Custo social das reformas de Milei abala popularidade na Argentina | Rio das Ostras Jornal

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Custo social das reformas de Milei abala popularidade na Argentina

Custo social das reformas de Milei abala popularidade na Argentina
Charly Triballeau / AFP

Buenos Aires, Argentina – As radicais reformas econômicas implementadas pelo presidente Javier Milei na Argentina, embora tenham resultado em uma notável recuperação macroeconômica, começam a cobrar um alto preço social, impactando diretamente sua popularidade. Desde sua posse no final de 2023, Milei adotou uma política de corte de gastos agressiva, buscando reverter a crise econômica herdada de governos peronistas.

Os resultados iniciais foram expressivos: a inflação anual despencou de 161% para 33%, o país registrou o primeiro superávit fiscal em mais de uma década e as reservas cambiais superaram a meta do FMI, atingindo 50 bilhões de dólares. No entanto, essa estabilização veio acompanhada de um processo de empobrecimento da base da pirâmide social, com salários defasados e aumento da pobreza, gerando um cenário de crescente insatisfação popular.

O Dilema Econômico: Ajuste Fiscal e Empobrecimento Social

Apesar dos números positivos na macroeconomia, a realidade para as famílias argentinas é desafiadora. Os salários não acompanharam o custo de vida, estando hoje mais baixos do que há três anos, com uma perda de poder de compra estimada em 40%. A interdição dos cofres públicos, que reduziu o consumo das famílias, também provocou uma retração de 3% na produção industrial, o pior desempenho desde a pandemia.

Essa conjuntura levou o banco J.P. Morgan a revisar para baixo a projeção de crescimento para este ano, de 5% para 1,5%, com a expectativa de uma recessão já no terceiro trimestre. O economista Martín Kanenguiser, autor de A Argentina e o Fundo, observa que “os saltos econômicos não chegaram às famílias de forma tangível”. Além disso, escândalos de corrupção recentes, que culminaram na renúncia do chefe de gabinete da Presidência, contribuíram para a explosão das taxas de rejeição de Milei, que atingiram 64%, o patamar mais alto de seu mandato.

Estratégias Políticas e a Questão das Malvinas

Com as eleições de 2027 se aproximando, Milei, que se autodenomina “anarcocapitalista”, enfrenta um cenário político cada vez mais apertado. Pesquisas de intenção de voto o mostram empatado com Axel Kicillof, o popular governador de Buenos Aires e provável representante do peronismo. Diante da queda de popularidade, o presidente tem recorrido a estratégias que remetem a um passado político, como a reiteração da reivindicação argentina sobre as Ilhas Malvinas, território dominado pelo Reino Unido.

Em um discurso na Assembleia-Geral da ONU e em anúncios subsequentes, Milei elevou o tom, ameaçando acionar o Tribunal Internacional do Direito do Mar caso Londres não interrompa a “exploração ilegítima” de petróleo nas proximidades do arquipélago. Ele também anunciou a construção de uma nova base naval em Ushuaia para ampliar a presença militar na região. Segundo Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, essa é uma “estratégia clássica do inimigo externo, para unir em torno de si até mesmo quem não for seu eleitor tradicional”.

Desafios Sociais e a Busca por Investimentos

A cortina de fumaça política em torno das Malvinas surge em meio à divulgação de alarmantes indicadores do Indec, o instituto nacional de estatísticas. Após três semestres de queda, a pobreza voltou a subir para 32%, o que significa que, em apenas seis meses, 2 milhões de pessoas cruzaram a linha de não conseguir cobrir gastos essenciais. Mais de 30 mil empresas fecharam as portas na gestão Milei, resultando na perda de 410 mil postos formais de trabalho, um quadro particularmente preocupante na indústria.

Apesar da desconfortável realidade, Milei mantém sua postura, afirmando que “para amadurecermos, esses capitalistas de compadrio precisam falir”. A aposta do governo para reverter o quadro social é a de que a disciplina fiscal e a redução da burocracia atrairão uma onda de investimentos. No entanto, iniciativas como a proposta de extinguir regras que limitavam a propriedade estrangeira a 15% do território, visando a venda de vastas áreas da Patagônia, enfrentaram forte resistência popular e foram recuadas.

Reformas Institucionais e o Cenário Internacional

Outras reformas menos heterodoxas, como a que visa garantir a independência do Banco Central, seguem em pauta. O projeto pretende proibir o financiamento do Tesouro pela impressão desenfreada de dinheiro e blindar a diretoria da instituição de arbitrariedades do Poder Executivo, exigindo a anuência de dois terços do Congresso para demissões. Esse esforço é visto como necessário para combater a desconfiança internacional em relação à economia argentina.

Bruno Binotti, do think tank Chatham House, aponta que “ainda há relutância em alocar capital no país diante do possível retorno do peronismo”. Em meio a esse cenário, o governo de Milei tem intensificado a retórica contra adversários políticos, enquanto busca apoio internacional. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, um aliado de Milei, sinalizou apoio à Argentina, inclusive na questão das Malvinas, e prometeu colaborar no combate ao narcotráfico. Em troca, a Argentina adquiriu 24 caças F-16 dos Estados Unidos por 300 milhões de dólares. A milonga de Milei, pautada pela austeridade, encontra resistência crescente, e a dúvida para 2027 é se o presidente será chamado para o bis.

O Rio das Ostras Jornal acompanha o caso.

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