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Sergio Moro:
'Excepcional é o grau de deterioração da coisa pública'
(Vanessa
Carvalho/Folhapress)
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Magistrado afirma que as suspeitas
de pagamentos ao marqueteiro no exterior representam a 'corrupção do sistema
político partidário' no Brasil
Ao autorizar a decretação das
prisões do marqueteiro do Partido dos Trabalhadores, João Santana, e da mulher
dele, Mônica Moura, o juiz federal Sergio Moro cita os repasses do operador Zwi
Skornicki e da construtora Oderecht ao casal. E classifica as suspeitas de que
o publicitário tenha recebido no exterior pagamentos por serviços prestados ao
PT como a representação da "corrupção do sistema político partidário"
brasileiro.
A força-tarefa da Lava Jato
identificou pagamentos que totalizam 4,5 milhões de dólares feitos por
Skornicki ao casal Santana por meio de contas no exterior entre setembro de
2013 e novembro de 2014, além de repasses no valor de 3 milhões de dólares da
Odebrecht entre abril de 2012 e março de 2013. "Na hipótese probatória
mais provável tais valores destinar-se-iam a remunerar os serviços de
publicidade prestados por João Santana e Mônica Regina ao Partido dos
Trabalhadores", afirma o magistrado. "O que é bastante grave, pois
também representa corrupção do sistema político partidário", continua.
Moro salienta que os pagamentos
não se tratam de questões esporádicas, mas sim de um esquema mantido por um
considerável período de tempo. O juiz chama atenção para as possíveis
consequências do ação no processo político democrático. "Há fundada
suspeita de que as transações supreptícias efetuadas em favor da conta
Shellbill por Zwi Skornick e em favor dela através das contas utilizadas pela
Odebrecht representem pagamentos de vantagens indevidas acertadas em contratos
da Petrobras, sendo oportuno lembrar que, segundo relato dos vários criminosos
colaboradores, havia divisão das propinas, parte sendo direcionada aos agentes
da Petrobras e parte aos agentes políticos ou aos partidos políticos que os
sustentavam", diz o magistrado.
Já ao autorizar a prisão de
Skornicki, o juiz lembra que os pagamentos do operador se estenderam até 2014,
quando a Lava Jato já havia sido deflagrada. "Em outras palavras, sequer o
início da investigação e sua ampla publicização impediram que Zwi Skornicki
persistisse pagando propinas durante todo o ano de 2014, a ilustrar a
necessidade da preventiva para interromper a prática delitiva."
Em seu despacho, Moro aproveita
para enviar recados às defesas dos empreiteiros e agentes públicos alvos da
Lava Jato: "Excepcional no presente caso não é a prisão cautelar, mas o
grau de deterioração da coisa pública revelada pelos processos na Operação Lava
Jato, com prejuízos já assumidos de cerca de seis bilhões de reais somente pela
Petrobrás e a possibilidade, segundo investigações em curso no Supremo Tribunal
Federal, de que os desvios tenham sido utilizados para pagamento de propina a
dezenas de parlamentares, comprometendo a própria qualidade de nossa
democracia". E prossegue: "Agregue-se que, na assim denominada
Operação Lava Jato, identificados elementos probatórios que apontam para um
quadro de corrupção sistêmica, nos quais ajustes fraudulentos para obtenção de
contratos públicos e o pagamento de propinas a agentes públicos, a agentes
políticos e a partidos políticos, bem como o recebimento delas por estes,
passaram a ser pagas como rotina e encaradas pelos participantes como a regra
do jogo, algo natural e não anormal".
"Embora as prisões cautelares
decretadas no âmbito da Lava Jato recebam pontualmente críticas, o fato é que,
se a corrupção é sistêmica e profunda, impõe-se a prisão preventiva para
debelá-la, sob pena de agravamento progressivo do quadro criminoso. Se os
custos do enfrentamento hoje são grandes, certamente serão maiores no futuro. O
país já paga, atualmente, um preço elevado, com várias autoridades públicos
denunciadas ou investigadas em esquemas de corrupção, minando a confiança na regra
da lei e na democracia", afirma Moro.

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