a produzir também
notícias falsas. Uma publicação do dia 6 de outubro de 2010, por
exemplo, informa que o Vaticano estava discutindo "excomungar José
Serra".
"Vestígios
de conversas secretas dentro do Vaticano, um dos lugares mais misteriosos do
planeta, já começam a chegar em terras brasileiras. De início, um pequeno
comentário aqui, uma colocação ali, nada de nomes. Quem estava mais atento logo
começou a construir, com pequenos fragmentos, a história do que acontecia na
terra do Papa: um alto político brasileiro estava para ser excomungado. Agora a
notícia já vazou por completo, já não é segredo para ninguém, trata-se de José
Serra, presidenciável do PSDB."
Autor dessa
notícia, um dos entrevistados sob a condição de anonimato pela BBC Brasil
afirma que "acabou" produzindo esse texto no blog porque esse
conteúdo, em relação às notícias falsas, "foi aumentando num
crescente". "Acabaram saindo essas coisas", diz, apontando uma
das técnicas para criar uma notícia falsa: "tem sempre um lado que é
verdade e outro que não pode ser apurado por ninguém - como de pessoas 'falando
secretamente no Vaticano'. Como alguém apuraria isso?".
Em dias de
debate eleitoral, contam os entrevistados, eles chegavam para trabalhar mais
tarde e saíam também mais tarde, por volta das 2h ou 3h, porque ficavam
produzindo postagens sobre o debate para o blog. Por ser mais trabalhoso, eles
faziam um sorteio para decidir quem seria a pessoa responsável pelo perfil de
"Armando Santiago Jr." durante a discussão entre os candidatos.
"Debate
era final de Copa do Mundo, era dia que a gente ia dormir às 3h. O debate
acabava umas 22h. Enquanto um estava fazendo o Armando Santiago Jr., outro
ficava escrevendo texto para o blog e outro estava replicando as mensagens nos
perfis do Twitter. Era um trabalho muito estressante", diz um
entrevistado.
Ser o
"Armando Santiago Jr." no dia a dia "era um trabalho muito
pesado porque tinha que disseminar informações positivas, contra-argumentar as
negativas, tomando porrada de todos os lados", afirma.
Os
ex-funcionários também contam que faziam plantões de casa aos fins de semana
uma vez por mês. O plantonista tinha que ir cedo comprar as revistas semanais
para então escrever um texto que supostamente desmentiria uma capa de revista
com uma reportagem que pudesse ser negativa para Dilma, por exemplo.
Eles dizem ter
recebido celulares pré-pagos para se comunicar com os donos da empresa. E, ao
criar perfis falsos, usavam um programa que escondia o endereço IP das máquinas
- ou seja, buscavam evitar deixar registros de suas atividades na internet.
'Ectos'
"Maria de
Lourdes Coelho", de 62 anos, é uma dona de casa e avó em Santarém (PA).
"Casada. Gosta de política. O filho é funcionário público na cidade, é
preocupada com o futuro dos netos. Seu estilo: mãezona. É a voz das mulheres em
favor de Dilma", diz sua descrição na planilha que sistematiza os perfis
falsos à qual a BBC Brasil teve acesso.
Mais que perfis
falsos, aliás: quando começaram a criá-los, contam os entrevistados, os
coordenadores criaram um código para referir-se a eles. Eram os
"ectos", em referência a "ectoplasmas", ou fantasmas.
A planilha à
qual a BBC Brasil teve acesso mostra os "ectos" no Twitter, suas
histórias criadas pelos ex-funcionários e, em alguns casos, email e senha para
acessá-los. Parte dos perfis foi desativada ou suspensa pelo Twitter. Alguns
nomes foram adotados por usuários reais depois que os falsos foram desativados.
E outros tuitaram também em 2012, o que indica que podem ter sido reciclados.
Os entrevistados pela reportagem, porém, dizem ter trabalhando alimentando as
contas apenas em 2010.
Na reta final
da campanha, cada funcionário focou na manutenção de cerca de 20
"ectos" mais desenvolvidos, além do perfil de "Armando".
Não havia automação ou uso de robôs - as quatro pessoas designadas para manter
os perfis dizem ter feito tudo manualmente. Elas afirmam que nunca tinham ouvido
falar na criação profissional de perfis falsos e que iam aprendendo enquanto
faziam. De certa forma, sentiam-se pioneiras disso no Brasil, embora achassem
que a oposição também lançava mão da estratégia. Contam que tinham autonomia
para criar narrativas e "personalidades" para cada um dos fakes.
