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“Se temos um território que só trabalha na preservação, vai se criar um museu. Mas se a gente só pensar em prosperidade, sem preservação, vai acabar descaracterizando o território.” A afirmação Jean-Louis Le Guerroué, professor da Universidade de Brasília (UnB) e um dos principais pesquisadores de indicações geográficas no país, resume uma discussão que começa a ganhar espaço entre produtores, entidades setoriais e centros de pesquisa. Em um ambiente marcado por mudanças climáticas, novas exigências dos consumidores e transformações tecnológicas, a proteção da origem de um produto deixou de ser o único objetivo das indicações geográficas.
Para o pesquisador francês radicado no Brasil, e que pesquisa o setor há duas décadas, a próxima etapa das IGs será definida pela capacidade de manter vivos os territórios que sustentam a reputação desses produtos. A discussão envolve questões que vão da preservação ambiental à sucessão geracional, passando por governança, rastreabilidade, biodiversidade e adaptação climática. O tema já ocupa fóruns internacionais e centros de pesquisa na Europa e começa a chegar com mais intensidade ao debate brasileiro.
“As indicações geográficas não são mais apenas proteção de um nome. Hoje elas são estratégias para proteger a história, os recursos e o saber-fazer de uma comunidade”, diz ele, que foi um dos convidados do Connection Terroirs do Brasil, ocorrido em Gramado (RS), neste mês de junho.
A mudança de perspectiva ocorre em um momento de expansão do sistema brasileiro. Segundo dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o Brasil possui atualmente 175 Indicações Geográficas registradas, sendo 132 Indicações de Procedência (IP) e 43 Denominações de Origem (DO). Outros 15 pedidos aguardam análise. A diferença entre as duas modalidades está no grau de vínculo com o território. Enquanto a IP reconhece a reputação de uma região produtora, a DO exige a comprovação de que as características do produto são resultado direto de fatores naturais e humanos específicos daquela localidade.
É justamente nesse ponto que surge um dos principais gargalos identificados pelo pesquisador. Embora muitas regiões brasileiras possuam tradição produtiva consolidada, avançar para uma Denominação de Origem exige pesquisas complexas e investimentos elevados. “Para comprovar essa ligação com o território, é preciso fazer pesquisa. E pesquisa custa”, disse ele em entrevista exclusiva à Forbes. Segundo ele, estudos capazes de demonstrar relações entre microbiota, ambiente, genética e qualidade dos produtos podem exigir investimentos entre R$ 300 mil e R$ 400 mil.

A questão financeira ajuda a explicar a diferença entre o número de IPs e DOs registradas no país. Em muitos casos, associações de produtores optam pela Indicação de Procedência por exigir um nível menor de comprovação científica. Isso não significa que os territórios não possuam características capazes de sustentar uma denominação de origem. “Muitas indicações de procedência brasileiras poderiam ser denominações de origem. A escolha muitas vezes passa por estratégia e pelos recursos disponíveis.”
No mundo há dados que mostram o alcance dessas organizações. A oriGIn – aliança global das Indicações Geográficas – publicou neste mês de maio os resultados de sua quinta pesquisa anual, com exceção do Brasil onde não há dados econômicos sobre IGs. A edição de 2026 reúne respostas de 32 grupos de IG de 20 países distribuídos em 5 continentes, sendo a maior parte delas na União Europeia e Estados Unidos, abrangendo produtos agrícolas, vinhos, bebidas destiladas e artesanato de cerca de 20.000 IGs reconhecidas. Elas informaram um faturamento de 73,1 bilhões de euros (R$ 467,84 bilhões na cotação atual), exportações de 58,9 bilhões de euros (R$ 376,96 bilhões) e 640 mil empregos diretos. Essas IGs representam mais de 1 milhão de km² de área e atraem cerca de 14 milhões de visitantes por ano
Para Le Guerroué, as dificuldades não terminam na etapa de registro. Nenhum tema aparece tantas vezes na fala de quanto as mudanças climáticas. Para ele, o debate deixou de ser uma projeção distante. A alteração dos regimes de chuva, das temperaturas e da ocorrência de eventos extremos já influencia sistemas produtivos em diferentes regiões do mundo. “Para todos os produtos agrícolas, as mudanças climáticas vão alterar características. No caso das IGs, existe o risco de perder aquilo que define o produto.”
Na França, pesquisadores trabalham há mais de uma década em estudos voltados à adaptação de vinhos e outros produtos de origem controlada aos novos cenários climáticos. O objetivo não é apenas proteger a produção, mas preservar atributos que ajudaram a construir a reputação de determinados territórios ao longo de décadas ou séculos. Foi essa discussão que levou a União Europeia a ampliar o escopo das indicações geográficas. Biodiversidade, preservação de recursos hídricos, transição agroecológica e eficiência energética passaram a integrar debates que antes estavam concentrados na proteção do nome de origem.
