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O arquiteto
B.R., 29 anos, trata dependência em tecnologia
desde 2014 (Foto: Rodrigo Gorosito/G1)
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Para especialistas, dependência dá
o mesmo prazer que álcool e drogas. Vício em tecnologia é 'primo' de
transtornos como cleptomania e piromania.
Um estudo da Flurry, consultoria
do Yahoo, apontou que há 280 milhões de “viciados” em aplicativos
para celular no mundo. O termo é um exagero empregado para dar mais vida a um
hábito puramente digital. Muitos brasileiros, 10% do total de internautas
segundo especialistas do Hospital das Clínicas (SP), já sofrem de um vício nada
virtual: é a dependência de tecnologia, que faz suas vítimas passarem até 12
horas conectadas e, quando estão off-line, tremerem, suarem, terem taquicardia
e, em casos extremos, chegarem até a tentar suicídio. O G1 conversou
com alguns deles e especialistas na área.
“Eu fui tendo vários ataques de
pânico em diversos momentos: dormindo, dirigindo, pilotando moto e até
mergulhando, cara”, diz o despachante M.A*, de 42 anos, que passou dez anos se
tratando esporadicamente com ansiolíticos (drogas para avaliar a tensão) até
descobrir, em dezembro do ano passado, que um dos gatilhos para os ataques era
a ansiedade por não estar conectado. “Eu vi que um dos grandes vetores da minha
ansiedade era a tecnologia.”
Confundem dependência com tempo de
conexão. Não é o tempo que passa conectado, mas a perda de controle sobre
tecnologia que define um dependente”
Eduardo Guedes, pesquisador e
diretor do Instituto Delete, da UFRJ
Ele teve contato com a tecnologia
aos 16 anos, na década de 80. A partir daí, novidades já aposentadas, como o Orkut, e outras em atividade, como o Instagram, entravam em sua vida assim
que lançadas e logo se tornavam um vício.
“As pessoas confundem dependência
com tempo de conexão. Não é o tempo que você passa conectado, mas o nível de
perda de controle sobre a tecnologia que define um dependente”, explica Eduardo
Guedes, pesquisador e diretor do Instituto Delete, organização que trata
dependentes em tecnologia e é da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Eu ficava depois do expediente
para usar a internet. Já fiquei preso no escritório por causa disso”, disse.
Apaixonado por fotos, M.A. possui uma conta no Instagram com mais de 2,5 mil
publicações, média de mais de três imagens por dia. A fissura era tanta que
quando viajava para seu sítio, passava até três horas editando fotos. Como o
lugar está fora da área de cobertura da rede de celular, M.A. abandonava a
esposa e caminhava até o alto de um morro para conseguir conexão e publicar as
imagens.
“A pessoa não percebe que a
necessidade de estar conectado é cada vez maior e, para obter o mesmo prazer,
ela tem que usar cada vez mais. É como se fosse uma droga”, explica a psicóloga
Sylvia von Enck, do núcleo de dependência tecnológica do Hospital das Clínicas.
“Na medida em que a pessoa não consegue controlar esses impulsos na busca do
prazer, ela vai aumentando esses estímulos.”
Por isso, explica, a dependência
tecnológica é considerada um dos transtornos do controle dos impulsos, assim
como a cleptomania (furtar compulsivamente), piromania (prazer em atear fogo) e
tricotilomania (arrancar os cabelos).
Falta de controle com apps e
games
Para M.A., a falta de controle também se estendia a apps e games. Tanto que ele já baixou mais de 340 programas para celular e as batalhas de “Call of Duty: Black Ops II” durante a madrugada eram o terror das noites da esposa. “Eu dizia a ela: ‘Você prefere que eu fique bebendo no bar?’” Se trocasse o joystick pelo copo, daria no mesmo. O alcoolismo, assim como o vício em outras drogas, e a dependência tecnológica produzem efeitos semelhantes de satisfação no cérebro, explica Guedes.
