Reforço
esperado de R$ 6,5 bilhões é mais que o dobro do destinado em 2015, quando a
arrecadação estava em baixa; especialistas alertam que é arriscado depender
dessa receita para bancar aposentadorias.
Mergulhado em
um rombo bilionário, o caixa da Previdência do Rio de Janeiro deve ganhar algum
fôlego em 2018, graças à maior
arrecadação com a produção do petróleo. O estado prevê destinar quase
75% da receita com os royalties para o fundo que paga as aposentadorias e
pensões dos servidores públicos estaduais, o Rioprevidência.
As informações
estão na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2018, que estima uma arrecadação total
de R$ 58,2 bilhões para o Rio de Janeiro, sendo 14,9% oriundos dos royalties e
participações especiais sobre a produção do petróleo.
Para
especialistas consultados pelo G1,
a receita com royalties é incerta e o Estado não deveria depender desses
recursos para pagar aposentadorias. Eles esclarecem, no entanto, que não é ilegal
usar os royalties para cobrir o rombo na Previdência, mas afirmam que o ideal
seria usar esses recursos para fazer investimentos, como obras de
infraestrutura (leia mais abaixo).
O G1 entrou em contato com o
governo do RJ, que solicitou que os questionamentos fossem encaminhados ao
Rioprevidência. O fundo, por sua vez, informou que a destinação dos royalties
do petróleo para o pagamento de aposentadorias e pensões de servidores está
previsto em decreto estadual de 2005.
Royalties são
os valores pagos pelas petroleiras à União e aos governos estaduais e municipais
dos locais produtores para ter direito a explorar o petróleo. Essas receitas
dependem do volume produzido, da taxa de câmbio e do preço internacional do
barril de petróleo.
Há anos o Rio
de Janeiro tem usado os recursos dos royalties para cobrir o rombo na
Previdência estadual. Mas o percentual dos royalties destinado a esse fim
aumenta ano a ano (veja gráfico abaixo).
Ao mesmo tempo,
o governo do RJ foi alvo de esquemas de corrupção que desviaram bilhões nos
últimos anos. Ações tomadas para favorecer empresas levaram a decisões
administrativas ruins, que junto aos desvios e à má gestão ampliaram o rombo
nas finanças do estado.
O Rio prevê
arrecadar R$ 8,7 bilhões com o dinheiro do petróleo neste ano, dos quais R$ 6,5
bilhões deverão ir para a Previdência dos servidores, aponta a última
estimativa da secretaria estadual da Fazenda.
Em valores
nominais, o reforço financeiro será mais que o dobro do valor repassado em
2015,
Alívio
momentâneo
Nos últimos
anos, as finanças do RJ e seus municípios, maior estado produtor de petróleo e
maior beneficiário na divisão dos recursos, se agravaram com a queda na
arrecadação dos royalties, derrubada pela redução do preço do petróleo no
mercado internacional.
Neste começo de
ano, o petróleo atingiu máximas em um período de três anos, e o barril do tipo
Brent voltou a bater a marca dos US$
70 pela 1ª vez desde o final de 2014. Também entrou em vigor em 2018 a nova
regra para o cálculo do preço do petróleo para royalties, que usará
novas referências de preços internacionais - para especialistas, isso deve
elevar a arrecadação.
Essas mudanças
trouxeram otimismo para o setor. A receita para o estado do RJ e municípios
fluminenses cresceu quase R$ 5 bilhões no ano passado (82%), saltando para R$
10,95 bilhões, calcula
o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
Especialistas
afirmam, no entanto, que o alívio trazido por essa "bonança" é apenas
momentâneo, visto que não há garantia de que a arrecadação vai se manter nos
anos seguintes, já que os ganhos do setor dependem de fatores voláteis, como o
preço do barril de petróleo e a cotação do dólar.
Uso dos
recursos
Com o terceiro
maior rombo do país entre os estados, a Previdência dos servidores do Rio de
Janeiro fechou 2016 com um déficit (receitas menores que despesas) de R$ 10,2
bilhões, perdendo apenas para São Paulo e Minas Gerais, segundo o Tesouro
Nacional. Os números de 2017 ainda não foram consolidados.
“O fundo dos
servidores é deficitário, então claramente boa parte [da arrecadação com os
royalties] é usada para pagar os gastos obrigatórios com aposentadorias e
pensões”, afirma o especialista em finanças públicas Fábio Klein, da Tendências
Consultoria.
