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Masih chegou
ao Brasil sem saber que língua se falava aqui no país.
Os problemas
de Masih começaram em 2009 quando não aceitou
se converter
ao islã (Foto: Gui Christ/BBC)
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Pastor fugiu do Paquistão, onde
cristãos são apenas 2,59% da população, e teve que deixar família inteira para
trás, sem sequer saber que língua se falava no Brasil.
Três anos atrás, S. Masih vivia em
uma cidade no Estado de Punjab, no sudeste do Paquistão, onde era o principal
pastor de uma igreja presbiteriana com 3 mil membros. Vestia-se bem, tinha 10
auxiliares e morava com os três filhos pequenos e a mulher.
Hoje, ele é pastor assistente em
uma igreja na Penha, bairro da zona leste de São Paulo. Chegou ao Brasil sem a
família, com visto de turismo, mas recebeu o status de refugiado — fugiu da
perseguição religiosa em seu país, onde os cristãos representam 2,59% da
população.
Nos últimos anos, a comunidade
cristã paquistanesa foi alvo de diversos atentados terroristas. O maior deles,
na Páscoa de 2015, deixou 17 mortos e dezenas de feridos. Dois anos antes, um
atentado a uma igreja matou 80 pessoas.
No momento, o pastor aguarda por
uma autorização para sair do país pela primeira vez desde que chegou. Quer
voltar ao Paquistão para resgatar sua família e rever a mãe, que está doente.
Para toda a operação, calcula que precisará de R$ 35 mil, quantia que ainda não
conseguiu arrecadar.
Masih, 41 anos, pediu que não
fosse identificado por medo de represálias a sua família. Contudo, revelar seu
último nome não é um problema: no Paquistão a maior parte dos cristãos tem o
mesmo sobrenome, que é conferido pelo Estado.
"Não escolhi o Brasil. Eu não
conhecia nada daqui. Tinha pedido visto para a Tailândia, porque era mais perto
e mais fácil, mas minha avó morreu na época e o visto venceu. Mas eu precisava
sair", disse o refugiado que já fala português, entrevistado pela BBC
Brasil em uma tarde de agosto.
Perseguição
Os problemas do pastor começaram
em 2009, quando recebeu em seu escritório na igreja um homem que o convidou a
se converter ao islã. Ele negou. "Fui educado, porque no Paquistão você
não pode xingar", disse Masih. A necessidade de polidez não era apenas por
educação, era medo de ser acusado de blasfêmia, um crime para o qual a punição
pode ser a morte.
"Ele voltou duas ou três
semanas depois e falou a mesma coisa. Na terceira vez, ele me disse: 'te
ofereci o islã três vezes e você o desonrou três vezes. Agora, fique pronto
para as consequências."
A pressão veio rápido: duas
semanas depois do último encontro, Masih recebeu uma carta do tribunal local no
qual o ofendido exigia que o pastor lhe pagasse US$ 70 mil (cerca de R$ 220
mil) pela ofensa cometida. Ele teve dificuldades em conseguir um advogado,
pois, segundo conta, ninguém queria defender um cristão.
O caso se arrastou no tribunal por
quatro anos até que o juiz decidiu por um valor menor, algo dentro das
possibilidades de Masih. O perseguidor, porém, não queria o dinheiro, mas a
conversão. No começo de 2013, ele conta ter sido agredido.
"O meu acusador chamou um
bando de fanáticos que me atacaram na minha casa. Me bateram na frente dos meus
filhos e da minha esposa. Quando cansaram, disseram que iriam me acusar de
blasfêmia". O risco se tornara grande demais para ficar no Paquistão.
O relatório 2015/2016 da ONG
Anistia Internacional diz que Punjab é o Estado paquistanês onde as leis sobre
blasfêmia são empregadas com maior vigor, sendo "desproporcionalmente
usadas contra as minorias religiosas". O caso mais famoso é o de uma
cristã chamada Asia Bibi, condenada à morte em 2010. O então governador de
Punjab, Salman Taseer, a apoiou publicamente e acabou morto por um de seus
seguranças, posteriomente condenado e executado. Bibi segue presa.
Brasil
A ideia de sair do país partiu da
esposa. A sugestão do lugar, o Brasil, veio um amigo padre. Era a época da Jornada
Mundial da Juventude e da visita do papa Francisco, o que tornava mais fácil
conseguir um visto de turista. Masih chegou ao Rio de Janeiro sem nem saber que
língua os brasileiros falavam.
"Quando eu estava saindo do
Paquistão, minha mãe me perguntou: 'onde é o Brasil? Fica na Inglaterra? Na
Arábia?'. Respondi que era longe. Ela me perguntou se eu conhecia alguém lá e
eu respondi: 'Sim, Jesus.'"
Masih saiu do aeroporto do Galeão
com US$ 13 mil (cerca de R$ 41 mil) numa maleta, pegou um táxi e o motorista o
levou até um hotel na Lapa. Cobrou R$ 80 pela corrida. Depois o levou a uma
igreja presbiteriana no bairro Santíssimo ao custo de R$ 200.
"A igreja era pequena, mas
eles me acolheram rapidamente sem me questionar. Me deram uma casa e, depois de
seis meses, comecei a dar aulas de inglês. Também fui apresentado como
missionário e recebi muitos convites de pregação em outras igrejas".
Um desses convites o levou a
Natal, no final de 2014, onde conheceu o pastor Amaury Costa de Oliveira, que
há cinco anos acompanha as igrejas perseguidas na Ásia e Oriente Médio e que se
interessou pela história de Masih. Ficaram amigos e o pastor brasileiro
convidou o paquistanês para trabalhar em seu ministério, na Igreja
Presbiteriana da Penha.
"Ele teve uma boa aceitação na
igreja. Quando escutam a história dele, as pessoas o acolhem bem. Masih acaba
conscientizando os fiéis sobre o que acontece com os cristãos em outros lugares
do mundo", disse Oliveira.
Agora, Amauri, em colaboração com
a ONG Preparando o Caminho, é um dos responsáveis pela arrecadação de fundos
para ajudar o refugiado paquistanês a voltar ao seu país, onde vai buscar sua
família. Masih vai passar pelo menos um mês na sua terra natal e reencontrar a
mãe. "Ela quer ficar lá, mas pediu para me ver uma última vez".
O pai ele perdeu no ano passado.
"O dia que ele faleceu me machucou muito. Você deixa seu pai, ele te dá um
abraço e um beijo de despedida, com a promessa de um reencontro em breve. Mas
ele não estará mais lá. A perseguição destrói tudo dentro de você."
Quando retornar ao Brasil depois
da visita ao Paquistão, Masih vai seguir pregando no templo da Penha e vai
morar por um tempo com a família em uma casa de passagem que está sendo
construída ao lado da igreja. Dois dos pedreiros são jovens cristãos paquistaneses
e também pediram para que o nome não fosse revelado. O sobrenome de um deles
pode ser divulgado sem risco — também é Masih.
De São Paulo para a BBC Brasil

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