E-mails revelam como Odebrecht
planejava usar a influência de Lula para obter contratos na América do Sul
Nas mensagens, os executivos
chegam a sugerir o que o petista deveria dizer nos encontros com outros chefes
de Estado do continente.
Ex-presidente da maior construtora
do país, o empreiteiro Marcelo Odebrecht era o principal responsável pela
estratégia adotada pela empreiteira para abocanhar contratos bilionários de
construção de navios-sonda na Petrobras. É o que revela um novo conjunto de
e-mails disponibilizado pelos investigadores da Operação Lava Jato em um dos
inquéritos que a empreiteira responde por envolvimento no maior escândalo de
corrupção da história do país. Nas conversas de Odebrecht com os executivos da
empreiteira, o que se vê são acertos em torno de contratos da Petrobras e
planos de usar a influência de políticos importantes da República para alcançar
os objetivos da empresa. Um dos nomes mais citados nas conversas dos executivos
é o do ex-presidente Lula. O papel de líder da empreiteira nas negociatas do
petrolão é um dos principais elementos usados pela Justiça para manter Marcelo
Odebrecht preso em Curitiba. O novo conjunto de mensagens pode atrapalhar os
planos do empreiteiro de conseguir a liberdade por meio de um habeas-corpus que
deverá ser julgado nesta terça-feira pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Em uma das mensagens, de 2008, os
executivos falam de um encontro entre Lula e o então presidente do Peru, Alan
Garcia, e questionam a possibilidade de incluir assuntos de interesse da
construtora na visita. O executivo Roberto Ramos, da Braskem, escreve para o
executivo Rogério Araújo, da Odebrecht: "Só para sua informação. O ideal
era voltar ao assunto depois do Carnaval e ver se conseguimos combinar com
nosso amigo Nestor (Cerveró) estar em condições de assinar o protocolo durante
a visita do Lula!". Há troca de e-mail entre Rogério Ramos e Cerveró,
perguntando sobre a estratégia a ser adotada. Cerveró responde: "Este
assunto já foi acertado com o Cesar Gutierrez (presidente da Petroperu) na
minha reunião da última semana, quando estive em Lima. Acho boa a ideia e vamos
andar rápido com o assunto". Em seguida, há e-mail do próprio Marcelo
Odebrecht para os executivos Rogério Araújo e Márcio Faria: "Ótimo. Estes
eventos com Lula são bons, pois criam um deadline".
Nos e-mails, os executivos
demonstram ter plena influência sobre as ações de Lula nos encontros com outros
chefes de Estado. Eles chegam a sugerir o que Lula deveria fazer ou dizer aos
presidentes. Ainda em 2008, os executivos acertam os termos de um texto que
deveria ser entregue para leitura do ex-presidente Lula durante viagem à
Argentina. Marcelo Odebrecht ironiza: "Roberto. Um terço de página apenas
ou o cara não lê". Há também mensagens trocadas entre os executivos da
empresa e Marcelo Odebrecht abordando viagem de Lula à Argentina. "Pela
dimensão e importância dos projetos atualmente em execução e em estudo pela Odebrecht
na Argentina, havendo oportunidade, seria importante que o presidente Lula
pudesse reforçar, junto à presidente Cristina, a confiança que tem na
Odebrecht". E há ainda referência a viagem à Bolívia: "Sugere-se ao
presidente Lula comentar com o presidente Evo Morales sua satisfação em relação
a boa evolução do projeto". Várias trocas de e-mails mostram uma postura
agressiva nos negócios por parte da Odebrecht, especialmente quando o assunto é
a construção de sondas para a Petrobras. Em uma mensagem de 2011, Marcelo
recebe de um dos executivos instruções sobre a construção de sondas para a
estatal: "A divisão das 21 Sondas, caso ocorra a contratação, deverá ser a
seguinte: 6 p/ nosso Consórcio + 6 Alusa Galvão + 6 Jurong".
Outro lado - O site de
VEJA entrou em contato com a Odebrecht, que enviou o seguinte comunicado:
"A Construtora Norberto
Odebrecht (CNO) lamenta que se repita o expediente do vazamento de mensagens
descontextualizadas de ex-executivos da empresa sempre que se avizinha alguma
decisão judicial envolvendo sua liberdade, como forma de pressionar e evitar a
livre expressão de julgamento de magistrados.
As mensagens citadas expressam
fatos absolutamente normais. Como no caso de contatos entre duas partes que
mantêm conversas no sentido de emitir um posicionamento público. Ou do
fornecimento de informações e subsídios para viagens oficiais para países onde
as empresas brasileiras mantêm operações comerciais, como acontece na
diplomacia de todas as nações do mundo. Finalmente, tenta-se promover uma
leitura maliciosa de mensagens em que o ex-presidente da holding Odebrecht se
mantém informado sobre investimentos do acionista (o que era parte de suas
atribuições) em projetos que envolvem mais de uma empresa do Grupo, dando a
entender que ele teria alguma ingerência sobre a autonomia da direção de cada
uma das empresas. Previsões de mercado também são propositalmente confundidas
com informações privilegiadas.
A CNO tem confiança de que
magistrados não se deixarão influenciar pelo vazamento de véspera, malicioso,
sobre comentários e mensagens que sequer constam do processo em questão."

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