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| © Jeff Pachoud Bill Gates, fundador da Microsoft e copresidente da Fundação Bill e Melinda Gates, em 9 de outubro de 2019, em Lyon, França |
Enquanto o novo
coronavírus continua causando estragos em todo mundo, Bill Gates se tornou o
novo alvo dos adeptos das teorias conspiratórias, especialmente na África, onde
uma publicação nas redes sociais de um político queniano alimentou o fenômeno
da desinformação.
Os programas de
Gates para uma vacina provocaram todo tipo de especulação no continente, e a
disseminação de notícias falsas apenas aumentou durante a pandemia.
Em 15 de março,
o governador de Nairóbi, Mike Sonko, postou um vídeo antigo de Bill Gates, no
qual ele advertia para as consequências de uma futura pandemia, intitulado:
"Bill Gates já falou sobre o coronavírus em 2015".
Na gravação,
feita durante uma conferência TED há cinco anos, o filantropo explicou que o
mundo não estava preparado para um surto epidêmico global. Ele não mencionou o
coronavírus em momento algum.
O post de Sonko
provocou tantas interações entre seus mais de dois milhões de seguidores no Facebook,
que se tornou a publicação global mais prolífica sobre Gates desde o início da
pandemia de COVID-19, de acordo com a plataforma de rastreamento das redes
sociais CrowdTangle.
A postagem foi
compartilhada mais de um milhão de vezes e acumulou 38 milhões de visualizações
nas mídias sociais.
O caso mostra o
importante papel das figuras públicas locais na disseminação de informações
falsas, ou enganosas, em diferentes partes do mundo, de acordo com o Digital
Forensic Research Lab (DFRLab) do Atlantic Council, que estuda o fenômeno da
desinformação em nível global.
"Em geral,
(esse tipo de informação) viaja através de (...) comunidades-nicho quando um
influenciador, como uma celebridade de destaque, ou mesmo uma fonte de uma
grande mídia, as amplifica", disse Zarine Kharazian, do DFRLab.
"Quando
atingem esse nível de disseminação, espalham-se em vários idiomas",
acrescentou.
- "Elites
todo-poderosas" -
Os boatos sobre
os laços entre Gates e a atual pandemia têm sido alimentados pelos diferentes
grupos de teoria da conspiração em todo mundo desde que o vírus surgiu na
cidade chinesa de Wuhan, em dezembro de 2019.
Desde janeiro,
mais de 683.000 postagens no Facebook - tanto em páginas públicas quanto em
grupos - mencionavam Gates, levando a cerca de 53 milhões de curtidas,
compartilhamentos e reproduções.
"Uma
característica comum das teorias conspiratórias que atravessa fronteiras,
idiomas e culturas é a desconfiança das 'elites todo-poderosas' e das
instituições", explicou Kharazian.
"O perfil
proeminente de Gates, sua franqueza e seu compromisso ativo em trabalhos de
saúde pública em nível internacional fizeram dele um alvo de primeira ordem
para esse tipo de complô", acrescentou.
Entre as
reivindicações mais difundidas na África está o fato de Bill Gates querer
controlar a humanidade com microchips implantados, ou tatuagens digitais.
Os
conspiradores também garantem que Gates se beneficiará enormemente de uma
possível vacina e que sua fundação patenteou um tratamento anos atrás, antes de
liberar o novo coronavírus.
Outros
acreditam que ele criou o vírus para controlar a população, uma questão muito
sensível na África, onde muitos comentários negativos publicados on-line
sugerem que a vacina contra a COVID-19 poderia ser testada na população daquele
continente.
Parte dessa
reação pode ser explicada pelos abusos médicos por parte de países ocidentais
da África, disse Sara Cooper, cientista do Conselho de Pesquisa Médica do
Cochrane Center, na África do Sul.
"Nas
últimas décadas aconteceram vários incidentes de pesquisas médicas realizadas
na África, nos quais foram cometidas graves violações dos direitos
humanos", disse Cooper à AFP.
Uma série de
práticas que vão desde experimentos de esterilização forçada na Namíbia, no
final do século XIX, quando o país era uma colônia alemã, até testes de drogas
organizados por gigantes farmacêuticos em vários países africanos nos anos
1990.
A desconfiança
das vacinas ocidentais ficou evidente em uma publicação que viralizou
recentemente, alegando que o médico e cientista francês Didier Raoult havia
alertado os africanos para não usarem "a vacina Bill Gates", porque
tinha "veneno".
O serviço de
"fact-checking" da AFP desmentiu essa afirmação: Raoult nunca fez
esses comentários, e a vacina nem existe.
AFP

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