“Estamos discutindo como incluir parâmetros ambientais dentro dos sistemas das indicações geográficas. Essa é uma questão importante para o futuro.”
A incorporação desses critérios traz uma nova tensão para os territórios produtores. Como inovar sem descaracterizar aquilo que torna um produto único? A resposta ainda não existe e não por acaso, o tema ocupa fóruns científicos internacionais. “Precisamos inovar, mas inovar sem perder a alma da indicação geográfica.”
Mas fato é que a discussão sobre inovação não se limita à tecnologia. Le Guerroué chama atenção para a transformação do próprio perfil dos consumidores. Segundo ele, cresce o interesse por produtos cuja origem possa ser identificada, rastreada e associada a práticas produtivas específicas. A procedência deixou de ser apenas um diferencial comercial e passou a integrar a decisão de compra.
Por isso, essa mudança amplia a responsabilidade das indicações geográficas. O reconhecimento do território precisa estar acompanhado de mecanismos que garantam autenticidade e coerência entre discurso e prática. Em um mercado cada vez mais atento às questões ambientais, a reputação construída ao longo do tempo pode ser fortalecida ou comprometida pela forma como os territórios respondem a essas novas demandas.
Essas transformações também atingem quem produz, porque muitos dos agricultores, artesãos e lideranças que participaram da construção das primeiras indicações geográficas brasileiras pertencem a gerações que se aproximam da aposentadoria. A sucessão passa a ser um tema estratégico para a continuidade dos projetos. Le Guerroué inclui a questão geracional entre as mudanças que moldarão o futuro das IGs. “As novas gerações possuem outra relação com tecnologia, comunicação, mercado e gestão. A entrada desses produtores pode acelerar processos de inovação, mas também exigirá novas formas de governança e articulação territorial”, diz ele.
Governança na Indicações Geográficas
Se o clima representa uma pressão externa, a governança aparece como uma questão interna dos territórios. Para o pesquisador, uma das maiores diferenças entre uma indicação geográfica bem-sucedida e outra que permanece estagnada está na capacidade de mobilização dos atores locais. “Quando falamos de indicação geográfica, estamos falando de um bem público. É um patrimônio do território.” A afirmação ajuda a compreender por que Le Guerroué insiste que as IGs não devem ser confundidas com marcas privadas. O reconhecimento pertence ao território e depende da participação de produtores, associações, instituições de pesquisa, agentes públicos e empresas. Sem articulação coletiva, o registro corre o risco de existir apenas no papel.
O pesquisador observa que alguns territórios ainda enfrentam dificuldades para construir essa integração. Em muitos casos, produtores trabalham de forma isolada, sem conexão com restaurantes, escolas, universidades, operadores turísticos ou outras atividades econômicas capazes de ampliar a visibilidade dos produtos locais. A situação é agravada pelo desconhecimento sobre o próprio sistema de indicações geográficas. “Muitos produtores não sabem o que é uma indicação geográfica porque isso ainda não chegou até eles.”
Segundo ele, o problema não se restringe ao campo. A falta de familiaridade com o tema também aparece em instituições e organizações envolvidas na criação de novos projetos. O resultado é um processo mais lento de expansão e consolidação das IGs.
Outro fator apontado pelo pesquisador é a informalidade. Em diversas cadeias produtivas, especialmente entre pequenos produtores e segmentos artesanais, a ausência de regularização dificulta o acesso às estruturas de certificação e aos mecanismos de valorização econômica associados às indicações geográficas. O tema aparece com frequência em setores como os queijos artesanais, por exemplo, nos quais tradição e informalidade muitas vezes caminham juntas. A regularização exige investimentos, adequações e capacidade de organização coletiva. Sem isso, parte dos produtores permanece à margem dos benefícios gerados pelos registros.
A governança também passa pelos chamados cadernos de especificações, documentos que estabelecem as regras de produção e os critérios que precisam ser respeitados pelos participantes de uma indicação geográfica. Para Le Guerroué, esse é um dos pontos mais complexos de todo o sistema. “O caderno de especificações é o que garante a preservação da essência da indicação geográfica.”
A elaboração desses documentos envolve discussões sobre métodos produtivos, delimitação geográfica, características dos produtos e mecanismos de controle. Em muitos casos, produtores discordam sobre quais elementos devem ser protegidos e quais mudanças podem ser incorporadas ao longo do tempo. Essa discussão ganha relevância justamente porque as indicações geográficas atravessam um período de transição. Durante décadas, a principal preocupação foi proteger nomes e combater imitações. Agora, o debate incorpora biodiversidade, adaptação climática, inclusão produtiva, sucessão geracional, inovação tecnológica e desenvolvimento territorial. “Precisamos inovar, mas inovar sem perder a alma da indicação geográfica.”
O post “Proteger a Origem Já Não Basta”, Diz o Francês Jean-Louis Le Guerroué sobre IGs no Brasil apareceu primeiro em Forbes Brasil.
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