Os
"ectos" eram personagens como "Mariza Villela", descrita na
planilha dos ex-funcionários como uma microempresária que "montou seu
próprio negócio por conta das melhoras do país no Gov. Lula". Ou então
"Ricardo Ribeiro", um "farmacêutico formado que não tinha
perspectiva de fazer um faculdade até o ProUni ser implantado" - o ProUni
(Programa Universidade para Todos) é um programa federal criado por Lula para
dar bolsas de estudo em cursos de graduação em instituições privadas. Havia
também a "garota do povo, agitadora da rede" (Karlla Kristina), a
"esquerdista light" (Luciana Andrade), o "militante soft"
(Felipe Gomes), a "politizada e culta" (Ana Paula Ramos) etc.
Os
coordenadores exigiam que os usuários falsos tivessem perfis demográficos
variados, com classe, profissões, origem e estilo distintos e plurais, de
acordo com os relatos dos entrevistados. O objetivo seria manter uma ampla gama
de perfis que apoiassem Dilma, com o objetivo de interagir com diferentes
comunidades de forma atrativa para elas.
"Também
havia muitos perfis com cara de 'ongueiro', zen, gente que anda de bicicleta,
justamente para cativar o eleitor da Marina", conta um entrevistado,
citando Marina Silva (então no PV, hoje Rede), candidata que ficou com o
terceiro lugar em 2010. Ele cita o perfil "@kaiowa_rt", o
"Marcos Kaiowá", por exemplo, criado para representar o apoio de
comunidades indígenas à candidata petista.
A maior parte
dos "ectos" eram mulheres com fotos consideradas atraentes com
o propósito de atrair homens e aumentar, assim, o número de seguidores.
"Ana Gabriela", a usuária que tuitava a favor de Dilma e Pimentel,
perguntava pelos "homens da Twittosfera" e procurava os que eram
"politizados".
Além disso, com
o objetivo de representar eleitores de Dilma de todo o Brasil, os
ex-funcionários criaram dois ou três perfis falsos de cada Estado. Ao fazer
isso e alimentar seus perfis com publicações sobre seu dia a dia, no entanto,
acabavam caindo em clichês regionais, de forma pouco natural - eles próprios
admitem. "Acabava a criatividade e nem sempre tínhamos tanto
repertório", diz um.
© BBC 'Ectos'
de todos os Estados foram criados para favorecer Dilma, como mostrava
apresentação em PowerPoint da época | Imagem: Reprodução
"Feriadinho
tranquilo, chimas e twitter", escreve "Cristina Moreira",
usuária falsa que seria de Porto Alegre, usando "chimas" para se
referir a "chimarrão". "Dia tá cansativo, mas tá tri!!!",
diz, em outra ocasião. O "ecto" paulistano usa "meu" para
tuitar, enquanto o de Goiânia tecla a respeito de música sertaneja. Já as
usuárias falsas da Bahia se referem ao Estado como "Baêa" e a suas
mães, como "mainha".
Alguns perfis
foram criados só para seguir e monitorar usuários ligados à campanha
adversária, segundo os entrevistados. O "ecto" "Dudu
Graneff" escrevia ironicamente sobre o PSDB e a imprensa com um nome que
fazia referência ao cientista político Eduardo Graeff, ex-secretário-geral da
Presidência nos governos de Fernando Henrique Cardoso. Essa conta foi desativada,
mas seus rastros ainda podem ser encontrados no Twitter por meio de retuítes e
interações antigos.
Outro, "Zé
Chirico", ainda "vivo" no Twitter, com 914 seguidores, mas sem
tuitar desde agosto de 2010, era uma sátira de Serra. "Ex-governador de
São Paulo. Faço de tudo para ser presidente da República", diz sua
descrição.
Os perfis
também faziam muitas críticas a veículos de imprensa tradicionais, com
constantes acusações a revistas e jornais.
Todas as contas
foram criadas entre maio e agosto de 2010, e a maioria encerrou a publicação de
tuítes em outubro daquele ano, quando ocorreram as eleições.
A BBC Brasil
levantou os dias e horários de criação de cada um dos perfis. O resultado
mostra que, muitas vezes, os usuários surgiram com minutos de diferença:
@plinplao, o "Plínio Paulo", foi criado no dia 25 de julho de 2010 às
13:59. Vinte e cinco minutos depois, nasce o @aposentado_z, "José
Carlos", por exemplo. O padrão se repete entre todos os outros perfis
falsos.
