Muito além das rampas: o direito de ir e vir em Rio das Ostras | Rio das Ostras Jornal

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Muito além das rampas: o direito de ir e vir em Rio das Ostras


Artigo - Por Angel Morote

Rio das Ostras nasceu como um pequeno vilarejo de pescadores e cresceu rapidamente às margens da Rodovia Amaral Peixoto. Esse desenvolvimento acelerado trouxe avanços econômicos e populacionais, mas também deixou marcas profundas na organização urbana. A cidade não foi planejada para receber o crescimento que experimentou nas últimas décadas e, justamente por isso, o Plano Diretor se torna uma ferramenta indispensável para corrigir distorções e preparar o município para o futuro.

Quando uma cidade cresce sem planejamento, surgem problemas que afetam diretamente a qualidade de vida da população: calçadas estreitas, ausência de rampas, ciclovias desconectadas, falta de acessibilidade nos espaços públicos e dificuldades de mobilidade para pessoas com deficiência, idosos, gestantes e famílias com crianças pequenas. Esses obstáculos comprometem um dos direitos mais básicos garantidos pela Constituição Federal: o direito de ir e vir com segurança e autonomia.

Nesse contexto, Rio das Ostras precisa avançar na criação de uma estrutura permanente voltada às políticas públicas para as pessoas com deficiência. Seja por meio de uma Secretaria, Subsecretaria, Departamento ou Coordenadoria específica, é fundamental que exista um órgão técnico, composto por uma equipe multidisciplinar, capaz de planejar, coordenar, acompanhar e fiscalizar ações nas áreas de acessibilidade, mobilidade urbana, saúde, educação, esporte, assistência social, cultura, trabalho, infraestrutura e inclusão.

As políticas públicas para a pessoa com deficiência não podem permanecer fragmentadas entre diversas secretarias. É necessário um órgão que tenha autonomia administrativa e técnica para dialogar com todas as áreas do governo municipal, garantindo que a inclusão esteja presente desde a elaboração dos projetos até a execução das obras e dos serviços públicos.

A infraestrutura urbana é um dos exemplos mais claros dessa necessidade. Uma calçada sem rampa, uma travessia mal sinalizada ou uma ciclovia implantada sem critérios técnicos demonstram que ainda estamos construindo uma cidade que exclui parte de seus moradores.

As rampas de acessibilidade, por exemplo, devem seguir rigorosamente os critérios estabelecidos pela NBR 9050 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que define inclinação, largura, áreas de descanso, pisos antiderrapantes e demais requisitos necessários para garantir segurança e autonomia. Infelizmente, ainda encontramos "rampas de enfeite", construídas apenas para cumprir uma formalidade, mas que, na prática, apresentam inclinação excessiva e representam risco para cadeirantes, idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

As ciclovias também precisam ser planejadas sob a ótica da inclusão. Além de atender aos ciclistas, elas devem considerar usuários de triciclos adaptados, cadeiras de rodas motorizadas e outros equipamentos de mobilidade. Da mesma forma, calçadas acessíveis, piso tátil contínuo, travessias elevadas, semáforos sonoros e sinalização adequada fazem parte de um sistema integrado que beneficia toda a população.

O conceito de Desenho Universal estabelece exatamente isso: criar espaços públicos que possam ser utilizados pelo maior número possível de pessoas, independentemente de idade ou condição física, sem necessidade de adaptações posteriores.

Outro aspecto que merece atenção é a fiscalização das obras públicas e privadas. Não é aceitável que calçadas sejam construídas interrompendo o piso tátil, criando degraus inesperados ou invadindo o espaço destinado aos pedestres. Cada nova obra deveria ser vistoriada antes da entrega para garantir o cumprimento das normas de acessibilidade e evitar que erros continuem sendo reproduzidos pela cidade.

Mais do que cumprir exigências legais, investir em acessibilidade significa investir em cidadania. Uma cidade acessível é mais segura, mais organizada e mais humana. Ela beneficia não apenas as pessoas com deficiência, mas também idosos, gestantes, crianças, trabalhadores, ciclistas e qualquer cidadão que utilize os espaços públicos.

Rio das Ostras tem a oportunidade de corrigir falhas históricas e construir um modelo de desenvolvimento baseado no planejamento urbano, na inclusão e no respeito aos direitos humanos. Isso exige vontade política, participação da sociedade e decisões técnicas capazes de transformar a cidade em um espaço verdadeiramente acessível para todos.

Se as normas técnicas existem para proteger vidas e orientar a construção de cidades mais inclusivas, a pergunta que permanece é inevitável: por que ainda aceitamos que obras públicas e privadas sejam entregues sem cumprir requisitos básicos de acessibilidade previstos na NBR 9050?

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