
Enquanto o mercado financeiro de Rio das Ostras e da Região dos Lagos acompanha as movimentações econômicas, a Eucatex (EUCA4), gigante nacional em painéis, portas e tintas, revela um pilar estratégico pouco visível que sustenta seus resultados: sua robusta base florestal. O vice-presidente Antonio Goulart explicou ao Money Times como essa gestão florestal é crucial para o desempenho da companhia.
Longe da comercialização direta, a empresa tem na autossuficiência de matéria-prima e na expansão via arrendamento de terras um mecanismo vital para mitigar riscos climáticos e flutuações de mercado, garantindo o fornecimento de eucalipto para suas operações e impactando o cenário econômico do Interior do RJ.
A Base Florestal: Patrimônio e Segurança para a Eucatex
Para a Eucatex, as florestas representam mais do que um patrimônio financeiro. Elas garantem o fornecimento da principal matéria-prima da fabricante, ajudam a reduzir a exposição às oscilações do mercado e funcionam como um investimento de longo prazo, já que um plantio realizado hoje só estará pronto para corte cerca de sete anos depois.
Atualmente, a companhia possui cerca de 40 mil hectares de base florestal própria de eucalipto, todos no estado de São Paulo, o equivalente a mais de 50 mil campos de futebol. Apesar disso, a small cap está com uma política de expansão baseada principalmente no arrendamento de terras.
O objetivo, segundo Goulart, é ampliar a segurança de abastecimento sem comprometer grandes volumes de capital na compra de propriedades rurais e, ao mesmo tempo, reduzir a exposição à volatilidade da commodity. O vice-presidente destacou que, nos últimos anos, condições climáticas desfavoráveis, como falta de chuvas e baixas temperaturas, causaram perda de produtividade, exigindo a compra de 5% a 8% da demanda no mercado, justamente em um período de alta de preços.
Em resposta a esse cenário, a Eucatex decidiu acelerar seu reflorestamento. Após plantar cerca de 7,3 mil hectares no ano passado, a meta para 2026 é ampliar esse volume para aproximadamente 8,2 mil. O investimento previsto para o plantio de janeiro a dezembro é de cerca de R$ 180 milhões, acima dos aproximadamente R$ 150 milhões desembolsados em 2025, com foco no médio prazo.
Arrendamento de Terras: Flexibilidade e Economia na Expansão
Ao mesmo tempo em que amplia o plantio, a Eucatex, que possui cerca de R$ 2,27 bilhões em valor de mercado, tem evitado comprar propriedades rurais. A estratégia adotada pela companhia tem sido priorizar o arrendamento, modalidade em que a empresa “aluga” terras para realizar o cultivo sem adquirir a área.
Como vantagem, o mecanismo oferece flexibilidade e menor capital de entrada. Já como desvantagem, limita o uso da área e exclui o produtor da valorização imobiliária da fazenda. De acordo com Goulart, a decisão tem uma lógica financeira: para a companhia, o arrendamento apresenta uma relação custo-benefício mais atrativa do que a aquisição.
Um alqueire em São Paulo, onde a small cap concentra sua operação, pode custar entre R$ 150 mil e R$ 200 mil, enquanto o arrendamento gira em torno de R$ 6 mil a R$ 7 mil anuais, o que se mostra uma solução econômica para a empresa.
Intercâmbio de Madeira: Otimizando Logística e Custos
O vice-presidente contou também que a fabricante tem adotado, como outra estratégia para impulsionar os resultados, o intercâmbio de madeira, modalidade que consiste em fazer acordos com os concorrentes para reduzir gastos logísticos. Nessas operações, conhecidas como swap florestal, cada empresa realiza a colheita em áreas mais próximas de suas fábricas, compartilhando os ganhos obtidos com a redução do transporte.
Entre as atuais parceiras, a Eucatex possui swap florestal com a Sylvamo (SLVM) e com a Suzano (SUZB3), essa última uma das maiores fabricantes de papéis da América Latina. Essa prática demonstra a busca por eficiência e otimização de recursos no setor florestal.
Venda Estratégica e Planos Futuros de Investimento
Apesar da importância para a operação, as florestas da Eucatex também representam uma fonte potencial de geração de valor financeiro para a companhia. Nos últimos meses, a empresa reforçou seu caixa com a venda de aproximadamente 800 hectares da “Fazenda Nossa Senhora da Conceição”, localizada entre Itu e Porto Feliz, no interior de São Paulo, num negócio que movimentou cerca de R$ 200 milhões. A venda estratégica de uma área pequena, mas valiosa, contribuiu para a valorização do ativo.
Mesmo com a negociação, o valor será pago em partes, sendo R$ 60 milhões à vista e o saldo remanescente em 60 parcelas mensais. Durante o período correspondente ao prazo de pagamento, a Eucatex permanecerá na posse da fazenda, tempo suficiente para colher a floresta lá plantada.
Além do reforço da base florestal, a Eucatex prepara uma nova rodada de investimentos para ampliar sua capacidade produtiva e capturar oportunidades em diferentes segmentos do mercado de construção. A companhia pretende encerrar 2026 com cerca de R$ 500 milhões em capex, o que representa um salto de quase 30% em relação ao aplicado no ano anterior.
De acordo com Goulart, entre os principais projetos, o foco da companhia está no nicho de portas e batentes, com recursos voltados principalmente ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). A empresa planeja mais que triplicar a produção desses itens visando o segmento de construção civil. Além disso, a small cap pretende investir em novos equipamentos para geração de energia térmica, com o objetivo de reduzir custos por meio do aproveitamento de resíduos da própria operação, alocando R$ 40 milhões para essa finalidade.
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