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| © picture-alliance/AP Photo/A. Wong Zhao Lijian, porta-voz do Ministério do Exterior chinês, ao anunciar a decisão de expulsar três jornalistas em fevereiro |
A China
anunciou nesta terça-feira (17/03) que decidiu expulsar do país jornalistas
americanos que trabalham em três grandes jornais dos Estados Unidos, numa das
medidas mais severas adotadas pelo governo em Pequim contra a imprensa
estrangeira na história recente.
Segundo o
Ministério do Exterior chinês, a decisão afeta cidadãos americanos que escrevem
para os veículos The New York Times, The Wall Street
Journal e The Washington Post com credenciais de
imprensa expirando até o final deste ano.
Esses
jornalistas deverão notificar o governo sobre sua condição dentro de quatro
dias a partir desta quarta-feira, e terão dez dias para devolver suas
credenciais de imprensa.
"Eles não
poderão continuar trabalhando como jornalistas na República Popular da China,
incluindo suas regiões administrativas especiais Hong Kong e Macau", disse
um comunicado.
Não ficou claro
quantos profissionais serão afetados pela medida, mas a China geralmente
concede vistos e credenciais de imprensa de 12 meses a jornalistas, então a
expulsão deve impactar a maioria dos correspondentes desses jornais no país.
A imprensa internacional
já prevê que a decisão deverá dizimar algumas das maiores redações estrangeiras
na China e forçar repórteres com décadas de experiência em cobrir o país a
deixarem o território chinês.
Pequim também
ordenou que os veículos Voice of America, New York Times, Wall
Street Journal, Washington Post e a revista Time "declarem
por escrito informações sobre seus funcionários, finanças, operações e imóveis
na China" – regras semelhantes às impostas recentemente à mídia estatal
chinesa por Washington.
O Ministério do
Exterior afirmou que as medidas "são inteiramente necessárias e
recíprocas", as quais a China "foi obrigada a tomar em resposta à
opressão irracional que as organizações de mídia chinesas vivenciaram nos
Estados Unidos". "São legítimas e justificadas em todos os
sentidos."
As medidas vêm
na esteira de uma disputa entre as duas potências sobre a pandemia do novo
coronavírus: enquanto o presidente americano, Donald Trump, chama de forma
provocativa o Sars-Cov-2 de "vírus chinês", uma autoridade do governo
da China promove teorias da conspiração infundadas sobre o envolvimento dos EUA
na propagação do vírus.
A polêmica teve
início em fevereiro, quando Pequim expulsou três correspondentes do Wall
Street Journal – dois americanos e um australiano – depois que o
jornal publicou um artigo de opinião chamando a China de "o verdadeiro
homem doente da Ásia".
O governo
chinês condenou a coluna como racista e, após o veículo se recusar a pedir
desculpas, decidiu revogar os vistos de três repórteres, mesmo sem eles terem
envolvimento na redação do texto. Outro jornalista do jornal teve que deixar o
país no ano passado após a China se negar a renovar seu visto.
Segundo o Clube
de Correspondentes Estrangeiros na China, foram as primeiras expulsões de
jornalistas estrangeiros promovidas pelo país asiático desde 1998.
Em retaliação,
no início de março os Estados Unidos anunciaram que estavam cortando o número
de cidadãos chineses autorizados a trabalhar nos escritórios americanos de
quatro grandes meios de comunicação estatais chineses: de 160 funcionários, a
cifra foi para 100. À época, Washington mencionou uma "repressão
aprofundada" contra a imprensa independente na China.
Um aspecto
marcante da resposta de Pequim nesta terça-feira foi a decisão de impedir que
esses jornalistas trabalhem também em Hong Kong e Macau, dois territórios
semiautônomos chineses com suas próprias regras de credenciamento de imprensa.
Em decisões passadas, jornalistas estrangeiros expulsos da China foram
autorizados a trabalhar em Hong Kong.
Isso levantou
questões sobre a autonomia de Hong Kong sob o acordo de "um país, dois
sistemas" que ainda prevalece entre o território e a China continental.
"Não há
precedentes de a China ditar abertamente quem pode e quem não pode trabalhar
como repórter a partir de Hong Kong", disse Steven Butler, coordenador do
programa asiático do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, uma organização
sem fins lucrativos. "Isso destrói muito seriamente a autonomia e a
liberdade de imprensa de Hong Kong."
O governo americano,
assim como representantes da imprensa dos EUA, condenou o anúncio chinês desta
terça-feira. O secretário de Estado, Mike Pompeo, afirmou que a expulsão dos
jornalistas privará o mundo e o povo chinês de informação em tempos
"incrivelmente desafiadores" provocados pela pandemia de coronavírus.
"Lamento a
decisão da China de impedir ainda mais a capacidade mundial de realizar
operações de imprensa livre que, sinceramente, seriam muito boas para o povo
chinês", disse Pompeo a repórteres. "É lamentável. Espero que eles
reconsiderem."
dw.com

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