Perfis e fotos
Fotos para os
perfis falsos eram retiradas de diversos cantos da internet: de páginas de fora
do Brasil, principalmente, e de blogs com fotos "para fakes", ou
seja, feitos justamente para isso. "Pegávamos fotos de um pessoal turco,
às vezes africano, para se parecer mais com o brasileiro", relatou um
ex-funcionário. Outro diz que procurava imagens em sites de paquera.
"Cristina
Morais" é uma mulher gaúcha moradora do Recife que tuitava a favor de
Dilma. Na planilha com os fakes, ela é descrita como "professora de
literatura, 25 anos, estudante de jornalismo. Contra o PIG (Partido da Imprensa
Golpista)". "Até Aécio vota em Dilma!", escreve, intercalando tuítes
em que diz estar com sono ou planejando seu feriado na cidade com outros sobre
política. Também retuita os textos do "Seja Dita Verdade".
Mas o rosto de
"Cristina Morais" pertence à engenheira carioca Liana Soares, de 36
anos, que mora na Suíça. Sua foto foi retirada de um blog que ela mantém sobre
viagens. Para a dona da imagem, é "uma falta de escrúpulos tremenda usarem
fotos de pessoas normais em contas fakes". "Seja lá qual for o
objetivo. Se for para manipular a opinião pública, pior ainda", diz.
Outro perfil
falso é o de "Paloma Axel", "Mineirinha de Sete Lagoas agora em
BH".
Para criar
"reputação" e legitimar-se como verdadeiro, além de tuitar sobre o
Atlético Mineiro, o perfil de "Paloma" interage com outro perfil
falso: o de "Mafredo Coutinho", controlado pelo mesmo funcionário,
segundo a planilha à qual a BBC Brasil teve acesso. "@Manfredinho, lembro
que eu te zuava falando que era nome do meu avô. Vc continua gordinho
nerd?", escreve. E depois: "Nossa o @seumanfredo está aqui em casa.
Mas que papo chato!!!".
Outra forma de
parecer mais "real": narra uma viagem a São Paulo para assistir ao
show do Bon Jovi. "Valeu gente, vou pra São Paulooooooooooooooo amanhã tem
Bon Jovi!!! BJOS Dilmistas", escreve no dia 5 de outubro de 2010.
Em setembro,
divulgou o site do então candidato a senador Fernando Pimentel (PT). Depois,
recomendou o blog Seja Dita Verdade: "Muito importante essa página onde
estão desmascaradas todas as mentiras sobre Dilma difundida por e-mails
terroristas. Vamos difundir". E, no dia 25 de outubro de 2010, tuitou
durante e sobre o debate transmitido pela TV Record entre Dilma e Serra, que
disputavam o segundo turno.
Mas a foto
usada em seu perfil pertence, na realidade, à escritora argentina Pola
Oloixarac.
No Orkut,
segundo dizem os entrevistados, também faziam álbuns de fotos para parecerem
ainda mais verdadeiros. "Como fazia álbuns de gente que não existe? Pega
um monte de foto aleatória e escreve 'família querida', 'dia com meus filhos' e
vai lá e tranca o álbum e deixa só para você ver. As pessoas vão ver que tem um
álbum lá, mas não vão conseguir acessar."
'Seja Dita
Verdade'
Embora o blog e
o perfil no Twitter do Seja Dita Verdade não estejam mais ativos, é possível
encontrar alguns vestígios seus na internet.
A começar pelos
retuítes de outros perfis, quando se coloca um "RT" em frente à
mensagem original e seu autor. Um retuíte de maio de 2010 mostra que o
@sejaditaverdade havia escrito: "RT @Sejaditaverdade: Serra tem nojo de
povo e não consegue esconder".
O blog foi
desativado, mas há capturas de tela da página feitas entre 2010 e 2014 e
arquivadas no site https://web.archive.org,
uma espécie de biblioteca digital que mantém capturas de tela congeladas no dia
em que foram salvas. Sua descrição de 2014, por exemplo, diz: "Aqui damos
a notícia transparente, como ela é. Por que às vezes, a única coisa verdadeira
num jornal é a data".
Foi citado pela
coluna "Painel" da Folha de S.Paulo em agosto
daquele ano: "O site 'Seja Dita Verdade', que apoia Dilma, divulgou ontem
um vídeo que compara falas de Marina em 2014 a um discurso de Fernando Collor
em 1989. Os dois aparecem prometendo 'o novo' na política", diz o texto.
