Com uma voz pequena, projetava
sua incrível personalidade; apenas com a entonação sutil e pela expressiva
comunicação do semblante interpretava as personagens de suas histórias
O Brasil perdeu neste sábado, 25,
um dos mais brilhantes artistas da nossa história, Juca Chaves, aos 84
anos. Estava internado no Hospital São Rafael, em Salvador, Bahia. Talvez
não tenha existido em nosso país alguém com humor mais fino e inteligente que
ele. Uniu sua formação em música clássica com seu talento natural para se
projetar como compositor, músico e humorista. Ironizava os políticos com suas
tiradas espirituosas e canções sarcásticas. Na verdade, dizia com a sua arte o
que o povo gostaria de dizer. Por isso, fez tanto sucesso. Algumas das
frases atribuídas a ele que fizeram história: “O Brasil é um país paradoxal,
onde o estudante pinta a cara e o índio estuda”; “Ser velho é quem se ilude que
idade é juventude. Ser jovem é saber envelhecer”; “A imprensa é muito séria, se
você pagar, eles até publicam a verdade”.
O Poetinha, Vinícius de Moraes,
deu a ele o apelido de O Menestrel Maldito, devido à sua contundente crítica à
classe política, especialmente na época em que os militares estiveram no poder.
Uma de suas atitudes mais marcantes era a de chegar descalço ao palco e com o
violão sobre os ombros. O meu contato com ele se deu graças a um amigo
comum, Cesar Romão. Em um de nossos últimos encontros, participaram do almoço
ele e o ator Fúlvio Stefanini. A conversa rolou solta, com histórias engraçadas
e curiosas. Uma delas, contada por Juca, foi surpreendente. Ele relatou
como errou ao montar o Jucabaré. Disse que foi uma ideia que trouxe ao Brasil
depois de ter ficado exilado na Itália. Ele mesmo fazia as perguntas e dava as
respostas, sempre com autogozação. Por que não deu certo?: “As pessoas iam ao
show, gostavam muito, mas sempre perguntavam onde estavam as mulheres de
programa. Isso porque a casa fora montada no mesmo prédio onde funcionara
durante anos o La Licorne, na rua Major Sertório, em São Paulo. Aquele lugar
estava marcado pelas mulheres que se dedicavam às aventuras sexuais. Show sério
não tinha vez. Como podia dar certo?!”.
Fiquei impressionado em nossos
encontros como conseguia, em todas as oportunidades, se divertir brincando com
ele mesmo. Com uma voz pequena, projetava sua incrível personalidade. Apenas
com a entonação sutil e pela expressiva comunicação do semblante interpretava
as personagens de suas histórias. A cada cena que descrevia, dava a impressão
de que nos transportávamos para o local de suas narrativas. Sem fazer nenhum
esforço vocal, permitia aos que estavam mais distantes ouvi-lo perfeitamente.
Aprendera ao longo de sua extensa carreira artística a projetar a voz em
qualquer tipo de ambiente. Como podia, então, com aquela voz que não
possuía volume poderoso, ser eloquente? Quem, talvez, nos ajuda a dar uma boa
explicação para esse fenômeno é o padre Antonio Vieira: “Mas que diremos à
oração de Moisés? Desça minha doutrina como chuva do céu, e a minha voz e as
minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído”. E
completa essa reflexão em Isaias: “Não clamará, não bradará, mas falará com uma
voz tão moderada que não possa ouvir fora. E não há dúvida que o praticar
familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia mais
atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na
alma”.
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Juca Chaves é inimitável. Suas
características eram tão peculiares que somente ele poderia utilizá-las. Ainda
assim, seu estilo influenciou incontáveis humoristas e intérpretes. Adaptaram à
sua própria maneira de ser o que puderam observar no modelo artístico desse
carioca de nascimento e baiano de coração. O tempo passará. As gerações se
sucederão. Novos ídolos surgirão. Juca Chaves, entretanto, terá sempre um lugar
de destaque no pódio dos melhores e mais importantes artistas do nosso país.
Que descanse em paz. Siga pelo Instagram: @polito.
Por Reinaldo Polito
*Esse texto não reflete,
necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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