No Dia Mundial sem Tabaco,
especialistas alertam: cigarro ainda mata 200 mil por ano no País
No Brasil, costuma-se dizer que há
leis quem pegam e outras que não. A lei que proíbe o fumo em vários
estabelecimentos e locais no País pegou e atingiu seu alvo: o fumante, tanto o
de ocasião como o inverterado. Seja no âmbito federal ou estadual. Este 31 de
maio, Dia Mundial sem Tabaco, retrata em vários sentidos uma nova era: o antigo
charme de fumar se esvaiu como fumaça. E, segundo especialistas, o outrora
inabalável poder da indústria já não é o mesmo. Pode estar virando cinza.
É unânime a tese de que a nova
legislação foi determinante para acelerar uma tendência de queda que já vinha
se verificando há décadas, em razão da evolução da Medicina e das consequências
do fumo desenfreado na saúde da população. Diretora do ambulatório de tabagismo
do Incor, Jacqueline Issa, uma das maiores especialistas na área, comemora os
números alcançados no Brasil, segundo ela, muito em função das leis.
— Fizemos pesquisas em
restaurantes e outros estabelecimentos, medindo a dosagem de monóxido de
carbono antes e depois da legislação e verificamos uma queda abrupta. Tudo
mudou em relação ao hábito de fumar e isso impactou (positivamente) na saúde
das pessoas.
Ainda há, pelos números do Inca
(Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva), cerca de 200 mil
mortes no Brasil decorrentes do tabagismo, com câncer de pulmão e de laringe
liderando as causas.
Atenta aos males que o tabagismo
ainda causa (cerca de um terço da população mundial ainda fuma), Jacqueline,
conta, porém que está havendo uma melhora. Em 1989, diz ela, havia 30% de
fumantes adultos no País. Hoje este número está em 15%.
A Lei Federal Antifumo foi
regulamentada em 2014, três anos depois de sua criação. Com este instumento, o
objetivo do Ministério da Saúde é chegar a 9% até 2022. De acordo com números
do ministério, divulgados nesta semana, houve uma queda de 30,7% no número de
fumantes em nove anos.
O fumante hoje é um
"banido" diante de uma nova realidade que está se consolidando,
segundo a médica. Os que sobraram têm de fazer inúmeras manobras para se
adaptar: sair dos recintos, deixando conversas de lado, fumar antes das
reuniões ou até ir para um canto, escondido, com olhar assustado, dar umas
tragadinhas.
— Muitos fumantes me procuram
porque se sentem deslocados. Ficam constrangidos diante da maioria, não se
sentem bem, se sentem banidos. Não queremos que haja um clima de perseguição.
Mas a realidade fala mais alto. O não fumante é prejudicado com a fumaça do
tabaco e isso não pode acontecer. À medida que há esta proteção, o fumante
também se sente impelido a parar.
A psicóloga Cristina
Perez, consultora de Promoção da Saúde da Fundação do Câncer, no Rio de
Janeiro, também concorda que o fumante hoje não é tão bem visto, mas faz um
alerta.
— O fumante é uma vítima do
processo. Há estudo que mostra que 80% dos fumantes começa a fumar antes dos 19
anos, ainda adolescente, quando tem a ilusão de que é um sinal de maturidade,
entre outros símbolos. E ele se torna dependente. A sociedade não aceita mais
tão normalmente alguém fumando em um lugar fechado ao lado dos outros. Mas é
importante que as pessoas saibam que não é uma escolha. É doença classificada
pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Isso não quer dizer que os não
fumantes tenham de aceitar tal situação. Mas a abordagem precisa ser feita de
uma maneira educada.
Fumante passivo
O fumante agora se sente tragado
por seu próprio tempo, náufrago de uma época de glamour, em que fumar era
chique, para se tornar um excluído pela própria lei. O intuito da legislação,
como confirma a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, que criou em 2009
uma lei que proibe o fumo em locais fechados, não visava a princípio o bem
estar do fumante. Era sim evitar o prejuízo daquele que não fuma e inala grande
parte das 4.700 substâncias tóxicas que penetram em seus pulmões em forma de
fumaça.
"Desde 2009, até o início do
mês de maio, foram realizadas 1,3 milhão de inspeções e 3,1 mil autuações, o
que representa um índice de cumprimento da lei em torno de 99,7%."
De acordo com o Inca, o fumante
passivo também se expõe a riscos de doenças, aumentando em 30% o risco de ter
câncer no pulmão e 24% o risco de infarto do miocárdio. Por dia, sete fumantes
morrem em função do fumo passivo.
Jacqueline afirma que alguns
estudos mostram que, por não ter desenvolvido a mesma resistência, aquele
que não fuma pode ser até mais vulnerável à fumaça do que os fumantes,
considerados "vilões" nesta situação. Ela conta que, se um não
fumante fica exposto por 1h à nicotina, há uma alteração na parede dos vasos
sanguíneos, que ficam mais contraídos, por até 12h.
— A chance de ocorrência de
situações como AVC (acidente vascular cerebral) é real. Todo tipo de tabaco,
industrial ou não, de palha, cachimbo, charuto, narguilé (fumo típico árabe) é
prejudicial.
Em seu site
www.deixardefumar.com.br, a médica dá algumas orientações para aqueles que
querem abandonar o vício. Uma de suas ideias é a de que, mais do que força de
vontade, o fumante precisa ter boa vontade, dispondo-se a aceitar a ajuda de
profissionais da medicina que, dependendo do quadro, receitam medicamentos.
Nesse novo contexto, não foi de
repente que, de força poderosa, a indústria dos cigarros perdeu espaço na
sociedade e enfraqueceu seu lobby junto aos governos, segundo a especialista.
Ela acredita que, ao longo dos anos, as autoridades foram percebendo que os
ganhos com impostos não compensavam as perdas financeiras com as doenças
decorrentes do fumo.
— A campanha antifumo ganhou
notoriedade e força por causa de um aspecto econômico. A comercialização de
tabaco é lucrativa para as empresas. Mas para o país que fuma é um prejuízo
astronômico. É só fazer a conta.
Segundo dados do Inca, o
Ministério da Saúde gasta em torno de R$ 21 bilhões para tratar de doenças
estritamente ligadas ao tabagismo. Da indústria de cigarros, recebe anualmente
cerca de R$ 6,5 bilhões.
Cristina também considera que a
indústria perdeu força, mas ainda faz lobby com políticos, financiando
campanhas, e utiliza a publicidade indireta, com eventos glamourosos, de
decoração contemporânea e sedutora, para atrair consumidores, em geral os mais
jovens.

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