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Cela
superlotada no Complexo Penitenciário da Papuda, em
Brasília, em foto de 2017 (Foto: Ministério
Público/Divulgação)
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Todos os
outros países tem mais presos do que vagas. Levantamento também aponta altas
taxas de presos provisórios nas cadeias.
Apenas 1 dos 12
países da América do Sul tem menos presos do que vagas no sistema prisional,
segundo relatório feito com o apoio Pastoral Carcerária e obtido pelo G1.
Só o Suriname não tem superlotação; Bolívia e Peru são os países no continente
com maior excedente de presos.
A alta taxa de
presos provisórios acentua esse problema - em cinco países do continente, pelo
menos metade dos detentos ainda espera julgamento. O Brasil, apesar de não
liderar os números da superlotação ou da prisão provisória, tem a maior
quantidade de presos por 100 mil habitantes entre os países analisados – 352.
“Tudo isso
indica que existe um grande problema no Judiciário nesses países, um uso
abusivo muito forte da prisão provisória”, diz o advogado Almir Valente
Felitte, agente da Pastoral Carcerária e autor do Relatório Simplificado da
Situação Carcerária na América do Sul 2018. “As altas taxas de prisão
provisória demonstram tanto uma morosidade da Justiça de todos os países quanto
o forte conservadorismo do Judiciário no continente”.
Apesar de
algumas peculiaridades, os números fornecidos pelos governos apontam, segundo
Felitte, um sistema muito parecido em todos os países, com vários pontos
comuns, ampliados pela “cultura punitivista da América do Sul”.
Confira
abaixo alguns destaques do relatório.
Superlotação
A superlotação
é um problema grave na maior parte do continente. Bolívia e Peru lideram, com
289% e 231% de ocupação.
Apenas Suriname
tem mais vagas do que presos, ocupando 75% do sistema prisional. Apesar disso,
há mais surinameses presos na Holanda do que em seu próprio país natal – 3.200
contra 1.000, respectivamente -, o que demonstra que a questão prisional também
é um problema no país.
Superlotação
carcerária na América do Sul
Paraguai
% 199
% 199
Fonte:
Relatório Simplificado da Situação Carcerária na América do Sul 2018 - Pastoral
Carcerária
Prisão
provisória
Além de ser o
país com maior excedente de presos em relação ao número de vagas prisionais, a
Bolívia também aparece em terceiro lugar entre os países com maior porcentagem
prisões provisórias - 69,7%.
Paraguai, com
76% de presos aguardando condenação, e Venezuela, com 73% na mesma situação,
lideram a estatística no continente.
Presos
provisórios na América do Sul
Porcentagem de
presos aguardando julgamento por país
% de presos
provisórios na população
carcerária7676737369,769,768,968,95050494941,6841,6840,240,236,2136,2135,635,633,433,43030ParaguaiVenezuelaBolíviaUruguaiSurinameArgentinaPeruBrasilEquadorGuianaChileColômbia020406080
Peru
% 41,68
% 41,68
No caso da
Bolívia, Felitte aponta que o país já passou por uma reforma no processo penal,
justamente para reduzir as prisões provisórias.
“No entanto,
esse número cresceu absurdamente. Muitos estudiosos do país acreditam que esse
isso se dá muito pelo conservadorismo do Judiciário, e por uma tentativa de
atender uma espécie de clamor público, uma espécie de populismo penal”, afirma.
O Chile, que tem
uma das taxas de presos aguardando julgamento mais baixas do continente – 33,4%
- conseguiu uma redução nos últimos anos devido a uma reforma que facilitou a
implantação de medidas alternativas.
“Acho que é um
caminho a ser seguido para todos os países da América do Sul - tanto para a
prisão provisória quanto para penas alternativas”, diz o advogado. Em 2015, 42%
das sentenças condenatórias no país tiveram penas alternativas.
Presos por
100 mil habitantes
O Brasil lidera
a estatística, com 352 presos a cada 100 mil habitantes, seguido por Uruguai,
com 322, Guiana, com 278, e Peru, com 267.
O autor do
relatório, entretanto, ressalta que países com populações pequenas podem ter
dados distorcidos, pois é mais fácil que a taxa fique alta (caso do segundo e
terceiro colocados).
Presos a
cada 100 mil habitantes
Número por país
da América do Sul
Ainda assim,
nenhum país do continente pode ser considerado “não encarcerador”. “Se comparar
com países desenvolvidos da Europa, essa taxa na América do sul é mais de 100
acima. Alguns países têm taxa de 40, 50 presos a cada 100 mil habitantes. O que
tem menos aqui, a Bolívia, tem 148”, diz Felitte.
Classe e
gênero
Apesar da carência
de estatísticas sociais sobre os presos, alguns dados compilados permitem
apontar a vulnerabilidade pessoas mais pobres e como a guerra às drogas as
vitimiza - sendo as mulheres especialmente afetadas.
Em países que
possuem dados sobre o tipo penal das prisões, é possível ver que a porcentagem
de mulheres presas por tráfico de drogas é muito maior do que a de homens.
Prisão por
tráfico: geral x mulheres
Porcentagem de
mulheres presas por tráfico de drogas é maior do que a da população carcerária
total
A classe social
também tem impacto. No Peru, 57% dos presos trabalhavam anteriormente como
motorista, pedreiro ou agricultor – profissões normalmente de renda menor. Na
Argentina, 45% estavam desempregados antes da prisão.
Felitte ainda
destaca o alto número de encarceramentos por crimes não necessariamente
violentos. O tráfico de drogas, apesar de muitas vezes estar associado a crimes
violentos, não é em si classificado deste modo.
“Existe um
grande número de pessoas presas por pequenos furtos, crimes contra o
patrimônio. Com exceção da Argentina, não há um grande número de presos por
homicídio, sequestro, estupro. Não que eles não ocorram, a conta não fecha. Há
muitas pessoas presas por crimes não violentos e poucas por crimes violentos.”
O advogado fez o
levantamento com base em dados fornecidos por órgãos oficiais – e em alguns
casos de ONGs. A maior dos países se limita a levantar informações mais
básicas, sem dados sociais dos presos e até mesmo sem indicar o motivo da
prisão.
A atualização
das informações também é um problema – os dados do Brasil, por exemplo, são de
2016, enquanto Chile, Peru e Uruguai, entre outros, possuem informações sobre a
população carcerária atualizadas de 2017.
Por Juliana Cardilli, G1

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