
Juristas apontaram incoerências no despacho
do ministro Fachin.
MARCELLO CASAL JR. / AGÊNCIA BRASIL
Especialistas
ouvidos pelo R7 acreditam que análise da matéria deveria ter sido
feita pelo plenário do Supremo Tribunal Federal
Especialistas
ouvidos pelo R7 criticaram a decisão
monocrática do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin de
anular as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Com
todo o respeito e admiração que tenho pelo ministro Fachin, considero que uma
decisão dessa relevância, com repercussão monumental no país, jamais poderia
ser tomada monocraticamente, e sim pelo plenário do Supremo", afirma o
advogado Ives Gandra Martins, especialista em direito constitucional e
tributário.
Para Ives
Gandra, num momento em que o Brasil enfrenta duas crises gravíssimas, a
sanitária e a econômica, Fachin trouxe um elemento de grande perturbação ao
debate político. "O ideal seria que, diante da gravidade da decisão, o
ministro solicitasse ao presidente do STF, Luiz Fux, que priorizasse essa
discussão no plenário", diz. "Infelizmente, para a sociedade fica a
impressão de que a decisão sinaliza o fim da luta contra a corrupção."
O advogado
Alberto Rollo, professor de Direito Eleitoral da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, concorda e considera que a decisão de Fachin foi
precipitada. "Em seu despacho, Fachin diz que a questão da competência já
havia sido tratada anteriormente nas alegações finais e que as instâncias
inferiores já haviam negado o pedido da defesa. É claro que é possível recorrer
ao STF, mas o ideal seria que o plenário analisasse a matéria", afirma.
Para Rollo,
Fachin tem o direito de achar que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tem
competência para julgar os processos da Lava Jato, mas isso tem que ser feito
no caminho processual correto. "Esse habeas corpus foi uma espécie de
atalho processual. A defesa questionava apenas o caso do triplex do Guarujá,
mas o ministro acrescentou o processo do sítio de Atibaia e os dois do
Instituto Lula. Foram quatro decisões em uma só, ele aumentou a abrangência do
pedido."
Rollo ainda
lembra que, em seu despacho, Fachin diz que anula "todos os atos
decisórios até a denúncia", mas, logo depois, diz que podem ser
aproveitados os "atos instrutórios" (provas). "Ora, isso é uma
incoerência. É como se ele derrubasse o subsolo, mas mantivesse o primeiro
andar."
Perplexidade
e desânimo
O procurador de
Justiça Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, também
lamentou a decisão de Fachin. "Causou perplexidade em todos, pois a
expectativa era de prosseguimento, com a confirmação das condenações. Isso
causa desânimo e a sensação de que o sistema tem extrema dificuldade de
alcançar as pessoas detentoras de poder político e econômico."
Livianu lembrou
que a decisão de Fachin não analisa o mérito das acusações contra o
ex-presidente Lula. "É uma questão técnica, processual. O ministro
determinou que os processos sigam para Brasília, onde a Justiça deverá
verificar a possibilidade de aproveitar os atos processuais realizados em
Curitiba". Além disso, a decisão diz respeito apenas aos processos
envolvendo Lula, e não aos demais casos da Lava Jato.
Do R7
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