
A avaliação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
após o primeiro turno das eleições presidenciais abriu espaço para uma cobrança
que ultrapassou a oposição: aliados do próprio presidente passaram a questionar
o espaço ocupado pela primeira-dama Janja na estratégia eleitoral.
Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta
quinta-feira (8) mostra que dirigentes petistas e integrantes da campanha
discutem mudanças para o segundo turno, incluindo uma redução da exposição de
Janja e maior participação do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). A
discussão ganhou força depois de Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio
Bolsonaro (PL).
O episódio mais explícito ocorreu durante uma reunião de
coordenadores da campanha. A ex-senadora Kátia Abreu, integrante da campanha
petista no Tocantins, defendeu uma mudança de equilíbrio na exposição dos
principais nomes e resumiu sua posição com a frase “menos Janja e mais
Alckmin”. A declaração foi aplaudida pelos participantes, segundo relatos
publicados pela imprensa. Kátia posteriormente confirmou a fala e afirmou que
sua crítica era relacionada à estratégia eleitoral, e não uma questão pessoal
contra a primeira-dama.
O protagonismo de Janja já vinha sendo questionado
O desconforto não começou depois do resultado das urnas. Em
reportagem publicada em 29 de setembro, a Folha havia relatado que Janja vinha
ganhando espaço nos palanques, na propaganda eleitoral e na definição da agenda
de eventos da campanha. Aliados também relatavam dificuldade de acesso reservado
ao presidente e preocupação com a exposição da primeira-dama. A assessoria de
Janja, entretanto, afirmou que ela participa da campanha desde o início e que
sua atuação é validada pelo próprio Lula.
Um dos episódios que aumentaram a exposição de Janja ocorreu
em 29 de setembro, durante um ato de campanha em Salvador. Após uma
controvérsia envolvendo uma fala de Lula sobre exames de saúde e críticas
feitas pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), a primeira-dama chamou o
parlamentar de “piá de bosta”. O episódio ganhou repercussão nas redes sociais
e voltou a ser lembrado nas avaliações internas da campanha.
Nikolas respondeu posteriormente nas redes sociais com a
frase “Nunca subestime um piá”, depois de ser reeleito deputado federal por
Minas Gerais com mais de 3,1 milhões de votos, segundo o UOL.
A discussão sobre Janja ocorre ao mesmo tempo em que a
própria campanha de Lula passa por uma revisão. O presidente criticou
publicamente a organização do primeiro turno, classificando-a como a campanha
“menos organizada” desde 1989, segundo relato do UOL. Entre as mudanças
discutidas está uma maior participação de Alckmin e de outros articuladores
políticos, além de uma reformulação da comunicação digital.
Não é possível atribuir individualmente a Janja o resultado
eleitoral de Lula no primeiro turno. O desempenho de uma candidatura envolve
uma combinação de fatores políticos, econômicos, regionais, estratégicos e de
comunicação.
Mas a própria existência de críticas vindas de dentro da
campanha mostra que o papel da primeira-dama se transformou em um dos temas da
reorganização petista para a segunda etapa da eleição.
E fica a pergunta que atravessa o debate interno do PT: a maior exposição de Janja ajuda ou atrapalha
a estratégia de Lula para o segundo turno?
A resposta será dada não apenas pelos dirigentes da
campanha, mas também pela reação dos eleitores nas urnas em 25 de outubro.
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