A lei nacional
proíbe o uso dos royalties para gastos correntes do governo, como a folha de
pagamentos de servidores ou despesas administrativas. Mas há duas exceções:
- pagar as dívidas com a União
- vincular esta receita à Previdência dos servidores
“Tais exceções
não são ilegais, mas ferem a ideia geral de que um recurso finito deveria ser
aplicado em gastos que gerassem riqueza para o futuro, como investimentos em
infraestrutura”, afirma o pesquisador do IBRE/FGV e professor do iDP, José
Roberto Afonso.
Apesar de boa
parte da receita dos royalties estar destinada para cobrir a Previdência, o
orçamento de 2018 prevê um significativo aumento nos investimentos. Em 2017, a
despesa de investimento estimada na LOA era de R$ 4,71 bilhões. Na LOA 2018, a
despesa de investimento calculada foi de R$ 7,73 bilhões – 63,89% a mais que no
ano anterior.
Na visão do
coordenador de Estudos da Área de Petróleo do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), José Mauro de Morais, embora a lei permita destinar os royalties
para a Previdência, o uso do recurso para este fim não é racional.
“A
literatura econômica recomenda que os recursos do petróleo sejam aplicados em
investimentos com alguma sustentabilidade para o futuro, para que ela dê
respaldo ao estado ou município quando o dinheiro dos royalties ficar escasso”,
afirma Morais.
Afonso
acrescenta que toda melhora de arrecadação reduz o déficit do estado. "A
dúvida é que se trata de receita muito volátil, pois os preços sobem e caem,
com forte oscilação, em pouco tempo. Ideal seria não depender tanto dessa
receita”, diz.
Um estudo feito
pelo economista Adriano Pitoli, da Tendências Consultoria, prevê que a receita
dos royalties no estado do RJ ficará acima dos R$ 10 bilhões a partir de 2019,
até chegar a R$ 11,9 bilhões em 2022, estimulada pela maior produção do
petróleo, pela expectativa de elevação dos preços globais e de queda do real
frente ao dólar.
Para Klein, da
Tendências, apesar da boa perspectiva, a decisão de atrelar os recursos futuros
de royalties à Previdência, um gasto permanente, gera riscos. “O risco é gerar
um desequilíbrio brutal se houver uma queda nos preços do petróleo, o que já
aconteceu no passado.”
Corrupção e
desvios
Em meio ao
rombo, o RJ foi alvo, nos últimos anos, de esquemas de corrupção que, segundo o
Ministério Público Federal (MPF), desviaram bilhões de reais. Na gestão do
ex-governador Sérgio Cabral – atualmente preso –, procuradores constataram
desvios em todos os setores do governo.
Em uma de suas
denúncias na operação Lava Jato, Cabral é acusado de ter recebido R$
1,5 bilhão de propinas entre janeiro de 2007 e abril de 2014.
Em um único
esquema de corrupção envolvendo empresas de ônibus, os valores pagos chegam
a R$
260 milhões entre 2010 e 2016 – segundo o MPF, apenas Cabral
recebeu R$ 122 milhões.
De acordo com a
Polícia Federal, benefícios fiscais “excessivos” a empresas fizeram com que
o estado
deixasse de receber mais de R$ 138 bilhões desde a década de 1990.
Decisões administrativas ruins – como desonerações não justificadas, além do
favorecimento – aliadas à má gestão acabaram ampliando o rombo nas finanças do
estado, diz o cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio.
“Decisões
equivocadas vão gerando uma ineficiência econômica. Mas, mesmo se estancar
completamente a corrupção, você não resolve a crise fiscal, porque há um desequilíbrio
na Previdência, um comprometimento da receita com o funcionalismo,
desequilíbrios estruturais”, diz o especialista.
Segundo Ismael,
o governo do RJ e os municípios beneficiados pelos royalties não deveriam ter
problemas de finanças públicas. “Deveriam estar fazendo um balanço dos recursos
recebidos e da melhoria que houve nos investimentos. O que de fato mudou no
IDH, na infraestrutura, na questão ambiental? Termina caindo em um buraco. Esse
dinheiro termina sendo mais um que está sendo mal administrado.”
Por Taís Laporta e Juliana Cardilli, G1

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