Auxílio que começou em 600, agora é de R$ 300.
André Melo Andrade/Myphoto Press/Estadão Conteúdo
Extensão do
benefício está paralisada no Congresso e enfrenta alguma oposição dentro do
governo federal
O Brasil
conseguiu diminuir os níveis de pobreza com o auxílio
emergencial durante a pandemia da covid-19,
mas se os esforços governamentais de assistência à renda não continuarem 15
milhões de brasileiros serão jogados de volta a essa condição em janeiro,
alertou Marcelo Neri, diretor do FGV Social e fundador do CPS (Centro de
Políticas Sociais).
A extensão dos
subsídios está paralisada no Congresso e enfrenta alguma oposição dentro do
governo, cuja equipe econômica está preocupada com descontrole do déficit
orçamentário. "Estamos entre a cruz e a espada", disse Neri.
Estudo da FGV
publicado nesta quinta-feira (8) mostra que o número de brasileiros pobres —
aqueles que ganham menos de meio salário mínimo, ou R$ 515 por mês — recuou
23,7%, atingindo nova mínima histórica de 50 milhões de pessoas, graças ao
auxílio mensal, que começou em R$ 600, mas agora reduzido a R$ 300 por mês até
dezembro.
O presidente
Jair Bolsonaro tenta
encontrar uma maneira de manter os pagamentos, mas não há como
financiá-los sem romper o teto de gastos e piorar um já elevado déficit
orçamentário.
O Brasil foi
mais generoso com sua população pobre durante a pandemia do que outras nações
latino-americanas, apesar de sua situação fiscal pior e das tentativas do
ministro da Economia, Paulo Guedes, de manter esforço de austeridade fiscal,
disse Neri.
"Guedes se
revelou um gestor de políticas keynesianas surpreendentemente generoso. Agora,
a gente está em uma situação em que você precisa ser meio keynesiano, só que a
gente não tem recursos", afirmou.
O
Keynesianismo, ou Escola Keynesiana, é uma teoria político-econômica que
defende o Estado como um agente ativo contra crises econômicas e alta no
desemprego.
O Brasil, que
sofreu forte saída de recursos dos mercados de ações e renda fixa no primeiro
semestre, corre o risco de gerar ainda mais ruído entre investidores caso
aumente as despesas em 2021, alertou Neri, PhD em Economia pela Universidade de
Princeton, nos EUA.
O auxílio
emergencial foi a iniciativa de maior vulto do governo na crise. Com valor de
R$ 600 de abril a agosto e de R$ 300 pelo restante do ano, terá um custo total
de R$ 321,8 bilhões em 2020, beneficiando mais de 60 milhões de pessoas por
mês.
O senador Ney
Suassuna (PRB-PB), membro da Comissão Mista de Orçamento, disse à Reuters que
não havia consenso sobre como financiar transferência de renda no próximo ano,
apesar da expectativa de que a crise da pandemia continue em meio a uma frágil
melhora no mercado de trabalho.
Como na maior
parte da América Latina, a pandemia reduziu o tamanho da classe média
tradicional, com 4,8 milhões de brasileiros deixando esse grupo devido à perda
de renda, disse Neri.
Milhões de
pessoas da classe média latino-americana estão sendo arrastadas de volta à
pobreza da covid-19, que atingiu o mercado de trabalho da região com mais força
do que em qualquer outro lugar do mundo. A pobreza deve voltar aos níveis de
2005 na América Latina.
Por Reuters
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