Polícia Federal faz buscas na
empreiteira Odebrecht, em São Paulo, durante a 23ª fase da Operação Lava Jato,
iniciada na manhã desta segunda-feira (22), intitulada 'Acarajé'(VEJA.com/Folhapress)
Investigada na Operação Lava Jato
por desviar recursos da Petrobras, a Odebrecht fez pagamentos no Brasil a uma
empresa da enteada do publicitário João Santana. Os repasses, feitos entre 2013
e 2014, ano eleitoral, somaram 134 652 reais. A empreiteira contratou a Digital
Pólis, de Alice Moura Requião, cinco meses após a abertura da empresa, que atua
no concorrido mercado de webdesign, criação de sites, blogs, campanhas
publicitárias e gestão de redes sociais.
A Digital Pólis também prestou
serviços em 2014 à campanha de Alexandre Padilha (PT) ao governo de São Paulo.
Ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o candidato registrou ter pago 4 milhões
de reais pelo serviço de "criação e inclusão de página na internet".
Em nota no entanto, a empresa disse que "a campanha lhe pagou 1,4 milhão
de reais".
Alice Requião é filha de Mônica
Moura, investigada juntamente com o marido, João Santana, na Operação Lava Jato
por supostos pagamentos ilegais recebidos da Odebrecht. O casal está preso na
Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Há suspeita de que o dinheiro
tenha sido desviado de contratos da empreiteira com a Petrobras.
Ano passado, João Santana e Mônica
disseram que a empresa da enteada não tem relação com a deles e que autorizaram
o uso do nome "Pólis" como "ajuda familiar, já que haveria um
óbvio aporte de imagem à empresa iniciante". A assessoria do casal,
procurada novamente na semana passada, reiterou as informações.
Questionada sobre os repasses à
Digital Pólis, a Odebrecht informou, no entanto, que firmou "contratos
pontuais de publicidade com empresas de João Santana". O marqueteiro e sua
mulher admitiram à Polícia Federal ter recebido recursos de campanha da
Odebrecht no exterior. Mas não reconhecerem pagamentos da construtora no
Brasil, o que está sendo apurado pela Lava Jato.
Desde sua criação, em julho de
2013, até maio do ano passado a Digital Pólis recebeu 2,3 milhões de reais em
pagamentos. A empresa sustenta que, do total, 76% vieram de campanhas e 24% de
"clientes privados", entre eles a Odebrecht. No período, foram três
grandes contratantes: a empreiteira, a campanha de Padilha e Pólis Propaganda e
Marketing, de Santana e de Mônica, que pagou 401 838 reais por supostos
serviços.
A Digital Pólis recebeu da
Odebrecht Realizações Imobiliárias (35 mil reais), da Odebrecht Ambiental (60,8
mil reais) e da Ótima Concessionária de Mobiliário Urbano, empresa do grupo da
empreiteira (39 mil reais). O pagamento no ano eleitoral de 2014 foi para a
Odebrecht Ambiental, no valor de 35,8 mil reais. Em nota, empresa justificou
que os recursos se referem a serviços de website e apresentações multimídia,
efetivamente prestados. O grupo Odebrecht confirma os contratos.
As empresas de Mônica e Santana
dizem atuar apenas para campanhas políticas. Ao contrário da Digital Pólis, que
atende empresas privadas e campanhas. Segundo fontes do mercado publicitário,
costuma ocorrer de empresas privadas pagarem diretamente às agências por
serviços ou prestadores de serviços que deveriam receber das campanhas por meio
de simulação de contratos.
A Lava Jato descobriu que Mônica e
João, por exemplo, aceitaram receber diretamente da Odebrecht por dívidas de
campanha realizadas em Angola, Panamá e Venezuela por meio da offshore
Shellbill. Extratos enviados pelos Estados Unidos sobre a conta no Citibank por
onde a Shellbill movimentava dinheiro revelaram que outra filha de João
Santana, Suria Santana, e seu genro Matthew Pacinelli receberam dinheiro dessa
conta.
Enteada - O nome de
Alice aparece em e-mails apreendidos pela Lava Jato. Ela e sua mãe informam o
endereço de um apartamento em Nova York ao fazer compras via internet. O imóvel
foi comprado por uma offshore que seria do casal.
Questionada sobre os repasses à
Digital Pólis, a Odebrecht informou que empresas de seu grupo "firmaram
contratos pontuais de publicidade com empresas de João Santana" e que,
"entre os serviços prestados, estão produção e edições de filmes,
consultoria, criação visual e produção de apresentação institucional
multimídia, gerenciamento de conteúdo digital, entre outros". A empresa
explicou ter feito pagamentos à Digital Pólis até dezembro de 2014.
A assessoria da Pólis Propaganda e
Marketing, empresa de João Santana e Mônica Moura, informou que a empresa
"não trabalha - e nunca trabalhou - com empresas privadas" e que
"João Santana trabalha 'rigorosamente dentro da legalidade'." A
empresa reforçou que a Digital Pólis "não pertence a João Santana e
Mônica" e que a Pólis "sempre funcionou exclusivamente como
contratante da Digital", sem "nunca receber qualquer repasse da
Digital".
A Digital Pólis informou que
nenhum dos serviços prestados "a empresas privadas teve a mínima
influência ou participação de João Santana". Um dos trabalhos, realizados
para a Odebrecht Realizações Imobiliárias, teria sido indicação do então diretor
de criação da Pólis Propaganda, Marcelo Kértész, irmão de um dirigente da
empreiteira. A empresa apresentou notas fiscais de todos os serviços prestados
para a empreiteira, que se referem a apresentações multimídia para eventos de
fim de ano e produção de website.
Procurada na última sexta-feira, a
Digital informou que não comentaria mais sobre o assunto. Alexandre Padilha
informou ter contratado os serviços da Digital Pólis na campanha de 2014 por 4
milhões de reais, mas que pagou somente 1,4 milhão de reais. Segundo a
assessoria do petista, a diferença ficou inscrita como dívida e está sendo
quitada aos poucos, mensalmente, pelo partido.

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