Uma votação passar da meia-noite
no parlamento grego não é algo incomum. Mas, desta vez, os deputados
ultrapassaram todos os limites: apenas às 4h30 (horário local) desta
quinta-feira (23/07) o resultado da votação sobre o segundo pacote de reformas
exigido pela zona do euro ficou claro: 230 votos a favor, 63 contra e cinco
abstenções.
Com isso, o primeiro-ministro
Alexis Tsipras parece dispor de uma ampla maioria no parlamento para dar
continuidade ao processo de reformas. O chefe de governo, no entanto, não conta
com o apoio integral do próprio partido, o Syriza – 36 deputados da legenda de
esquerda radical votaram contra as medidas. Tsipras só pôde levar adiante as
exigências de reforma com a ajuda da oposição.
O voto de Varoufakis
Tsipras havia passado pela mesma
situação na semana passada, durante a votação do primeiro pacote de austeridade
imposto pelos credores. Na ocasião, 39 deputados do Syriza disseram não às
reformas.
Por fim, parlamentares próximos a
Tsipras acabaram por aumentar a pressão sobre o "movimento rebelde"
dentro do partido, fortalecendo o líder da legenda. Mas com um sucesso modesto,
afirma o analista político Pavlos Tsimas. "No geral, não tivemos nenhuma mudança
significativa em comparação com a semana passada", afirmou em entrevista a
um canal de televisão grego.
Apenas o ex-ministro das Finanças
Yanis Varoufakis, que ensaiou uma insurreição na primeira votação, desta vez
votou a favor do corte de gastos. "O fato de justamente Varoufakis ter
concordado com o sim é a maior surpresa da noite e também um grande ganho para
Tsipras – se é que se pode designar Varoufakis como um ganho", afirma o
analista.
O melhor está por vir
A aprovação dos dois primeiros
pacotes de medidas, na quarta-feira da semana passada e na madrugada desta
quinta, era uma exigência dos credores europeus para iniciar as negociações
sobre um terceiro pacote de resgate à Grécia, estimado em cerca de 86 bilhões
de euros. As negociações têm de ser concluídas até 20 de agosto. Este é o prazo
para a Grécia devolver 3,2 bilhões de euros em empréstimos do Banco Central
Europeu (BCE).
"O mais difícil ainda está
por vir, algo que ainda não nos damos conta", alertou Alexis Papachelas,
diretor do jornal Kathimerini, em entrevista a um canal televisivo.
A questão agora é negociar um pacote de resgate detalhado até meados de agosto.
Experiências anteriores mostram, no entanto, que é difícil manter um calendário
rigoroso quando se trata da Grécia. "Eu temo que nós sigamos sob pressão
e, no meio de agosto, talvez sejamos forçados a requerer um novo empréstimo
emergencial", explica.
Possível renúncia
Enquanto isso, a revolta interna
no Syriza parece ter sido adiada, mas, na verdade, não terminou. Num discurso
inflamado antes do início da votação, a presidente do parlamento, Zoe
Konstantopoulou, que é membro do Syriza, apelou pela rejeição das medidas de
austeridade. Ele classificou as reformas como "chantagem flagrante"
dos líderes da União Europeia, que ofendem o parlamentarismo, a soberania
popular e a democracia na Grécia.
Konstantopoulou avisou que vai
levar o assunto para seus colegas europeus e exigiu apoio ao presidente grego,
Prokopis Pavlopoulos. Numa breve declaração, o chefe de Estado disse não ser
responsável por tal procedimento. Assim, foi agendada para esta quinta-feira
uma reunião entre Konstantopoulou e Tsipras. Em Atenas, começam a circular
boatos de que a presidente do parlamento poderia renunciar ou ser forçada a
deixar o cargo.
Líder oposicionista
Durante o debate parlamentar, uma
longa guerra verbal foi travada entre Tsipras e o líder conservador da
oposição, Evangelos Meimarakis. Depois de alguns parlamentares de esquerda
terem acusado os parceiros europeus de terem arquitetado um golpe contra o
Estado grego e Konstantopouloutere chamado os credores de "criminosos
contra a humanidade", Meimarakis foi irônico: "Os rebeldes e
criminosos acabaram de nos enviar 7 bilhões de euros para podermos cumprir com
as nossas obrigações mais urgentes".
Depois do ex-primeiro-ministro
Antonis Samaras ter jogado a toalha devido ao resultado do referendo no início
do mês, Meimarakis era visto como uma solução temporária para representar a ala
conservadora no parlamento grego. Mas ele parece estar se saindo bem. Numa
declaração conjunta, nesta quarta-feira, ele recebeu apoio de 48 deputados
conservadores, de um total de 76, para continuar conduzindo o partido.
Autor: Jannis Papadimitriou, de
Atenas (kg)

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