Forte chuva deixou 233 mortos e quatro desaparecidos
Ao completar um mês da tragédia
que tirou a vida de 233 pessoas e deixou quatro desaparecidos em Petrópolis,
alguns problemas seguem sem solução. O maior deles é onde acomodar as centenas
de pessoas que perderam suas casas ou tiveram que sair do imóvel, com risco de
desabamento, após a enxurrada que abalou o município na tarde de 15
de fevereiro.![]()
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Segundo o último balanço da
prefeitura, são 685 pessoas em abrigos, a maioria em igrejas e escolas.
Outras estão provisoriamente em casas de parentes. A
maioria espera a concessão do aluguel social para conseguir novo lugar para
morar, mas o processo está muito lento.
Entre esses casos, está o de
Marta dos Santos Ribeiro, que precisou sair de casa, no Morro da Oficina,
e hoje está alojada na casa da irmã, depois de morar um mês em uma
igreja. Ela e o marido Edison Alves da Silva conversaram com a reportagem no
alto do morro, entre os escombros do que restou das residências, onde tinham
ido buscar alguns pertences.
Morador do Morro da Oficina,
em Petrópolis, o casal Edson Alves da Silva e Marta dos Sanrtos Ribeiro tiveram
a casa parcialmente destruída na enchente ocorrida há um mês - Tomaz
Silva/Agência Brasil
“A gente estava na igreja
até quinta-feira passada, só que tivemos de sair. Nós ainda não achamos
casa, mas já fizemos o cadastro. As que nós encontramos, não aceitam o aluguel
social. Já procuramos mais de 20 casas. O futuro é de muita luta, mas temos
fé”, disse ela, que está afastada pela Previdência, porque se recupera de um
câncer.
Outros se deparam com a falta de
reconhecimento oficial, por parte da Defesa Civil do município, de que seus
imóveis estão em área de risco, o que garante o acesso ao aluguel social. É o
caso de Camila Lírio, que se preocupa com seus vizinhos, a maioria moradora ao
lado do Morro da Oficina, em área que também corre risco de futuros
desabamentos.
“Estou morando em casa de amigos,
mas é provisório. Muita gente ainda não quer sair, porque alega que não
há risco. Isso é mais uma tragédia anunciada. O que aconteceu do lado de
cá pode acontecer do lado de lá. Tem que oficializar a interdição. Ali tem
umas 150 pessoas. Estou correndo atrás do aluguel social. Para conseguir uma
casa, tem que pegar os dados e levar para a prefeitura, que fará o pagamento na
conta do proprietário. Mas ninguém quer locar, com a incerteza do pagamento”,
relatou Camila.
Para o padre José Celestino
Coelho, da Paróquia Santo Antônio, do Alto da Serra, o problema não é simples e
demanda maior planejamento do poder público, para que novas tragédias não
aconteçam. Ele viu tudo bem a sua frente, pois a igreja fica a pouco mais
de 100 metros do Morro da Oficina. E foi para lá que acorreram centenas de
pessoas na primeira noite, em busca de abrigo.
“Aqui chegou a ter 280
pessoas, agora tem 24, que não estão conseguindo ir para o aluguel social. O
ensinamento que ficou é que temos de ter mais planejamento e
fiscalização. Se continuar do jeito que está, é uma tragédia que vai ficar
esquecida e depois virão outras. Infelizmente”, refletiu o padre.
Desaparecido
Enquanto o problema para uns é
buscar nova moradia, o drama de outros é localizar um parente que continua
desaparecido. É o caso de Adauto Vieira da Silva. Ele tenta, sem sucesso, desde
o dia da tragédia, encontrar o corpo do filho, Lucas Rufino da Silva.
Além dele, Adauto perdeu no
deslizamento do Morro da Oficina a esposa e uma filha, que já foram sepultadas.
Porém, o corpo de Lucas, de 21 anos, continua desaparecido. O pai diz que, logo
após o temporal, amigos chegaram a reconhecer, no meio da lama, o que seria o
corpo do jovem. Porém, depois que foi levado para o Instituto Médico
Legal, o reconhecimento foi de outra pessoa, o que causa indignação.
“Eu enterrei a minha esposa e
minha filha. E o meu filho? Se ponham no meu lugar. Tentar tirar o direito de
enterrar o meu filho. Ele estava com 21 anos. Já passou um mês, mas para mim
parece que foi ontem. Até quando vou ter que esperar? Eu só vou
ame quietar quando eles solucionarem onde está o meu filho”, disse ele, próximo
ao local onde dois tratores tentavam remover toneladas de terra, na esperança
de localizar o corpo de Lucas.
Comércio
A poucos quilômetros dali, o
centro de Petrópolis busca retomar a força de seu comércio, severamente afetado
pela inundação. Dezenas de lojas foram invadidas pela água e lama, ficando
semanas fechadas, para limpeza e reforma das instalações. Na Rua do Imperador,
uma das principais da área central, o que se via na tarde dessa segunda-feira
(14) era o oposto dos dias que se seguiram à tragédia.
Em vez de lojas fechadas,
cobertas por grossa camada de lama, a região voltou a atrair milhares de
pessoas. Além dos próprios moradores, centenas de turistas voltam aos poucos a
frequentar o comércio local, especialmente conhecido pelas confecções de bom
preço e qualidade, muito buscadas por clientes e revendedores.
Um caso que se tornou emblemático
foi o da Livraria Nobel, que perdeu quase 15 mil livros em seu estoque, no subsolo
da loja, inundado pela chuva em questão de minutos, sem dar tempo aos
funcionários fazerem nada, além de salvarem suas próprias vidas.
“Conseguimos reabrir a loja. E
para isso tivemos muito carinho da população. Foi muito rápido. Quando entrou
pela porta da frente, o meu filho já saiu dali com água na cintura. O prejuízo
é grande. Não perdemos só os livros, foram cinco computadores, móveis,
divisórias. Agora, quando começa a chover, fica todo mundo tenso e
traumatizado”, contou a proprietária, Sandra Madeira, que nem por isso pensou
em desistir. Afinal, Petrópolis só tem duas livrarias: a Nobel e a Vozes.
Prefeitura
Procurada para se manifestar
sobre os problemas na concessão dos aluguéis sociais, a prefeitura de
Petrópolis respondeu que o último balanço, de 10 de março, inclui 170
aluguéis sociais. "Importante dizer que a prefeitura fez todos os esforços
para agilizar a concessão de aluguéis sociais. Um grupo de trabalho, que
envolve todas as secretarias, atua na ponta, auxiliando as famílias na busca
por moradia segura. O município também liberou a exigência do laudo da Defesa
Civil pelo período de 60 dias, justamente para acelerar o processo",
escreveu a prefeitura em nota.
Até o momento, foram 1.778 laudos
concluídos e 3.012 estão em andamento. No total, a Defesa Civil tem 5.802
ocorrências registradas.
Agência Brasil - Rio de
Janeiro
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