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O
ex-presidente Lula e sua mulher Marisa Letícia: o chefe e a madame
(Ricardo
Stuckert/AP)
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Lava-Jato localiza diálogos de
empreiteiro com seus funcionários sobre as exigências de Lula, o “chefe”, e
Marisa, a “madame”, nas reformas do sítio em Atibaia e do tríplex no Guarujá
Em fevereiro de 2014, as obras do
Edifício Solaris, no Guarujá, tinham acabado de ser concluídas. A OAS era a
empreiteira responsável. O apartamento 164-A, embora novo em folha, já passava
por uma reforma. Ganharia acabamento requintado, equipamentos de lazer, mobília
especialmente sob encomenda e um elevador privativo. Pouca gente sabia que o
futuro ocupante da cobertura tríplex de frente para o mar seria o ex-presidente
Lula. Era tudo feito com absoluta discrição. Lula, a esposa, Marisa Letícia, e
os filhos visitavam as obras, sugeriam modificações e faziam planos de passar o
réveillon contemplando uma das vistas mais belas do litoral paulista. A OAS
cuidava do resto. Em fevereiro de 2014, a reforma do sítio em Atibaia onde Lula
e Marisa descansavam nos fins de semana já estava concluída. O lugar ganhou
lago, campo de futebol, tanque de pesca, pedalinhos, mobília nova. Como no
tríplex, faltavam apenas os armários da cozinha.
Os planos da família, porém,
sofreram uma mudança radical a partir de março daquele ano, quando a Operação
Lava-Jato revelou que um grupo de empreiteiras, entre elas a OAS, se juntou a
um grupo de políticos do governo, entre eles Lula, para patrocinar o maior
escândalo de corrupção da história do país. As ligações e as relações
financeiras entre Lula e a OAS precisavam ser apagadas. Como explicar que, de
uma hora para outra, o tríplex visitado pela família e decorado pela família
não pertencia mais à família? Teria havido apenas uma opção de compra. O mesmo
valia para o sítio de Atibaia - reformado ao gosto de Lula, decorado seguindo
orientações da ex-primeira-dama e frequentado pela família desde que deixou o
Planalto. Em 2014, os Lula da Silva passaram metade de todos os fins de semana
do ano no sítio de Atibaia.
Por que Lula e Marisa deram as
diretrizes para as reformas no tríplex do Guarujá e no sítio de Atibaia se não
são seus donos? Por que a OAS, que tem seu presidente e outros executivos
condenados por crimes na Operação Lava-Jato, gastou milhões com Lula? O
Ministério Público acredita que está chegando perto das respostas a essas
perguntas - a que o próprio Lula se recusou a responder, evadindo-se do depoimento
que deveria prestar sobre o assunto na semana passada. Para o MP, Lula se valeu
da construtora e de amigos para ocultar patrimônio. Os investigadores da
Lava-Jato encontraram evidências concretas disso. Mensagens descobertas no
aparelho celular do empreiteiro da OAS Léo Pinheiro, um dos condenados no
escândalo de corrupção da Petrobras, detalham como a empresa fez as reformas e
mobiliou os imóveis do Guarujá e de Atibaia, seguindo as diretrizes do
"chefe" e da "madame" - Lula e Marisa Letícia, segundo os policiais.
Em fevereiro de 2014, Léo Pinheiro
era presidente da OAS, responsável pela condução de um império que já teve
quase 70 000 trabalhadores, em 21 países, construindo plataformas de petróleo,
hidrelétricas, estradas e grandes usinas. Àquela altura, porém, ele estava
preocupado com uma empreitada bem mais modesta. A instalação de armários de
cozinha em dois locais distintos: Guarujá e Atibaia - a "cozinha do
chefe". O assunto, de tão delicado, estava sendo discutido com Paulo
Gordilho, outro diretor da empreiteira, que avisa: "O projeto da cozinha
do chefe está pronto". E pergunta se pode marcar uma reunião com a
"madame". Pinheiro sugere que a reunião aconteça um dia depois e pede
ao subordinado que cheque "se o do Guarujá está pronto". Seria bom se
estivesse. Gordilho responde que sim. No dia seguinte, o diretor pergunta a Léo
Pinheiro se a reunião estava confirmada. "Vamos sair a que horas?",
quer saber. "O Fábio ligou desmarcando. Em princípio será às 14 hs na
segunda. Estou vendo, pois vou para Uruguai", responde o presidente da
empreiteira.
Para a polícia, os diálogos são
autoexplicativos. No início de 2014, a OAS concluiu a construção do edifício
Solaris, onde fica o tríplex de Lula, o "chefe". A partir daí, por
orientação da "Madame", a ex-primeira-dama Marisa Letícia, a
empreiteira iniciou a reforma e a colocação de mobília no apartamento, a
exemplo do que já vinha fazendo no sítio de Atibaia. "Fábio", segundo
os investigadores, é Fábio Luís, o Lulinha, filho mais velho do casal. Em companhia
dos pais, ele visitou as obras, participou da discussão dos projetos e, sabe-se
agora, era a ponte com a família sempre que Léo Pinheiro e a OAS precisavam
resolver detalhes dos serviços. Para não incomodar o "chefe" com
assuntos comezinhos, a OAS tratava das minúcias diretamente com Marisa e
Lulinha. Léo Pinheiro, o poderoso empreiteiro, fazia questão de ter controle
sobre cada etapa da reforma. Quando havia uma mudança no projeto, ele era
informado. "A modificação da cozinha que te mandei é optativa. Puxando e
ampliando para lateral. Com isto (sic) fica tudo com forro de gesso e
não esconde a estrutura do telhado na zona da sala", informa Gordilho.
Pela data da mensagem, ele se referia ao projeto do sítio de Atibaia.

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