A página já não
existe no Facebook, mas é possível encontrar compartilhamentos antigos de suas
publicações, com argumentos contra o voto em Aécio Neves (PSDB), candidato
presidencial em 2014, e Geraldo Alckmin (PSDB), candidato ao governo de São
Paulo, o que mostra que ela estava ativa ao menos até 2014.
Os
entrevistados pela BBC Brasil dizem ter atuado na manutenção do blog apenas até
2010.
Relatório
Em 2010, o
ambiente digital era outro, e blogs, Twitter e Orkut tinham a relevância que
hoje o WhatsApp e o Facebook têm. Em agosto de 2010, segundo dados da
consultoria comScore, o Orkut era a maior rede social do Brasil, com 29 milhões
de usuários únicos. Facebook e Twitter cresciam, com cerca de 9 milhões cada.
Segundo Marcelo
Coutinho, coordenador de mestrado em administração da FGV (Fundação Getulio
Vargas) que fez pesquisas sobre o uso das redes sociais nas eleições
brasileiras em 2006 e 2010, a internet já chegava a 50% do eleitorado
brasileiro naquela época. "E, entre os eleitores internautas, a internet
era a principal fonte de informação sobre as eleições, seguida pela
televisão", observa.
Não se falava
em "fake news", mas em "boataria" espalhada em correntes de
emails e blogs. Estes tinham surgido como atores políticos nas eleições de 2006
e, em 2010, "viviam seu auge", segundo Pollyana Ferrari, professora
da PUC-SP e pesquisadora de mídias sociais.
Os chamados
blogs "progressistas" confrontavam o que era divulgado pela grande
mídia - um exemplo foi a disputa da narrativa sobre o objeto que teria atingido
Serra na cabeça durante um comício, apontado como uma bolinha de papel. Na
época, também houve boatos dos dois lados sobre a suposta defesa do aborto por
parte de Dilma e Serra.
Uma
apresentação de PowerPoint à qual a BBC Brasil teve acesso, supostamente feita
pela empresa para informar o PT sobre a evolução do trabalho de penetração do
"Seja Dita Verdade" e da criação de perfis falsos, dizia que o perfil
do blog no Twitter tinha quase 2 mil seguidores, com uma média de 13 retuítes
por publicação.
Comunidades do
Orkut ainda eram o ambiente de discussões online. "Armando"
participava de 41 delas divulgando as postagens do blog e participando de
debates, segundo a apresentação de PowerPoint. A rede social, onde havia outros
perfis falsos, segundo os entrevistados, foi extinta em 2014, mas a BBC Brasil
teve acesso a uma captura de tela do perfil de "Armando".
Segundo a
apresentação de PowerPoint, o blog "Seja Dita Verdade" tinha uma
média de mais de 100 visitas diárias em julho de 2010.
Já no Facebook,
ainda de acordo com essa apresentação, o perfil "Seja Dita Verdade"
tinha 148 amigos em julho daquele ano.
A rede
construída pela agência também tinha uma newsletter chamada "Abrindo
bico", "um informativo com pequenas notas atacando o PSDB",
segundo a apresentação, com uma base de 186 mil emails.
Outra forma de
penetração era a criação de vídeos, também produzidos pelos funcionários. Quinze
ainda estão disponíveis no Youtube na conta "sejaverdade". O
mais visto, com 114 mil visualizações, tenta desbancar argumentos da campanha
de Serra para elegê-lo presidente.
'Ponte com PT'
Uma terceira
pessoa teria coordenado o trabalho de criação e manutenção do blog e dos perfis
falsos, segundo os ex-funcionários: o publicitário Ruy Nogueira Netto, que não
é ligado à Ahead, mas, de acordo com os contratados, era a ponte com o PT. Foi
em seu apartamento em Higienópolis, segundo os entrevistados pela BBC Brasil,
em que trabalharam criando os perfis falsos.
Por email,
Nogueira Netto negou que tenha participado do esquema. "Não poderia
trabalhar na campanha de alguém por quem não sinto o menor apreço pessoal, de
forma pública e reconhecida."
Ele afirmou, no
entanto, que, em sua "antiga residência, em Higienópolis, a pedido de meu
saudoso amigo Marco Aurélio Garcia, alguns militantes da campanha de Dilma
Rousseff se reuniam eventualmente para avaliar o cenário da internet. O foco
era o clima de terror semeado pela campanha de José Serra na web".
