Grupos ligados ao PT e
manifestantes contrários ao partido entraram em conflito. Houve trocas de
pedradas e agressões
A frente do Fórum Criminal da
Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo, se tornou nesta quarta-feira palco de
confronto entre apoiadores do ex-presidente Lula e grupos contrários a ele e ao
governo petista. Lula e sua mulher, Marisa Letícia, haviam sido intimados para
depor nesta manhã na investigação sobre seu tríplex no Guarujá, litoral
paulista, mas uma liminar concedida na noite de ontem paralisou o inquérito, como revelou a coluna Radar. Em poucas
horas, a frente do fórum se tornou uma verdadeira praça de guerra: houve
espancamentos entre manifestantes e a PM interveio com bombas de gás,
cassetetes e gás de pimenta. A situação só se acalmou por volta das 14 horas.
A Polícia Militar chegou a separar
os dois grupos com grades, mas a medida não foi suficiente para evitar o
conflito, que teve início quando um grupo de trinta pessoas ligadas ao PT foram
para cima dos movimentos anti-PT para furar um boneco Pixuleco que eles
tentavam inflar. Em maior número, os integrantes de movimentos ligados ao PT -
como CUT, Juventude do PT e MST - arremessaram ovos no grupo opositor, que
revidou com pedras. Em pouco tempo, os dois grupos se agrediam a pedradas.
Também houve troca de xingamentos, empurra-empurra e agressões físicas. A
Avenida Doutor Abraão Ribeiro está bloqueada. O Pixuleco acabou rasgado.
"Eu tentei proteger o
Pixuleco. Tirei um cara que pulou as grades. Aí vieram quatro para cima de mim.
Me jogaram no chão . Levei muita botinada na cara", afirmou Marcello Reis,
líder do Revoltados On-line. Ele estava com um olho roxo e apresentava
escoriações pelo corpo. A polícia lançou pelo menos cinco bombas de gás
lacrimogêneo para separar os grupos.
Segundo o capitão da PM Marco
Pimentel, duas pessoas foram conduzidas ao 23º DP (Perdizes), uma por ter
jogado spray de pimenta e a outra por agressão. "Não dá para
individualizar. As agressões e provocações vieram dos dois lados", disse.
Os manifestantes ligados ao PT
chegaram ao Fórum da Barra Funda em ônibus fretados e trouxeram carros de som.
Os sindicatos organizaram verdadeiras excursões ao local, com grande aparato
técnico e um volume considerável de manifestantes. Há pessoas de outros
Estados, como Bahia e Mato Grosso do Sul. Do outro lado, havia integrantes de
grupos intervencionistas e também de movimentos como Brasil Melhor, Nas Ruas e
Revoltados Online. Nenhum integrante do Brasil Livre compareceu e apenas um do
Vem pra Rua marcou presença no ato. Os dois são os principais movimentos que
convocaram um ato contra o governo no dia 13 de março.
O vereador petista de Nova
Andradina (MS), Vicente Lichoti, de 34 anos, chegou a São Paulo por volta das 8
horas ao lado de outras 47 pessoas. Ele veio numa carreata, que partiu na noite
de quarta-feira rumo à capital paulista, organizada por sindicatos de
profissionais da educação do Estado. "Estou aqui para defender o legado do
ex-presidente Lula. Ele é gente como a gente, e pode ser investigado. Mas o que
estão fazendo é uma perseguição contra ele", disse. Junto com os outros
militantes, eles cantavam o tradicional hino de apoio ao ex-presidente
"ole, ole, ole, Lula, Lula". Segundo deputados do PT que compareceram
ao fórum após encontro com Lula, o ex-presidente estava na sede do Instituto
Lula acompanhado de outros parlamentares que vieram a São Paulo prestar
solidariedade a ele.
O depoimento desta quarta se daria
no âmbito das investigações do MP paulista que apuram suspeitas de desvio de
recursos da Bancoop para o caixa do PT. Também estavam marcados para hoje à
tarde os depoimentos do engenheiro da OAS Igor Pontes e do ex-presidente da
empreiteira Léo Pinheiro: a construtora assumiu as obras no condomínio onde
fica o tríplex após a falência da Cooperativa Habitacional dos Bancários - e
fez modificações no apartamento para agradar os Lula da Silva. O zelador do
condomínio Solaris afirmou a VEJA que Pontos e Pinheiro acompanharam Marisa
Letícia em uma visita ao tríplex. "O seu Igor, da OAS, um dia pediu para a
gente falar que o apartamento não pertencia ao Lula. Eles sempre disseram para
a gente que o apartamento não era do Lula".
Os promotores investigam a quem de
fato pertence o tríplex de 297 metros quadrados, com vista para o mar. Em entrevista a VEJA, o
promotor Cásio Conserino disse que há "fortes elementos, provas
documentais e testemunhais" que mostram que o ex-presidente e a sua mulher
foram contemplados com o apartamento, reformado "cuidadosamente" pela
OAS. Com base nos indícios, o promotor pretende denunciar o casal por ocultação
de patrimônio, uma das modalidades do crime de lavagem de dinheiro. A OAS teria
se portado como "laranja" de Lula, passando-se por proprietária do
apartamento. "Lula e Marisa são, por enquanto, investigados. Eles foram
beneficiados pela relação com Léo Pinheiro, o presidente da empreiteira.
Enquanto centenas de mutuários da Bancoop ficaram sem os imóveis, Lula e dona Marisa
foram contemplados pela OAS com um apartamento luxuoso. Tudo numa operação
cuidadosamente arquitetada para ocultar essa triangulação", afirmou
Conserino à revista.
Pouco depois da reportagem de
VEJA, o Instituto Lula divulgou nota na qual nega que o ex-presidente fosse
dono do apartamento, mas admite que ele e a ex-primeira dama fizeram visitas ao
local. O texto diz que a família Lula avaliava comprar a unidade, mas desistiu
do negócio, "mesmo tendo sido realizadas reformas e modificações no imóvel
(que naturalmente seriam incorporadas ao valor final da compra)" por causa
de "notícias infundadas, boatos e ilações que romperam a privacidade
necessária ao uso familiar do apartamento". Os promotores fizeram três
questionamentos à nota do instituto. "Por que Lula e a mulher, Marisa
Letícia, demoraram seis anos para pedir a restituição dos valores pagos? Como a
família presidencial vai solicitar a restituição da Bancoop e não da OAS, e o
faz coincidentemente quando os fatos vieram à tona? Por que a OAS arcou com o
pagamento de uma reforma de quase 1 milhão de reais, sem um comprador
pré-reservado?".
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