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O empresário
Benedicto Barbosa da Silva Junior, presidente
da
Construtora Odebrecht
(Foto: Holanda
Cavalcanti / Mário Grisolli/Divulgação)
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Benedicto Barbosa da Silva Junior,
de 55 anos, passou trinta deles na Odebrecht. Entrou como trainee, recém-saído
da Escola de Engenharia Civil de Lins, no interior de São Paulo, e tornou-se
presidente da Construtora Norberto Odebrecht (CNO) - terceiro nome na
hierarquia do grupo, considerado o patrimônio da divisão que comanda. Nesse
período, construiu não apenas uma carreira de sucesso, mas também uma relação
de proximidade com o herdeiro da gigante, Marcelo Odebrecht. Alvo da Acarajé,
23ª fase da Operação Lava Jato, Barbosa juntou-se ao chefe novamente nesta
semana, ao ser preso pela Polícia Federal. Ele foi solto na tarde desta
sexta-feira após expirar o prazo de cinco dias da prisão temporária.
Foi justamente a proximidade com
Odebrecht que contribuiu para levar BJ, como o executivo é mais conhecido, para
trás das grades. Segundo os investigadores, há indícios de que Barbosa era quem
fazia a ponte entre a empresa e os políticos, o homem a ser "acionado"
quando houvesse necessidade de intermediação de autoridades públicas. "É
possível verificar que Benedicto é pessoa acionada por Marcelo para tratar de
assuntos referentes ao meio político, inclusive a obtenção de apoio
financeiro", diz inquérito da PF assinado pelo delegado Filipe Hille Pace.
Segundo o advogado Nélio Machado,
em depoimento na quarta-feira, BJ explicou à PF como a Odebrecht repassou
recursos - segundo ele, legais - aos políticos. "Ele explicou como é que
se faz. Durante décadas as empresas fizeram doações eleitorais, é um critério
plural", disse o defensor. Em decisão desta sexta, o juiz federal Sergio
Moro decidiu liberá-lo, com a ressalva de que ele não pode sair do país nem
mudar de endereço. "Apesar apesar de seu posto executivo elevado no Grupo
Odebrecht, consta que, aparentemente, os principais executivos da empresa
envolvidos com as operações financeiras secretas já se encontram presos
cautelarmente", escreveu Moro.
O principal fundamento do pedido
de prisão apresentado pelo Ministério Público Federal é o de que, assim como
Marcelo, BJ teria pleno conhecimento do esquema criminoso instaurado na
Petrobras. "No curso das investigações relacionadas ao Grupo Odebrecht,
foi possível identificar outros executivos que se encontravam proximamente
vinculados ao presidente Marcelo Bahia Odebrecht, e sob os quais pairam
indícios de que tenham ativamente participado da organização criminosa formada
no âmbito daquele conglomerado empresarial para a prática de ilícitos penais.
Um deles é Benedicto Barbosa da Silva Junior", diz o texto.
BJ teve uma carreira meteórica na
Odebrecht. Em apenas quatro anos, foi de trainee a gerente de contrato.
Especializou-se em obras de alta complexidade, como hidrelétricas e metrô -
chamavam-no quando era preciso resolver questões "irresolvíveis". Era
conhecido pelos outros funcionários como alguém de "linha de frente",
que preferia visitar os canteiros de obras a ficar trancado no escritório no
Rio de Janeiro. No seu vasto portfólio, destacam-se a construção do metrô de
Copacabana, no Rio, e a Usina de Três Gargantas, na China, uma das maiores do
mundo.
Além disso, foi diretor
superintendente da empresa no Sudeste Asiático, trabalhando de Kuala Lumpur,
capital da Malásia. Em 2008, tornou-se presidente da CNO, ficando encarregado
das - controversas - obras da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
Torcedor fanático do Corinthians, cuidou pessoalmente da construção da arena do
seu time de coração, em São Paulo. Junto com um consórcio formado com a Andrade
Gutierrez, também foi responsável pela reforma do Maracanã.
Em um texto publicado pela agência
Odebrecht, Júnior é apresentado como mais um do "bando de loucos" -
referência a um canto da torcida organizada do Corinthians. Ele, inclusive,
aparece em fotos com o ex-presidente do clube Andres Sanchez e o ex-presidente
Lula, também corintiano, na época de fechamento do contrato entre a empresa e o
clube. Outra matéria conta que o seu escritório é decorado com uma camisa do
time preto e branco e miniaturas de trator. Em outro texto, intitulado
"Relatos Inspiradores", ele chega a falar sobre a sua relação com o
herdeiro da companhia. "Agora tenho contato com o Marcelo Odebrecht, que
complementa minha visão empresarial com seu arrojo", diz na publicação.
Pelos diálogos interceptados pela
PF, o contato de BJ com Marcelo parece ir além de uma mera relação empresarial.