Questionado sobre o que faziam essas pessoas que frequentavam sua casa, ele
respondeu não ter "conhecimento maior de como atuavam".
Marco Aurélio
Garcia (1941-2017) foi um dos coordenadores do programa de governo da campanha
de Dilma à Presidência, além de ocupar também, na época, o cargo de assessor
especial para Assuntos Internacionais da Presidência de Lula.
Nogueira Netto
disse que conhece "faz anos" Arantes Cecílio e Lincoln de Azevedo,
que considera serem "publicitários sérios e competentes". Os dois
dizem que são amigos de Nogueira Netto e que frequentam sua casa.
A empresa
responsável oficialmente pela parte digital da campanha de Dilma em 2010 era a
agência Pepper Interativa, de Danielle Fonteles. Os entrevistados pela BBC
Brasil afirmam que Fonteles visitou o apartamento onde trabalhavam e estava
ciente do uso de perfis falsos que estariam sendo usados pela campanha, tendo
até pedido a senha e o acesso aos usuários.
Questionado
sobre sua relação com Fonteles, Nogueira Netto respondeu, por email:
"Fomos apresentados em 2010 e jamais mantivemos relações profissionais ou
pessoais". Procurado durante três dias pela reportagem, o advogado que
representa Fonteles, Cleber Lopes de Oliveira, disse que não conseguiu falar
com sua cliente porque ela estava fora do Brasil. Tampouco enviou à reportagem
um contato seu.
O pagamento,
segundo o relato dos entrevistados, era feito todo mês no apartamento de Ruy
Nogueira Netto. Eles eram chamados individualmente a seu escritório e recebiam
o salário em dinheiro vivo de Arantes Cecílio, Lincoln de Azevedo ou Ruy
Nogueira Netto, dizem. Os três negam a informação.
A BBC Brasil
teve acesso a emails trocados entre os ex-funcionários e Gabriel Arantes
Cecílio, Arnaldo Lincoln de Azevedo e Ruy Nogueira Netto. Nas mensagens, de
2011, falam sobre um "processo de trabalho" em que eles e os
entrevistados participaram juntos no ano anterior e citam "laços" que
os unem.
Criar perfis
falsos é um crime no Brasil quando feito para obter vantagens ou causar dano a
outras pessoas. Além disso, a legislação eleitoral aprovada no ano passado
proíbe "a veiculação de conteúdos de cunho eleitoral" por meio de
usuários falsos na internet. Mas essa regra não existia em 2010. A disseminação
de notícias falsas, por sua vez, não é ilegal agora nem era na época, mas seu
autor pode ser punido se cometer calúnia, difamação ou injúria contra alguém.
"Na época,
achava que o que fazíamos era muito importante, que o blog tinha também a
função de fiscalizar o mau jornalismo. Hoje eu penso de outro jeito", diz
um dos entrevistados pela BBC Brasil. A criação de perfis falsos, conta outro,
veio de forma natural, como forma de divulgar o blog, sem muita reflexão.
"Eu mal consigo explicar o que eu fiz em 2010. Isso não é jornalismo, é
completamente outra coisa. E pode ser algo muito perigoso."
O que dizem os
citados na reportagem
Dilma
Rousseff (PT), ex-presidente
"A
ex-presidenta Dilma Rousseff, em nenhuma de suas campanhas em 2010 e 2014,
contratou ou autorizou que fosse contratado quaisquer serviços relativos a
perfis e notícias falsos. Desconhece quaisquer das empresas ou pessoas que agem
nessa área. Tampouco tem conhecimento ou autorizou qualquer atuação, iniciativa
ou ação nesse sentido de integrante de suas campanhas."
Diretório
Estadual do PT de Minas Gerais (em resposta sobre a campanha de Fernando
Pimentel ao Senado em 2010)
"O
Diretório Estadual do Partido dos Trabalhadores de Minas Gerais não tem
conhecimento sobre a contratação de qualquer empresa com a finalidade de
criação e manutenção de perfis falsos no Twitter, em qualquer campanha
eleitoral. Esclarece, ainda, que esta não é uma prática do partido."
