Investigações revelaram o funcionamento da facção com
articulação em diferentes estados do país; parlamentar foi secretário do
governo Eduardo Paes
Rio - O vereador Salvino Oliveira (PSD-RJ) foi preso, nesta
quarta-feira (11), por suspeita de ligação com o Comando Vermelho em uma
operação da Polícia Civil. As investigações revelaram o funcionamento da
facção, que tem cadeia de comando organizada, divisão territorial e articulação
entre integrantes em diferentes estados do país. A corporação cumpriu 11
mandados de prisão, sendo seis contra policiais militares.
De acordo com o apurado, Salvino, que foi secretário de
Juventude do governo Eduardo Paes entre 2021 e 2024, teria negociado
diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma autorização
para realizar campanha eleitoral na Gardênia Azul, Zona Sudoeste, área dominada
pelo CV.
Em troca, o parlamentar articulou benefícios à facção,
apresentados publicamente como ações voltadas à população local. Um dos
exemplos investigados envolve a instalação recente de quiosques na região.
Conforme o investigação, a definição de parte dos beneficiários teria sido
determinada diretamente por traficantes, sem processo público transparente.
O trabalho investigativo também identificou a participação
direta de familiares de um dos principais líderes históricos da facção, Márcio
dos Santos Nepomuceno, o "Marcinho VP", no funcionamento da facção. A
Civil informou que Márcia Gama, mulher do criminoso, atua na intermediação
de interesses do grupo fora da prisão, participando da circulação de
informações entre os integrantes e de articulações envolvendo operadores da
organização e agentes externos.
Outro investigado apontado pela Civil como peça relevante na
estrutura é Landerson, sobrinho de Marcinho VP. De acordo com a investigação,
ele exerce papel de elo entre lideranças da facção, integrantes que atuam em
comunidades dominadas pelo grupo e pessoas envolvidas em atividades econômicas
exploradas pela organização, como serviços, imóveis e outros negócios usados
para geração de recursos e expansão do poder do grupo.
Tanto Márcia, que é mãe do cantor Oruam, quanto Landerson
não foram localizados em seus endereços nesta quarta e são considerados
foragidos da Justiça.
Durante as apurações, também foram identificados casos de criminosos que se
passavam por policiais militares para obter vantagens ilícitas, incluindo
vazamento de informações e simulação de operações.
Expansão pelo país
A investigação aponta ainda para uma estrutura criminosa de
grande complexidade do Comando Vermelho, com conselho nacional, conselhos
regionais e articulação entre organizações de diferentes estados, inclusive com
indícios de cooperação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
"Mesmo após quase três décadas no sistema prisional, as
investigações indicam que Marcinho VP continua exercendo papel central na
estrutura de comando da facção, apontado como liderança do chamado conselho
federal permanente do grupo", explicou a corporação.
A apuração identificou outros integrantes com funções estratégicas dentro da
organização, entre eles o traficante Doca, apontado como principal liderança
nas ruas; Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, responsável pela gestão
financeira do grupo; e Carlos da Costa Neves, o Gardenal, encarregado de
operacionalizar determinações da liderança.
A Operação Contenção Red Legacy foi realizada pela Delegacia de Combate ao
Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD) e contou com o apoio de
agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e de policiais de
delegacias Especializadas e da Capital.
As investigações seguem em andamento para aprofundar a
responsabilização penal de todos os envolvidos e ampliar o combate às
estruturas financeiras, operacionais e institucionais utilizadas pela facção.
Respostas
O advogado Flávio Fernandes, que representa Márcia, afirmou
que a cliente não pode ser tratada como uma foragida, pois a família não teria
recebido nenhum mandado de prisão nesta quarta-feira (11). Somente um de busca
e apreensão.
"Márcia está viajando e não tinha conhecimento dessa
operação. A família foi acordada hoje, às 5h, com vários policiais cumprindo um
mandado de busca e apreensão. É o que a gente sabe, até o momento. Eu ainda não
falei com ela. Ela não pode ser considerada foragida porque não sabe da
investigação. Não foi apresentado à família o mandado de prisão. Se nós
entendermos que é uma prisão injusta e ilegal, nós podemos orientar a nossa
cliente a não se apresentar. A Márcia acredita na Justiça. A gente confia e
sabe que tudo será analisado", destacou.
Ainda segundo Fernandes, a mulher foi alvo de uma operação
em 2010 sobre as mesmas acusações, chegou a ser presa, mas a Justiça do Rio a
absolveu.
"Ela é minha cliente há muito tempo. Assim como da
outra vez, o que se imputa a ela é uma lavagem de capitais e envolvimento com o
Comando Vermelho. O vínculo que ela tem é que ela é esposa do Márcio
Nepomuceno. Ela tem sofrido bastante pelo o que tem passado com o filho dela.
Durante esse período, nunca se comprovou nada contra ela. Eu acredito que agora
vai acontecer a mesma coisa. De lá para cá, nada mudou. A vida dela financeira
é a mesma que antes. A defesa acredita sim, embora a gente não ter acesso à
investigação e sequer há decreto prisional, na inocência dela", contou.
Procurada, a Polícia Militar informou que as equipes da
Corregedoria Geral acompanham a Polícia Civil no cumprimento dos mandados de
prisão temporária e busca e apreensão em desfavor de seis agentes.
A PM destacou que os policiais serão conduzidos para a
Cidade da Polícia e, posteriormente, encaminhados à Unidade Prisional da
corporação, em Niterói, na Região Metropolitana, onde permanecerão presos.
"O comando da corporação reitera que não compactua com
quaisquer desvios de conduta ou com o cometimento de crimes praticados por seus
integrantes, punindo com rigor os envolvidos sempre que os fatos forem
devidamente constatados", disse em nota.
Questionada, a Câmara do Rio disse que acompanha o
desenrolar dos fatos e se coloca à disposição das autoridades competentes para
prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários. O Legislativo
Municipal reafirmou sua confiança no trabalho das instituições e no devido
processo legal.
A reportagem tenta localizar a defesa de Salvino. O espaço
está aberto para manifestação.
O Dia

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