Apesar de separados por cerca de 400 quilômetros - Marcelo ficava em São Paulo,
e ele, no Rio -, os dois parecem manter um contato constante, principalmente
sobre assuntos políticos. Trocam entre si elogios e "xingamentos",
repassam vídeos humorísticos do Youtube, comentam "erros" da
presidente Dilma Rousseff no debate eleitoral, falam de parlamentares e até
especulam sobre os rumos da Lava Jato - obviamente, antes de Marcelo ser preso
na Erga Omnes. "Vi agora. Pela hora que você chegou às 10h30 podia ter
subido! Não atrapalha nunca, pelo contrário facilita e ajuda!", diz uma
mensagem de Marcelo a BJ após ele, aparentemente, ter esperado para ser
recebido pelo então presidente da holding.
Como os parlamentares têm foro
privilegiado, a PF precisou esconder com tarja preta os nomes dos parlamentares
que surgem aos montes nas mensagens - eles foram ocultados em ao menos dez
vezes. O único que aparece sem a rasura é a sigla SCF referente ao
ex-governador do Rio Sérgio Cabral Filho, segundo a PF. "Vc acabou não
falando depois. Está preocupado com SCF e outros no tema MF?", pergunta
Marcelo, sobre o envolvimento de outro executivo afastado da companhia Márcio
Faria com o ex-governador. Benedito, então, responde: "Ok. Preciso
resolver 100 mil (nome de algum político com foro). Vou aproveitar este momento
PT/PSDB". Marcelo diz: "Não entendi. Depois você me fala
seguro". Com a última mensagem, a PF constatou que a dupla mantinha um
canal de comunicação restrito para tratar de temas "escusos".
Na época das eleições
presidenciais de 2014, Marcelo envia a BJ um vídeo do Youtube que satiriza a
presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves. "Muito divertido",
comenta. Na sequência, a dupla cita a página Dilma Bolada seguida pela frase
"DR pagou 1 mi", escrita por BJ. "Exato", responde o chefe.
A PF levantou a suspeita de que os dois falam sobre o pagamento a
"pseudohumoristas", conforme escreveu o delegado, "visando a promoção
de ataques a outros candidatos". O juiz federal Sergio Moro também
destacou, em despacho, que a PF identificou duas reuniões entre BJ e o
ex-ministro José Dirceu em outubro de 2010 e abril de 2011.
Com uma carreira invejável, BJ
ganhou, em janeiro de 2014, o prêmio "O Equilibrista" do Instituto
Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF). Segundo nota do instituto, a
homenagem é uma espécie de "Oscar do setor". Nos registros da Câmara
Municipal de Lins, também consta que Júnior ganhou o título de "Cidadão
Benemérito" da cidade por seus "relevantes serviços prestados ao
município".
A alcunha BJ também aparece com
recorrência em uma planilha associada a valores, que foi apreendida em um
e-mail secreto do ex-executivo da Odebrecht Fernando Migliaccio, preso na Suíça
enquanto tentava retirar dinheiro de contas bancárias. Segundo as
investigações, a tabela trata de repasse de dinheiro a partidos políticos,
especialmente ao PT. A defesa de BJ disse que ele não "tem condições"
de falar sobre a planilha, pois a desconhece totalmente.
"Marcelo Bahia Odebrecht é o
verdadeiro gestor de tais 'créditos'. Benedicto Barbosa Júnior, por sua vez,
desempenha posição igualmente relevante na administração da conta, basta
lembrar que na planilha a sigla 'BJ' é a que apresenta as maiores cifras, sendo
permitida a conclusão de que a maior parte de recursos espúrios eram originados
da área dentro da Odebrecht controlada por Benedicto", diz o inquérito.
Esta não é a primeira vez que
Benedicto Barbosa Júnior é citado na Operação Lava Jato. Em uma troca de
mensagens entre o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o
ex-presidente da OAS Leo Pinheiro, seu nome é mencionado pelo peemedebista como
alguém capaz de ajudar a resolver problemas. "Tive com Júnior e pedi para
ele doar por vc ao Henrique (Eduardo Alves). Ele, então, recebe um
"OK" de Leo Pinheiro. "Tocando com Júnior aqui, na pressão. Ele
vai resolver e se entende com vc", responde Cunha. BJ também está na lista
de presenteados de Pinheiro. O executivo da OAS tinha o hábito de presentear
parlamentares, ministros e empreiteiros em datas comemorativas. Para Júnior,
ele deu uma biografia do jogador argentino Lionel Messi.
Em nota, a Odebrecht classificou a
prisão de BJ como "medida extrema e injusta" e ressaltou que ele
sempre esteve à disposição para prestar esclarecimentos à Lava Jato. No seu
lugar, entrou em caráter interino o engenheiro Carlos Hermanny Filho.
Confira a nota da Odebrecht na
íntegra:
A Construtora Norberto
Odebrecht esclarece que Benedicto Barbosa da Silva Junior sempre esteve à disposição
para colaborar com as investigações em curso, sendo sua detenção uma medida
extrema e injusta. Em seu lugar, para desempenhar interinamente as funções de
líder empresarial, foi designado o engenheiro Carlos Hermanny Filho. Ambos
ingressaram na empresa ainda como estagiários, na década de 80, tendo
participado de importantes obras no país e no exterior. A CNO dispõe de sólido
sistema interno de compliance, alinhada com os mais rigorosos padrões
internacionais. A empresa reafirma sua confiança na Justiça, com a firme
disposição de atuar para o esclarecimento de qualquer fato ou dúvida.
(Com contribuição de João
Pedroso)

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