Gabriel
Arantes Cecílio, sócio da Ahead Marketing
"A Ahead
não tem ligação especial com nenhum partido político. São todos potenciais
clientes de uma das áreas que atendemos. A postura da empresa - e também a
minha - sempre foi a de respeitar e preservar as situações particulares de
empresas, partidos ou pessoas que nos relacionamos. Por conta disso a empresa
não trata sobre clientes ou supostos clientes. No caso da empresa temos isso
também por força de contrato, no pessoal por crença de conduta. Devo, contudo,
te afirmar, com ênfase, que as afirmações sobre formas pagamentos não
correspondem à realidade. Também não é verdade que estivemos envolvidos na
produção de notícias falsas, como foi apontado. Pelo contrário, sempre baseamos
nosso trabalho na premissa de que é possível oferecer um modelo em que qualquer
pessoas possa compreender os fatos reais de seu cotidiano da mesma forma com
que ela normalmente se comunica. Sobre a ligação com Ruy Nogueira, esclareço
que o conheci há mais de uma década ao atender um cliente em comum. Desde então
mantemos uma relação de amizade e já estive diversas vezes em sua casa. (...)
Conheço as demais pessoas citadas (governador Fernando Pimentel (PT), Danielle
Fonteles, da agência Pepper, e o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares), mas não
mantenho nenhuma relação especial com qualquer delas."
Arnaldo
Lincoln de Azevedo, sócio da Ahead Marketing em 2010
"Eu sou um
profissional do mercado com mais de 13 anos no mercado publicitário. Já
trabalhei na McCann, Ogilvy, Ahead e atualmente estou na Benjamim. Em todas
estas empresas meu posicionamento foi o mesmo: por uma questão de conduta
profissional e pessoal não comento sobre clientes, supostos clientes, trabalhos
ou supostos trabalhos. Esclareço, com destaque, que as informações sobre
pagamentos não correspondem à realidade. Também é inverídica a informação sobre
suposto envolvimento na produção de notícias falsas, como foi apontado. Conheci
Ruy Nogueira em uma circunstância profissional há alguns anos. Temos uma
relação de amizade e já o visitei algumas vezes em sua casa."
Ruy Nogueira
Netto, publicitário
"Em minha
antiga residência, em Higienópolis, a pedido de meu saudoso amigo Marco Aurélio
Garcia, alguns militantes da campanha de Dilma Rousseff se reuniam
eventualmente para avaliar o cenário da internet. O foco era o clima de terror
semeado pela campanha de José Serra na web." Questionado sobre o que
faziam, respondeu: "Não tenho conhecimento maior de como atuavam".
Afirmou que Gabriel Arantes Cecílio e Arnaldo Lincoln de Azevedo são
"publicitários sérios e competentes, aos quais conheço faz anos".
Sobre a produção de posts para o blog "Seja Dita Verdade" e a criação
de perfis falsos, respondeu: "Esclareço: a campanha de Dilma Rousseff foi
feita pelas empresas do gaúcho Marcelo Branco e a brasiliense Pepper".
Afirmou também: "Não poderia trabalhar na campanha de alguém por quem não
sinto o menor apreço pessoal, de forma pública e reconhecida". Disse que o
pagamento em dinheiro vivo em seu apartamento a pessoas em 2010 é uma
"informação inverídica", assim como a alegação de que teriam recebido
computadores e celulares para fazer o trabalho. Afirmou, sobre Danielle
Fonteles, da Agência Pepper: "Fomos apresentados em 2010 e jamais
mantivemos relações profissionais ou pessoais". Questionado sobre sua
relação com Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, e com o advogado e ex-deputado
petista Luiz Eduardo Greenhalg, disse que Delúbio é seu "velho
conhecido" e que Greenhalgh é seu "amigo pessoal de décadas".
Negou ser responsável por um perfil satírico feito em 2010 contra o cientista
político Eduardo Graeff, ex-secretário-geral da Presidência nos governos de
Fernando Henrique Cardoso, que o processou (e perdeu o processo) anos antes por
ter sido criticado por Nogueira Netto em um blog em 2004: "Depois de
derrotá-lo na Justiça, jamais ocupei-me de sua figura".
Twitter
"Falsa
identidade é uma violação das Regras do Twitter. Quando recebemos uma denúncia,
tomamos as medidas cabíveis de acordo com a nossa Política para Falsa
Identidade, incluindo a suspensão da conta do Twitter"
Facebook
"Nossas
políticas não permitem contas falsas. Contamos com nossa comunidade para
denunciar perfis falsos para que nossos times possam revisar e remover tais
contas e todo o conteúdo relacionado a elas. Além disso, estamos o tempo todo
aperfeiçoando nossos sistemas para melhor identificar e remover contas falsas a
partir de padrões de comportamento"
Google
(Orkut)
A empresa não
quis responder.



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