O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou (E), ri ao lado do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, na residência presidencial em Montevidéu, em 25 de janeiro de 2023, durante a visita de Lula ao Uruguai. Dante Fernandez / AFP
Argentina, Brasil e Paraguai
temem que acordo bilateral entre os países possa rachar o bloco; especialistas
ouvidos pela Jovem Pan dizem que avanços nas negociações representam um risco
O Uruguai não
escondeu que vai continuar avançando nas negociações bilaterais com a China. Durante
a visita de Luís
Inácio Lula da Silva (PT) ao país, o presidente uruguaio, Luis
Lacalle Pou, declarou que não tinha problemas em informar o Brasil e
Argentina sobre o que está negociando com os chineses e defendeu a necessidade
de fazer esse acordo para o desenvolvimento do seu país. Um dia antes, durante
a participação na 7ª cúpula da Comunidade de Estados
Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), ele já havia proposto o
impulsionamento da criação de uma área de livre-comércio regional. “Não seria o
momento de tornar essas relações mais sinceras e que se impulsione, a partir da
Celac, uma área de livre-comércio do México até o sul da América do Sul? Não
podemos avançar nesse sentido?”, questionou. “Temos a possibilidade de fazer
comércio livremente. Muitas de nossas economias são complementares, e tenho
certeza de que poderíamos avançar”, argumentou Lacalle Pou no momento em que
seu país está sob pressão no Mercosul após a decisão de negociar um tratado de
livre-comércio (TLC) com a China.
A negociação avança após a
realização de um estudo de viabilidade, deixando a situação tensa para
Argentina, Brasil e Paraguai – outros integrantes do Mercosul -, que chegaram a
ameaçar Montevidéu com medidas legais e comerciais. O Uruguai também se inscreveu
para aderir ao Acordo Transpacífico. O presidente uruguaio, no entanto,
assegura que não se opõe à participação de outros membros do Mercosul no acordo
com o país asiático e destaca que “o Mercosul é a quinta região mais
protecionista do mundo”. Ele também reforçou que seu país não é “divisionista”.
“Nunca dissemos ‘vamos abandonar o Mercosul’”, insistiu. A aproximação dos
uruguaios com os chineses é vista com receio por Brasil, Argentina e Paraguai
porque temem que possa representar um problema para o bloco. Amâncio Jorge de
Oliveira, especialista em ciência política pela Universidade de São Paulo
(USP), fala que essa aproximação pode trazer tremendas consequências e
impactos e ser um “bomba atômica”. “O Mercosul tem regras de acordos
comerciais. Se o relacionamento bilateral entre os países acontecer, haveria um
nível de competitividade do produto chinês em relação ao Uruguai com proporção
a tomar os outros países da América do Sul via essa porta de entrada, também
bastante contundente, e seria para o Mercosul uma coisa bastante complexa”.
Luiz Fernando Paulillo, doutor em
economia e diretor do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia da Universidade
Federal de São Carlos (UFScar), afirmou que o que Uruguai está fazendo com a
China preocupa os outros países, porque essa sinalização é uma ameaça à
constituição do Mercosul. “Se o acordo bilateral acontece e avança, isso
enfraquece o bloco e representa uma real ameaça”. Alberto Pfeifer, coordenador
geral do DIS, grupo de análise de estratégia internacional da USP, explica que
o “Uruguai tem um setor industrial limitado e pequeno que se baseia na
importação, que vem principalmente de países do Mercosul, o que, de alguma
maneira, vincula a economia dele ao Brasil”, acrescentando que a proximidade do
Uruguai com a China, “sempre será um incomodo para o Brasil, porque ele verá
países tão próximos a ele penderem para o lado da lógica produtiva e de consumo
chinês”. O especialista ainda relembra que essa proximidade infringe umas
cláusulas do Mercosul, porque se ele abrir seu setor importador para outro país
fora do bloco, isso precisa ser acordado, mas fere a solidez do Mercosul.
“O Brasil quer preservar o tratado fundador do
bloco e tarifa externa comum”, afirmou Celso Amorim, assessor especial do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais. Em uma
coletiva, ele foi enfático em sua objeção. “Achamos que o Uruguai é exemplo de
civilidade em muitos aspectos dentro da América Latina, que em muitas coisas
eles estão muito avançados. Mas achamos que o Mercosul precisa ser preservado”,
afirmou o assessor. “Dentro da ideia de preservação está a tarifa externa comum.
Isso não é uma exigência do Brasil ou da Argentina, é o artigo 1º do Tratado de
Assunção”, afirmou Amorim. O artigo citado faz parte do texto constitutivo do
Mercosul e garante “o estabelecimento de uma tarifa externa comum e a adoção de
uma política comercial comum em relação a terceiros Estados ou agrupamentos de
Estados e a coordenação de posições em foros econômico-comerciais regionais e
internacionais”.
O bloco sul-americano conta com
uma taxa externa comum com múltiplas “perfurações” ou exceções, que foi
reduzida em 2021 mediante um acordo entre Argentina e Brasil. O artigo também
contempla a eliminação de “restrições não tarifárias à circulação de
mercadorias”, um ponto que o Uruguai questiona não ser cumprido em sua
totalidade pelo bloco. “Queremos preservar o Tratado de Assunção da forma como
está escrito, mas reconhecemos que os países menores precisam de algum apoio,
de alguma forma”, disse Amorim, que afirmou que os Estados-membros podem
“comprar produtos industrializados do Uruguai ou incentivar que o país
participe da cadeia produtiva” do setor automotivo, entre outras medidas. Sua
declaração foi feita um dia antes do encontro entre Lula e Lacalle Pou. O líder
brasileiro, por sua vez, disse entender o desejo dos uruguaios e falou sobre a
possibilidade de fazer acordo com a China, porém, enfatizou que antes é
necessário focar na União Europeia. “É urgente e necessário que o Mercosul faça
o acordo com a União Europeia. Eu ainda estava no primeiro mandato, em 2003,
quando já se discutia esse acordo. Vamos intensificar as discussões com a UE.
Vamos firmar esse acordo para que a gente possa discutir apenas um possível
acordo entre China e Mercosul. Eu acho que é possível”, disse Lula após se
reunir com Lacalle Pou em Montevidéu.
O líder brasileiro ainda
expressou o desejo de fortalecer o bloco. “Concordamos em discutir reformas no
Mercosul. O que precisamos fazer para modernizar o Mercosul? Queremos sentar à
mesa primeiramente com nossos técnicos, depois com nossos ministros, e
finalmente com os presidentes para que a gente possa renovar aquilo que for
necessário renovar”, disse Lula em resposta ao presidente do Uruguai, que falou
sobre a necessidade de ter um bloco mais “moderno, flexível e aberto ao mundo”.
Lacalle Pou expressou sua satisfação com o apoio do Brasil ao “aprimoramento do
Mercosul”. O Uruguai pede há anos uma maior flexibilidade ao Mercosul, assim
como avanços nas negociações comerciais com a UE, um pedido que Lula considerou
“mais do que justo”. “É justo querer produzir e vender mais. Por isso, é
importante se abrir o máximo possível para o mundo dos negócios”, afirmou o
presidente do Brasil.
Por Sarah Américo

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