Prefeitura anuncia adiamento para 15 de novembro após semanas de preparação; decisão levanta questionamentos sobre planejamento, previsão meteorológica e participação popular
A Prefeitura de Rio das Ostras decidiu adiar o Desfile
Cívico de 7 de Setembro, que estava marcado para esta segunda-feira, na Avenida
Amazonas. A nova data anunciada pelo prefeito Carlos Augusto é 15 de novembro.
Segundo o prefeito, a decisão foi tomada depois do
acompanhamento das previsões meteorológicas e das atualizações do CEMADEN e do
INMET, que indicariam chuva persistente durante a noite, madrugada e manhã,
além da queda de temperatura.
A justificativa oficial é compreensível quando se trata da
segurança de crianças, estudantes, professores, servidores e do público. Mas
uma pergunta precisa ser feita — e não pode ser tratada como falta de respeito
à administração municipal:
Por que uma decisão dessa dimensão só foi tomada na
véspera do desfile, depois de mais de três meses de preparação?
O próprio prefeito afirmou que servidores e equipes estavam
trabalhando havia mais de três meses para preparar o evento. A Prefeitura
também havia anunciado, no início da semana, a participação de aproximadamente
50 unidades escolares, instituições militares, sociedade civil e servidores
municipais.
Portanto, não estamos falando de um pequeno evento que
poderia simplesmente ser desmontado.
Estamos falando de crianças, adolescentes, professores,
bandas, servidores, famílias e instituições que se prepararam durante semanas
para um momento que, para muitos, seria histórico: o retorno do desfile depois
de anos de ausência.
A previsão não chegou de última hora
É justamente aqui que começa a discussão.
A chuva não aparece no radar meteorológico apenas algumas
horas antes. Hoje existem diferentes ferramentas de previsão, além dos
acompanhamentos do INMET, CEMADEN e Defesa Civil.
Isso não significa que uma previsão feita vários dias antes
seja infalível. O tempo pode mudar.
Mas significa que planejamento
também é acompanhar a evolução da previsão e estabelecer previamente critérios
objetivos para decidir se um evento desse porte será realizado ou adiado.
A pergunta, portanto, não é simplesmente se deveria ou não
chover.
A pergunta é:
Quando a Prefeitura percebeu que existia risco concreto para
a realização do desfile?
E, se esse risco já vinha sendo acompanhado, por que a decisão não foi comunicada
anteriormente?
Quem paga a conta do adiamento?
O prefeito afirmou que sabe do tamanho do trabalho realizado
por servidores, professores e escolas e agradeceu a todos que participaram da
preparação.
Mas existe outro lado que precisa ser considerado: o
planejamento também envolve dinheiro público, logística, equipamentos,
estrutura, trânsito, segurança, saúde, transporte e mobilização de servidores.
Se toda essa estrutura estava sendo preparada, quanto já
havia sido gasto ou empenhado até o momento do adiamento?
Quanto custará desmontar, remarcar e montar novamente toda a
estrutura para 15 de novembro?
E quem fará essa conta para a população?
Não estamos afirmando que o adiamento causará desperdício. Estamos perguntando.
Porque transparência também significa explicar quanto uma
decisão pública custa ao contribuinte.
E as crianças?
Existe ainda uma questão que não pode ser colocada em
segundo plano.
O prefeito falou — corretamente — sobre a expectativa das
crianças e das famílias.
Mas essa mesma expectativa deveria ter sido considerada no
planejamento.
Crianças e jovens ensaiaram. Professores se prepararam.
Bandas ensaiaram. Famílias organizaram suas agendas. Servidores trabalharam
durante meses.
O adiamento não representa apenas uma mudança de data no
calendário.
Para quem estava esperando esse momento, representa
frustração, ansiedade e a necessidade de reorganizar toda uma programação.
E, se o evento estava sendo preparado havia mais de três
meses, é legítimo perguntar se um plano
B meteorológico não poderia ter sido estabelecido anteriormente.
E há um detalhe que não pode ser ignorado
O 7 de Setembro não é apenas uma data de desfile.
É também uma data histórica de manifestação popular.
O Grito dos
Excluídos e Excluídas, que surgiu no Brasil na década de 1990, mantém em
2026 sua mobilização durante a Semana da Pátria e especialmente no dia 7 de
setembro.
E Rio das Ostras conhece essa história.
Há 14 anos, o Rio das Ostras Jornal registrou outro 7 de
Setembro
Em 2012, o Rio das Ostras Jornal publicou uma reportagem
sobre o Grito dos Excluídos durante o
desfile de 7 de Setembro.
Naquela ocasião, manifestantes cobravam melhorias em áreas
básicas da cidade: água nas residências, educação, saúde, tratamento de esgoto,
calçamento, iluminação, ciclovias e programas esportivos.
Cartazes denunciavam problemas nos bairros e cobravam mais
investimentos públicos.
O registro histórico mostra que, naquele 7 de Setembro,
enquanto o desfile acontecia, havia também uma população utilizando o espaço
público para fazer suas reivindicações.
Era a cidade falando.
Quatorze anos depois, muita coisa mudou.
Mas algumas perguntas continuam atuais.
Como está a infraestrutura dos bairros?
Como estão as calçadas?
Como está a mobilidade urbana?
Como está a acessibilidade?
Como estão os serviços públicos?
E a população continua tendo espaço para falar?
Coincidência ou uma pergunta que precisa ser respondida?
Antes do adiamento do desfile, havia mobilização de
moradores e servidores nas redes sociais para manifestações durante o 7 de
Setembro, segundo relatos que circulavam entre participantes.
Também havia a mobilização nacional do Grito dos Excluídos,
cuja programação de 2026 concentra atividades justamente na Semana da Pátria e
no dia 7 de setembro.
Diante disso, uma pergunta passou a circular entre
moradores:
O adiamento foi exclusivamente motivado pelas condições
meteorológicas ou a Prefeitura também considerou o cenário de manifestações que
poderia ocorrer durante o desfile?
É importante deixar claro: não há, até o momento, informação oficial que permita afirmar que os
protestos tenham motivado o adiamento.
Por isso mesmo, a pergunta precisa ser dirigida ao Poder
Público.
A Prefeitura pode esclarecer publicamente quais foram os
critérios utilizados para tomar a decisão?
Pode apresentar os alertas meteorológicos considerados?
Pode informar quando recebeu essas informações?
Pode explicar por que a decisão foi tomada apenas na
véspera?
Pode apresentar os custos já realizados e os custos
adicionais decorrentes da mudança?
E pode garantir que o espaço destinado à manifestação
popular continuará sendo respeitado na nova data?
O desfile foi adiado. O direito de perguntar, não.
O prefeito afirmou que “o sonho não foi cancelado. Apenas
mudou de data”.
Tudo bem.
O desfile agora está marcado para 15 de novembro.
Mas, enquanto aguardamos a nova data, existe outro
compromisso que não pode ser adiado:
o compromisso com a transparência.
Porque uma cidade democrática não é aquela onde só o governo
fala.
É aquela onde a população também pode perguntar.
E talvez essa seja a principal lição que Rio das Ostras pode
tirar do próprio 7 de Setembro de 2012:
A cidade desfila, mas o povo também fala.
E, quando o povo pergunta, o poder público precisa
responder.
Rio das Ostras
Jornal continuará fazendo a sua parte: informar, perguntar e dar voz à
população.
Leia também:
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dos Excluídos marca presença no desfile cívico de 7 de Setembro em Rio das
Ostras

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