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O presidente
Michel Temer e o então ministro da Cultura, Marcelo Calero,
durante a
cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural,
em Brasília
(Beto Barata/PR)
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Em entrevista ao
"Fantástico" neste domingo, o ex-ministro da Cultura confirma que
gravou conversas com o presidente Temer e alguns de seus ministros
“Ficou patente que altas autoridades da
República perdiam tempo com um assunto absolutamente paroquial.” Com esse
desabafo, o diplomata Marcelo Calero justificou a decisão de
pedir demissão do cargo de ministro da Cultura, detonando uma crise aguda que
já se arrasta há mais de uma semana no governo do presidente Michel Temer. Em
entrevista ao Fantástico deste domingo, Calero deu sua versão
sobre os fatos que cercaram a saída do governo, motivada pela pressão que teria
sofrido do colega Geddel Vieira Lima para liberar a construção
de um edifício de alto padrão em Salvador, no qual Geddel teria adquirido um
imóvel.
O empreendimento foi embargado
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por estar
localizado em área tombada como Patrimônio Cultural da União. A denúncia
acabaria envolvendo o nome do próprio presidente e resultaria na demissão de
Geddel do cargo de ministro da Secretaria de Governo.
No programa da Globo, Calero
confirmou que fez gravações de conversas com nomes importantes da cúpula do
governo – inclusive o presidente. Calero pediu demissão na sexta-feira (18) e,
na quarta-feira (23), prestou depoimento à Polícia Federal e disse que o
presidente Michel Temer o havia “enquadrado” e sugerido uma saída por meio da
Advocacia-Geral da União para o caso. Por meio do porta-voz Alexandre Parola,
Temer disse que buscou “arbitrar conflito” entre ministros e negou que ter
pressionado Calero por uma saída para o caso. Temer voltou a falar sobre a
questão em entrevista coletiva concedida na manhã deste domingo, quando já
estavam no ar as chamadas anunciando a entrevista de seu ex-ministro no Fantástico.
Temer classificou de “indigno” um possível ato de gravar suas conversas.
Na conversa com a repórter Renata
Lo Prete, o ex-ministro Calero disse que, “até por sugestão de alguns amigos na
Polícia Federal”, gravou várias ligações telefônicas para se municiar de
elementos nas denúncias que faria. Só uma dessas gravações – de conteúdo
“protocolar”, nas suas palavras – teria sido com Temer. “Foi a conversa da
minha demissão”, disse. Quando questionado pela jornalista se também teria
gravado Geddel e o ministro-chefe da casa Civil, Eliseu Padilha, Calero foi
evasivo: “Não posso responder a essas perguntas” – segundo ele, para não
prejudicar a investigação em curso.
Calero se queixou de ser alvo do
que chamou da “boataria” de que teria pedido uma segunda audiência com Temer no
mesmo dia só para gravar a conversa. “Por ser diplomata, eu jamais entraria no
gabinete presidencial para fazer isso”, declarou.
Segundo Calero, em uma conversa
inicial com o presidente, ele teria saído contente por achar que Temer havia
lhe dado razão. Num segundo encontro menos de 24 horas depois, no entanto, ele
teria se decepcionado ao ouvir o presidente falar em outro tom: “Marcelo, eu
tenho muito apreço por você, mas essa decisão do Iphan nos causou
bastante estranheza.” De acordo com Calero, o presidente reclamou que a
decisão do Iphan teria causado “dificuldades operacionais” ao governo. A
repórter então perguntou o que queriam dizer as tais “dificuldades
operacionais”. “Ele não explicou, disse apenas que decorriam do fato de que o
ministro Geddel teria ficado muito irritado.” Temer teria recomendado, ainda,
que o caso fosse encaminhado à Advocacia-Geral da União. E ensinou: “Marcelo, a
política tem dessas coisas.”
Na entrevista, Calero rejeitou
insinuações de que teria sido desleal. “O servidor tem de ser leal, mas não
cúmplice”, disse. “Me choca ver que interesses particulares ainda
prevaleçam”, adicionou. Por fim, ele deu sua interpretação para as razões da
crise: “Eles acharam que eu faria qualquer coisa para preservar meu cargo de
ministro. Mas não faria nada que não concorde, por cargo nenhum.”

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