
Veneza, Itália – O Pavilhão do Brasil nos Giardini da Bienal de Veneza está em destaque com a exposição inédita “Comigo ninguém pode”. A mostra reúne as aclamadas artistas Adriana Varejão e Rosana Paulino, sob a curadoria de Diane Lima, em um projeto que redefine a interação entre arte e arquitetura.
Concebida para a 61ª Exposição Internacional de Arte, a colaboração marca a primeira vez que Varejão e Paulino, nascidas com apenas três anos de diferença, trabalham juntas. A exposição explora as profundas marcas da colonização brasileira, utilizando a ambiguidade da planta Dieffenbachia, popularmente conhecida como “comigo-ninguém-pode”, como metáfora central para proteção e veneno.
Arte e Arquitetura em Diálogo Profundo
A arquitetura modernista do Pavilhão do Brasil, recém-recuperada, não é apenas um recipiente, mas parte integrante da obra. A expografia, assinada por Daniela Thomas em diálogo com as artistas e a curadoria, transforma o edifício. As obras escapam das posições convencionais, ocupando paredes e teto, avançando sobre a estrutura e exigindo um olhar atento dos visitantes.
Em momentos específicos, a autoria se dissolve, e é preciso uma observação mais próxima para discernir onde uma obra termina e a outra começa. Essa fusão é intensificada pela localização privilegiada do pavilhão nos Giardini della Biennale, um parque que concentra as representações nacionais mais históricas e edifícios emblemáticos do evento.
Reflexões sobre a Colonização e a Identidade Brasileira
Adriana Varejão e Rosana Paulino, duas das trajetórias mais importantes da arte contemporânea brasileira, investigam as marcas da colonização por caminhos distintos. Varejão, em sua obra Still Life amid Ruin, criada para Veneza, utiliza relevos e murais que parecem romper a superfície arquitetônica, revelando interiores que remetem a carne, feridas ou matéria orgânica. A beleza superficial convive com a violência subjacente.
Paulino aborda a mesma história sob outra perspectiva. Em Aracnes (1999-2026), fotografias de mulheres negras são dispostas sobre uma parede de concreto. Trabalhos como Ninfa tecendo o casulo resgatam a figura feminina como produtora de continuidade, com imagens ligadas à transformação, sutura e permanência diante da violência histórica. O diálogo entre as artistas se aprofunda em obras como Atlântico Vermelho (2026), de Paulino, que encontra correspondência nos relevos de Varejão, fazendo com que as peças respondam umas às outras no mesmo espaço.
A Experiência do Visitante e o Poder da Contradição
Ao percorrer o pavilhão, os visitantes são convidados a uma imersão que desafia os limites da percepção. Superfícies que se rompem, obras que atravessam o esperado e elementos da natureza que surgem e desaparecem exigem aproximação e atenção aos detalhes. Muitos ajustam os óculos para observar as nuances do trabalho de Varejão, um convite à contemplação em meio à vasta oferta da Bienal.
A metáfora da planta “comigo-ninguém-pode” se revela em sua plenitude na saída da exposição. Assim como a planta que protege, mas carrega veneno, o Pavilhão do Brasil apresenta um país marcado por belezas e violências históricas, feridas e reconstruções, sobrevivência e transformação. O Rio das Ostras Jornal destaca a importância dessa representação cultural do Brasil no cenário internacional, reforçando a relevância da arte para a reflexão social. Para mais informações sobre a Bienal, visite a Fundação Bienal de São Paulo.
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