
A rejeição ao adversário tem desempenhado um papel mais importante na mobilização política das redes sociais do que a defesa dos próprios candidatos. A avaliação é de Renato Dolci, cientista político e diretor da Dados Timeless, que identifica nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro um engajamento organizado principalmente em torno de ideias e instituições que seus apoiadores rejeitam.
Em entrevista ao programa de política do InfoMoney, Dolci afirmou que o monitoramento das discussões digitais mostra diferenças entre os assuntos que mobilizam as comunidades de esquerda e de direita. Em ambos os campos, porém, o confronto com o adversário aparece como um elemento central para manter o fluxo de postagens e discussões diárias.
A força da oposição digital
Segundo o analista, temas relacionados à liberdade de expressão e ao fascismo estão entre os principais fatores de mobilização dos grupos identificados com a esquerda. Na direita, a atuação do Supremo Tribunal Federal teve forte destaque durante o primeiro turno, funcionando como aglutinador de discursos.
Para o especialista, esse comportamento ajuda a explicar por que a disputa se mantém intensa nas redes, mesmo quando as campanhas não apresentam novidades relevantes em suas propostas oficiais. O engajamento não depende apenas da identificação positiva com um projeto político, mas também do receio em relação ao oponente.
Essa dinâmica consolida bolhas digitais que compartilham conteúdos com rapidez. No entanto, os especialistas lembram que o volume de publicações e a quantidade de interações nem sempre refletem o comportamento de toda a população nas urnas.
Volume não significa novos votos
A diferença entre mobilização digital e intenção de voto é uma das principais ressalvas levantadas pelos especialistas. Durante o segundo turno, o monitoramento registrou variações expressivas na presença das duas campanhas nas plataformas, com momentos de vantagem para diferentes lados em termos de volume de menções e compartilhamentos.
Esse crescimento na atividade online, contudo, não garante que os candidatos tenham conquistado uma parcela expressiva de novos eleitores fora de suas bases tradicionais. A maior parte das conversas continua concentrada em usuários que já possuem posição política definida.
O grande desafio das equipes de campanha na reta final continua sendo furar a bolha digital. Alcançar o eleitor indeciso que não participa ativamente das discussões na internet permanece como o fator decisivo para o desfecho da disputa presidencial.
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