
O cenário dos e-sports deixou de ser exclusivo de empresas de tecnologia e games, atraindo grandes marcas de diversos segmentos que buscam se conectar com um público engajado. No entanto, a simples exposição de um logotipo não garante sucesso; a autenticidade e a compreensão da comunidade gamer são cruciais para um patrocínio eficaz e duradouro.
A ascensão dos jogos eletrônicos como fenômeno cultural e esportivo transformou o ambiente em um campo fértil para investimentos em Rio das Ostras, Macaé e em toda a Região dos Lagos. Contudo, a comunidade gamer, conhecida por sua percepção aguçada, rapidamente identifica quando uma marca tenta se inserir sem um entendimento genuíno de sua cultura, linguagem e referências, o que pode comprometer o retorno do investimento.
A autenticidade como chave para a aceitação
Existe uma percepção equivocada de que o público gamer rejeita a presença de marcas ou publicidade em seus espaços. Na verdade, o problema não reside na existência de um patrocinador, mas na autenticidade da relação estabelecida. Um estudo publicado na Brazilian Administration Review analisou a fundo a relação de fãs brasileiros de League of Legends com os patrocinadores do campeonato nacional.
Os resultados foram claros: a percepção de autenticidade da marca influencia diretamente o valor que os fãs atribuem a ela e, consequentemente, sua intenção de compra. Isso demonstra que o retorno existe, mas a maneira como a marca se posiciona é determinante. Para quem acompanha um campeonato por meses, a diferença entre uma empresa que realmente compreendeu a comunidade e outra que apenas comprou tempo de tela é facilmente perceptível.
Além da visibilidade: a importância de entender o universo gamer
Uma marca pode ter seu logo exibido na abertura, nos intervalos, nas redes sociais e até nomear um quadro da transmissão. Embora isso garanta exposição, não é suficiente para criar uma identificação verdadeira. Antes de mergulhar nos e-sports, qualquer empresa precisa compreender o terreno onde está pisando.
É fundamental questionar: qual é o jogo em questão? Quem forma essa comunidade? Como ela se comunica? Quais são seus ídolos e suas brincadeiras? E, talvez o mais importante, o que a presença daquela marca oferece de valor ao público? Há também o risco de tentar parecer “gamer demais”. Não é preciso encher uma campanha de gírias e memes para provar conhecimento. Quando isso não se alinha à identidade da marca, a tentativa pode soar artificial. Autenticidade também significa saber quem você é.
Marcas não endêmicas: como Red Bull e Gillette conquistam o público
As chamadas marcas não endêmicas, que não têm uma relação direta com produtos de games, também encontram um vasto campo nos e-sports. Empresas de bebidas, alimentos ou serviços financeiros, por exemplo, não vendem teclados ou placas de vídeo, mas possuem pontos de contato com esse público. A Red Bull é um excelente exemplo de marca não endêmica que foi além da simples exposição.
A empresa criou o Red Bull Solo Q, um torneio de League of Legends no formato um contra um, voltado para jogadores amadores. No Brasil, a Gillette seguiu um caminho similar em 2018, patrocinando o Gillette ULT (Ultimate Legends Training), um reality show que buscava e desenvolvia novos talentos de League of Legends. Os vencedores tiveram a oportunidade de integrar equipes profissionais como paiN Gaming, RED Canids e INTZ.
A estratégia da Gillette incluía o patrocínio do CBLOL, a criação de uma arena própria para games e o acompanhamento da trajetória dos jogadores revelados. Ambos os casos demonstram um ponto crucial: as marcas não se limitaram a aparecer; elas criaram experiências significativas para a comunidade. E essa é uma diferença enorme.
O que a comunidade recebe em troca?
Essa deveria ser uma das primeiras perguntas que uma empresa faz antes de patrocinar um campeonato. Não apenas “quantas pessoas verão minha marca?”, mas “o que essas pessoas ganham com nossa presença?”. O investimento pode ser direcionado para aumentar a premiação, financiar transmissões de maior qualidade, viabilizar campeonatos presenciais ou criar experiências únicas para os espectadores.
Além disso, o patrocínio pode financiar conteúdos, revelar novos jogadores ou proporcionar oportunidades para profissionais que atuam nos bastidores. Quando há uma entrega concreta, o patrocinador transcende a condição de um simples logotipo na tela e passa a fazer parte da história e do desenvolvimento daquele campeonato, impactando positivamente o cenário do Norte Fluminense e do país.
Investimento na base: construindo o futuro dos e-sports
Os torneios de base são fundamentais para o ecossistema dos e-sports e representam uma oportunidade valiosa para empresas que desejam iniciar seus investimentos na modalidade. Campeonatos amadores e semiprofissionais necessitam de estrutura, transmissões, premiações e profissionais qualificados. Ao mesmo tempo, eles reúnem comunidades extremamente engajadas com as equipes e jogadores que acompanham.
Para uma marca, apoiar essas competições significa estar presente antes que um jogador alcance os grandes campeonatos. Significa também contribuir diretamente para que novos talentos tenham um ambiente para competir e se desenvolver. Não se trata apenas de exposição, mas de ajudar a construir a própria base do que a marca deseja fazer parte.
Retorno do investimento: a construção de uma relação duradoura
É importante ressaltar que nenhuma dessas estratégias sugere que uma empresa deva patrocinar e-sports apenas por altruísmo. Patrocínio é um investimento, e a marca espera reconhecimento, associação positiva e, naturalmente, retorno comercial. É justamente por isso que a autenticidade é tão vital. Se estudos já apontam uma relação clara entre a autenticidade percebida pelos fãs de e-sports e sua intenção de compra, conhecer a comunidade vai além de “falar a língua dos gamers”. Torna-se parte integrante da estratégia de negócio.
A comunidade pode até se lembrar de quem apareceu em uma transmissão. Mas ela construirá uma relação muito mais forte e leal com quem proporcionou algo de valor e contribuiu para o seu universo. Para as empresas que atuam na Costa do Sol e em todo o Interior do RJ, essa é uma lição valiosa.
Ouvir e colaborar: o caminho para uma inserção genuína
Uma marca não precisa ter nascido nos games para patrocinar e-sports, nem precisa fingir que joga League of Legends desde 2012 ou conhecer todas as piadas da comunidade. O que ela precisa é entender o espaço que está ocupando. Ouvir quem já faz parte dele, trabalhar com profissionais que conhecem profundamente aquele público e encontrar uma conexão verdadeira entre seu produto e a experiência que pretende oferecer.
Existe, sim, espaço e retorno para marcas não endêmicas nos e-sports. Mas, para não parecer que “caiu de paraquedas” no mundo gamer, o primeiro passo é justamente não cair de paraquedas. Entre pela porta, conheça a comunidade e construa um relacionamento sólido. Continue acompanhando o Rio das Ostras Jornal para mais notícias da região.
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