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Van trafega pela Zona Oeste; até mesmo as
legalizadas recebem
dinheiro da
milícia, segundo o Ministério Público
(Foto: Bruno Albernaz/G1)
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Transporte
complementar, segundo a polícia, representa mais da metade do lucro dos
paramilitares. Secretaria de Transportes diz que faz fiscalização diária em
três turnos.
O combate às
vans irregulares do transporte público do Rio registrou, em 2017, no primeiro
ano da gestão de Marcelo Crivella (PRB), o pior marco desde 2013. Foi o menor
número de vans removidas, autuadas e lacradas, de acordo com dados da própria
prefeitura obtidos pelo G1.
Todos eles caíram. Foram 2.083 remoções de vans em 2016, contra 447 em 2017. A
redução é de 78,54%.
Com menos
punição, a queda pode representar um importante aumento do faturamento de
criminosos. De acordo com a polícia, o transporte complementar representa cerca
de 70% do lucro mensal das milícias.
O poder público
perde, inclusive, financeiramente. A obtenção de multas com o transporte
complementar caiu a R$ 3,5 milhões — quando já foi de R$ 8,9 milhões no ano retrasado.
Se as autuações bateram recorde em 2016, com 7.770, um ano depois foi menos da
metade: 3.067.
Remoção de
vans no Rio cai quase 80% em um ano
Ano
|
Remoções
|
Autuações
|
Lacres
|
R$ obtido
com multas
|
2013
|
2.949
|
2.487
|
793
|
R$
1.130.122,71
|
2014
|
5.217
|
6.272
|
1.311
|
R$
3.430.902,77
|
2015
|
4.203
|
6.473
|
1.317
|
R$
6.534.630,75
|
2016
|
2.083
|
7.770
|
265
|
R$
8.867.493,50
|
2017
|
447
|
3.067
|
69
|
R$
3.539.240,15
|
2018*
|
11
|
141
|
5
|
R$ 129.970,55
|
Fonte: SMTR,
obtidos pelo G1 * Dados válidos até 25/01/2018
- Remoção: van é levada para um depósito
público por, por exemplo, transporte irregular ou mau estado de
conservação.
- Autuação: infração do código de
trânsito, como trafegar acima da velocidade ou falta de documento.
- Lacre: quando a van que carrega
passageiros infringe algum decreto da lei de transporte complementar.
Como
mostrou o RJTV em janeiro, as cobranças dos milicianos sobre os motoristas de
vans variam entre R$ 350 e R$ 850 e ocorrem até mesmo com as
legalizadas. Ou seja, a extorsão vale para todos os veículos que fazem o
transporte complementar.
Mensalmente,
segundo o Ministério Público estadual, os criminosos que administram as vans em
Campo Grande e Santa Cruz lucram R$ 27 milhões. Somente nestes dois bairros da
Zona Oeste, onde moradores estão desesperados.
“O transporte
invadiu as ruas, vans piratas, ônibus caindo aos pedaços e a população fica no
meio disso tudo, não consegue mais ter um serviço de qualidade. Fiscalização,
ninguém vê, ninguém viu, não existe mais, ninguém fiscaliza. Enfim, nós não
sabemos mais o que fazer”, diz um deles.
Fiscalização
baixa prossegue em 2018
Em 2018, o
combate continuou fraco nos primeiros meses. Dados obtidos pelo G1mostram
que, em 2017, eram removidas cerca de 12 vans piratas por dia. Nos três
primeiros meses deste ano, a média diária ficou em três. No último dia 25, no
entanto, o
Detro apreendeu 33.
Mudanças
recentes na política de combate às vans irregulares também preocupam
especialistas em segurança pública. O delegado Cláudio Ferraz, que pediu
demissão do cargo de coordenador do transporte complementar na gestão de
Crivella, diz que encontrou a área sucateada.
"Perdemos
os reboques, os depósitos, chegamos a ficar sem combustível [nas viaturas de
fiscalização]. Tudo o que tinha sido pleiteado para fortalecer o que era
legítimo, evitando o vácuo que a criminalidade se aproveita da
desregulamentação, não foi feito".
A entrevista
foi concedida na sexta (27), um dia depois do retorno de todos os 22 policiais
militares à corporação. Eles estavam cedidos à prefeitura para ajudar no
combate às vans.
"É a pá
de cal desse projeto, agora é praticamente impossível combater as
irregularidades", diz Ferraz.
"A
estrutura foi feita com policiais e com agentes do Detro autuando como fiscais
exatamente para que tivesse a força com peculiaridade policial para fazer
frente ao segmento, que era extorquido por criminosos. Quando desprestigia essa
estrutura e retorna à inicial, comprovadamente ineficiente, você acaba com o
projeto. O histórico da operação antes dos policiais comprova a ineficiência do
fiscal", conclui.
Um dos
policiais que faziam o serviço também foi localizado pelo G1. Ele
pediu para não ser identificado e está pessimista sobre o futuro do programa.
“Sem a polícia,
vai ser inviável o trabalho da coordenadoria. Os fiscais não querem e nem será possível
acontecer. Eles têm muito medo de ir para algumas regiões sem a nossa presença.
Seja na Ilha do Governador, em Campo Grande, ou na Pavuna, a situação é bem
complicada. Ou é milícia, ou é tráfico. A van tem um cunho muito forte de
arrecadação desses grupos. E mesmo as vans regulares pagam taxa para circular
para o miliciano ou para o traficante”, explica o militar, que também recebeu
comunicado para retornar ao seu batalhão de origem.
Desolado,
Ferraz diz que, sem os policiais, o projeto só poderia dar certo com a ajuda de
super-heróis. "Tem que chamar a Liga da Justiça".
O nome é o
mesmo da milícia que domina a Zona Oeste. Ferraz, então, complementa,
confundindo os universos da Marvel e da DC: "A Liga Justiça da Marvel
(sic), porque a outra já está lá".
Esclarecimentos
da secretaria de Transportes
Em nota, a
Secretaria Municipal de Transportes informa que realiza fiscalização diária
sobre todos os modais de transportes públicos do município, em três turnos, com
o apoio da Secretaria Municipal de Ordem Pública e da CET-Rio.
A SMTR destaca
a "importância do registro de denúncias em relação aos serviços por parte
da população, com o objetivo de direcionar as ações".
Sobre a volta
dos PMs, a secretaria esclarece: "Com o retorno dos policiais militares,
que integravam o setor, à corporação, a SMTR estuda novas diretrizes para
intensificar a fiscalização. Desde o início da atual gestão, 173 vans
irregulares foram removidas e 2.998 autuações foram aplicadas por
irregularidades do modal".
Por Gabriel Barreira, G1 Rio

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