Por Angel Morote
Jornalista Angel Morote / Foto: Arquivo Pessoal
Nas quadras onde pratico basquete sobre rodas e nos campos
de futebol para amputados, a palavra "impossível" perde o
sentido. O esporte adaptado é, talvez, a maior vitrine da potência
humana. Ele não é apenas sobre ganhar medalhas ou manter o condicionamento
físico; para a pessoa com deficiência, o esporte é um rito de passagem para uma
nova vida, uma ferramenta de reabilitação psicossocial que devolve a dignidade
e o senso de pertencimento. Como paratleta, vi homens e mulheres saírem de
depressões profundas e isolamento social através do contato com a competição e
com o coletivo esportivo.
Porém, em Rio das Ostras, esse potencial
transformador é travado por um poder público que parece ignorar a existência do
paradesporto no orçamento municipal. Enquanto vemos altos investimentos em
eventos de entretenimento e turismo, o esporte adaptado sobrevive à base de
voluntarismo e da união de associações como a nossa. A falta de
políticas públicas estruturadas significa que não temos um calendário oficial
de competições, não temos transporte adaptado garantido para as equipes e
sofremos com a falta de espaços de treinamento que sejam verdadeiramente
acessíveis em todas as suas dimensões (quadras, vestiários e acessos).
A omissão institucional é uma forma de negligência com
a saúde pública. O paratleta que treina regularmente reduz
significativamente suas internações hospitalares e o uso de medicamentos, além
de se tornar um exemplo inspirador de resiliência para toda a
comunidade. Compare o custo de um centro de treinamento adaptado com o
custo de tratamentos de saúde crônicos derivados do sedentarismo e do
isolamento, e você verá que investir no esporte é, na verdade, economizar
dinheiro público. Rio das Ostras tem talentos incríveis que levam o
nome da cidade para fora, muitas vezes tirando dinheiro do próprio bolso para
representar o município que lhes nega o básico.
Motivamos os nossos companheiros a não desistirem, mas
precisamos de mais do que motivação; precisamos de
estrutura. O esporte adaptado deve estar no centro da pauta
da Secretaria de Esportes, com editais específicos e fomento
real. O protagonismo da Pcd no esporte é um direito, e não
um passatempo que o governo pode escolher ignorar. Estaremos sempre nas
quadras e nos campos, mas nossa luta agora também é nos gabinetes, exigindo que
o esporte seja tratado com a seriedade que a nossa saúde e dignidade merecem.
Se o esporte adaptado é capaz de transformar um cidadão e
reduzir custos públicos de saúde, o que impede a prefeitura de Rio
das Ostras de criar um programa permanente e robusto de incentivo ao
paradesporto?
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