Para M.A., a falta de controle também se estendia a apps e games. Tanto que ele já baixou mais de 340 programas para celular e as batalhas de “Call of Duty: Black Ops II” durante a madrugada eram o terror das noites da esposa. “Eu dizia a ela: ‘Você prefere que eu fique bebendo no bar?’” Se trocasse o joystick pelo copo, daria no mesmo. O alcoolismo, assim como o vício em outras drogas, e a dependência tecnológica produzem efeitos semelhantes de satisfação no cérebro, explica Guedes.
“No caso de uma substância
química, existem elementos que interferem no funcionamento neurológico. Mas, no
caso da internet, a pessoa libera hormônios que geram prazer e, com isso, fica
de alguma forma aliviada quando passa muito tempo conectada, jogando ou em
alguma atividade que a retire de um momento de desprazer, angústia e depressão”,
diz van Enck.
Sem internet = abstinência
A psicóloga diz que a privação da internet funciona como uma abstinência forçada e pode gerar violência. “Nós já atendemos alguns casos de pais que foram buscar ajuda porque o ponto máximo que o filho, de 15 anos, chegou, depois de ter jogado objetos pela janela do apartamento, foi ameaçar se jogar. Em outro caso, um garoto de 17 anos pegou uma faca e tentou machucar a mãe.”
Sem ter protagonizado casos de violência, M.A. conviveu com o vício sem saber durante dez anos e só passou a se tratar no Instituto Delete após ser aconselhado por um amigo. Já o arquiteto B.R., de 29 anos procurou “o centro sem ter ideia do que estava acontecendo” em 2014, logo após ter uma crise de ansiedade enquanto assistia TV com a família.
A psicóloga diz que a privação da internet funciona como uma abstinência forçada e pode gerar violência. “Nós já atendemos alguns casos de pais que foram buscar ajuda porque o ponto máximo que o filho, de 15 anos, chegou, depois de ter jogado objetos pela janela do apartamento, foi ameaçar se jogar. Em outro caso, um garoto de 17 anos pegou uma faca e tentou machucar a mãe.”
Sem ter protagonizado casos de violência, M.A. conviveu com o vício sem saber durante dez anos e só passou a se tratar no Instituto Delete após ser aconselhado por um amigo. Já o arquiteto B.R., de 29 anos procurou “o centro sem ter ideia do que estava acontecendo” em 2014, logo após ter uma crise de ansiedade enquanto assistia TV com a família.
Lidando com o transtorno
Sem desgrudar do celular ou do PC, ele estava sempre à espera de informações sobre trabalho e alerta ao menor sinal de notificações de aplicativos. “Se o smartphone vibrava, eu já estava olhando.” Depois de passarem pelo instituto, tanto M.A. quanto B.R. dizem conseguir lidar com o transtorno. O arquiteto brinca dizendo que virou “copsicólogo” dos amigos e já até indicou o tratamento a dois conhecidos.
Sem desgrudar do celular ou do PC, ele estava sempre à espera de informações sobre trabalho e alerta ao menor sinal de notificações de aplicativos. “Se o smartphone vibrava, eu já estava olhando.” Depois de passarem pelo instituto, tanto M.A. quanto B.R. dizem conseguir lidar com o transtorno. O arquiteto brinca dizendo que virou “copsicólogo” dos amigos e já até indicou o tratamento a dois conhecidos.
A psicóloga do HC diz, no entanto,
que os pacientes nessa condição sempre terão de ficar alertas. “É uma ‘alta’”,
afirma, dita assim mesmo entre aspas, pois “às vezes, acontecem situações em
que a pessoa acaba reincidindo, volta a apresentar os comportamentos
compulsivos.”
*Os nomes dos dependentes em
tecnologia foram suprimidos pela reportagem a pedido deles para
preservar a privacidade dos entrevistados.
Fonte: G1

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